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  • OS ANDARES DA PERCEPÇÃO

    É comum dizer-se que aqueles que têm ideias demasiado avançadas para serem aceites no presente nasceram à frente do tempo. Philip K. Dick incorporou essa máxima, literalmente. Nasceu seis semanas prematuro. No entanto, a sua vida e a sua obra mostram-nos que, contrariamente ao que é dito pelos calendários e pelos relógios, talvez todos os acontecimentos ocorram na altura certa. Pelo motivo certo.

    O escritor passou a infância em São Francisco e desde cedo teve a companhia da contrariedade. Desde a morte de uma irmã gémea, a quem apelidaria de “gémea fantasma” nos seus livros, ao divórcio dos pais aos cinco anos. Ele próprio viria a casar cinco vezes, o mesmo número de décadas que iria viver. Foi estudar para a Califórnia, onde se apaixonou por Psicologia e Filosofia. Devorou os livros de Platão e Carl Jung, pesquisou, experienciou, desenvolveu e aprimorou uma natureza inquisitiva sobre a vida e a essência das coisas. Ao longo da vida lidou com a ansiedade e outros problemas de saúde, onde o recurso a anestesias e anestésicos esteve na origem do que apelidou de “experiências transcendentes”, que o fizeram mergulhar na metafísica. A mesma metafísica que está no DNA da sua extensa obra. Escreveu 121 contos de ficção científica ao longo das décadas de 50, 60 e 70, que eram vendidos a revistas de género por poucos dólares. Tão poucos que nem na idade adulta conseguiu afastar-se da sua companhia de infância. O seu carro foi apreendido pelas finanças, não raramente as suas contas mensais eram pagas por familiares e foi um colega escritor que lhe ofereceu uma máquina de escrever eléctrica, quando as manuais se tornaram obsoletas. Uma vida de pobreza que durou até ao seu último suspiro. À luz do presente, muitos classificariam a sua vida como uma vivência falhada, desprovida de mérito e sucesso. Mas os desígnios do destino são sempre percepcionados de forma limitada pela lâmpada do presente. É no candeeiro do futuro que o espectro de luz ganha dimensão suficiente para iluminar tudo o que antes fora invisível à percepção superficial.

    Nas décadas seguintes, o seu trabalho serviria de inspiração para inúmeros escritores e cineastas. Foi considerado  o “Shakespeare da Ficção Cientifica”.  São poucos os filmes do género que brilharam no grande ecrã onde os autores não tenham admitido ter sido influenciados pelo legado de Philip K. Dick. São tantos os testemunhos que percebermos que o escritor não nasceu cedo ou tarde, mas viveu na altura certa para inseminar a influência geracional em todo um género cinematográfico. Para além desse efeito influente noutras obras, 12 contos do escritor foram eles próprios adaptados ao cinema. Hoje, alguns desses filmes são autênticos clássicos, como “Blade Runner”, “Total Recall”, “A Scanner Darkly”, “Minority Report”. De todos esses, talvez seja uníssona a estranheza por eu escolher um bem menos conhecido para debruçar a minha atenção na segunda metade do texto. Também aqui, mais uma vez, essa luz que liquefaz interrogações e exclamações, acender-se-á mais à frente.  

     O filme é “ The Adjustment Bureau” (Os Agentes do Destino / 2011) e todos os que não o viram estão proibidos de continuar a leitura, pois o final será mencionado. Explicitamente.

     

    Há uma tendência humana muito comum – da qual me esforço por libertar e que espero um dia conseguir libertar-me por completo – que é julgar o todo pela parte.  É por isso que não gosto de julgar um filme pelo seu final. Abro apenas uma excepção: quando está presente incoerência. Ou seja, caso o argumento seja enrolado de uma forma cujo desenrolar exija coerência. Nesses casos, é difícil impedir que a parte contamine o todo. Mas há situações onde vejo um filme que me encanta do princípio ao (quase) fim e, quando os créditos começam a escorrer no ecrã negro, penso: “Eu escreveria o final de forma diferente”. Nesses casos não crucifico o filme. Nunca o fiz, nem enquanto crítico ou espectador. Sempre achei que seria um exercício egocêntrico e até pretensioso. Embora a lamente, não condeno a opção. Opto por tentar entender a razão por trás da opção. E é frequente descobrir que certas opções não dependem dos autores, mas dos estúdios, sendo escolhidas por motivos mais estratégicos do que artísticos. E nem todos os autores têm força para pontapear as concessões artísticas pela porta fora. Philip K. Dick pontapeou-as sempre ao longo da sua carreira literária, colhendo daí os diversos frutos consequentes atrás mencionados.

    Recentemente, vi “The Adjustment Bureau” pela terceira vez e continuo a gostar muito dele. Para além de me despertar uma espécie de sorriso interior, todos os visionamentos inspiraram conversas. Desta vez, inspirou-me a conversar também com o teclado.

    Não sei se é empatia ou simpatia que sinto pela premissa. Talvez ambas. Philip k. Dick idealizou-a no seu conto “The Adjustment Team”, publicado em 1954, onde usa uma metáfora deliciosa para abordar a influência dos sincronismos na vida humana. As danças entre o destino e o livre arbítrio e os pequenos auxílios que eventualmente o ser humano recebe e que apelida, inocentemente, de coincidências, acidentes ou acasos. A adaptação cinematográfica adensou a trama e a metáfora, retratando essa essência sincronística como uma corporação, com hierarquias e agentes vestidos como detectives dos anos 50, que têm como finalidade garantir que todos os “pequenos grandes” acontecimentos e interacções da vida ocorrem de forma propícia a um desfecho que o presente ignora mas que o futuro não só conhece como, tacitamente, anseia. Desde o primeiro visionamento (só posteriormente li o conto) que me senti deliciado com essa metáfora, toda essa representação alegórica dos mistérios da vida e da espiritualidade que, apesar da individualidade das nossas crenças, nos atraem de uma forma ou outra e continuam a semear pontos de interrogação nos nossos âmagos.

    Para além de interessante e inteligente, o argumento do filme é engraçado e faz a minha mente sorrir ao longo dos seus 99 minutos. Embora o sorriso esmoreça um bocadinho nos derradeiros. Nota-se que houve uma preocupação deliberada em deixar que um sentimento positivo perdurasse na audiência. Sente-se o intento das pessoas abandonarem a sala satisfeitas, sorridentes, felizes. Uma intenção que, a meu ver, torna o desfecho do filme demasiado apressado e com um sabor um bocado artificial. Não tenho nada contra os “Happy Endings” – embora tenda a concordar com o Stephen King, quando escreveu: “E vou agora dizer que eles viveram felizes para sempre? Não vou porque isso não acontece com ninguém. Mas houve felicidade. E eles viveram” – e até acho que se adequam bem a certos filmes, quando o próprio filme o exige. “The Adjustment Bureau” não o exigia.

    Pessoalmente, preferia uma abordagem mais dramática.  A dada altura, é confidenciado a David que se continuar o relacionamento com Elise, o amor não deixará necessariamente de estar presente, mas nenhum deles conseguirá viver de acordo com o seu verdadeiro potencial. Percorrerão juntos uma estrada, ignorando que há dois desvios que, se percorridos individualmente, levariam a um futuro brilhante para ambos. É preciso tomar uma decisão e colher os respectivos frutos.

    No desfecho escolhido, ambos decidem sabotar o destino e conseguirem tudo à força. Essa determinação é-lhes reconhecida e valorizada, ficando ambos com o melhor de todas as estradas. E é nessa altura que me surge o tal pensamento: “Eu escreveria isto de forma diferente”. Pela vontade da minha “caneta”, ele – que era o único que tinha conhecimento do rumo de ambas as estradas – opta por se afastar e, após um momento de incerteza, mantém o afastamento quando volta a quase esbarrar com ela. Mais tarde, entra num escritório, tira um álbum da estante e mete-o sobre a secretária, juntamente com um jornal. Recorta do jornal uma notícia sobre um feito tremendo dela na sua área, a dança, onde alcançou um prémio de enorme prestígio, e junta o recorte ao álbum. Derrama uma bebida num copo e fica a sorvê-la enquanto folheia e admira o álbum longamente, sendo perceptível as muitas páginas cheias de recortes de revistas e jornais que o compõem. Sente-se feliz com a escolha e o sacrifício que fez. Com o sucesso que ela alcançou. Não o incomoda que ela nunca saiba de nada disso, que eventualmente o possa considerar frio, insensível ou desonesto pelo seu súbito desaparecimento sem uma única explicação ou palavra de despedida. Lê um recorte com uma citação dela a dizer algo negativo sobre ele, na altura da sua candidatura ao senado e sorri. Compreende, sabe. Sabe os motivos, as intenções e a genuína sensação de felicidade por saber que a sua opção a ajudou a seguir o seu verdadeiro caminho. Isso chega-lhe. Alguém bate à porta e diz: “Está na hora Sr. Presidente”. A câmara permanece sempre focada no livro e acompanha-o, ao fundo, desfocado, a sair da porta.

    Esse era o meu final de “The Adjustment Bureau”. Não deixo de gostar muito do filme por ele não ter o desfecho que eu gostava, mas sinto que ele poderia ser ainda mais especial no meu altar cinematográfico, caso o argumentista tivesse optado por percorrer a estrada menos percorrida. Até porque, parece-me, entrava em consonância com a própria história de vida do autor que o inspirou. Acasos, infortúnios, coincidências, afastamentos, aproximações, acidentes, sucessos, fracassos, tudo faz parte da mesma madeira com que se constrói a escada. E é só no final, quando podemos contemplar as coisas do último degrau, que constatamos que chegámos onde chegámos não apesar do que nos aconteceu, mas por causa do que nos aconteceu.



  • O TANQUE QUE LAVA EPIFANIAS

    Os olhos fundem-se no feixe de luz que projeta a imagem na parede caiada. Já a mente, essa deambula, inquieta. Dizem que Michelangelo, quando confrontado com um bloco de mármore, viu a estátua de David. “O meu ofício, enquanto escultor, foi apenas libertá-la do seu interior”, terá proferido.
    Ora eu sei, desde o momento que trespassei uma enorme portada verde na zona histórica de Viseu e me sentei nesta manta, num pátio de pedra antiga, que estava diante de uma reportagem. Estou desprovido de todas as ferramentas do ofício. Entrei ali por mero acaso, empurrado por um caricato conjunto de coincidências. Mas num par de minutos, o ímpeto de reportar subjugou o desejo de desfrutar.

    Em meu redor estão 30 pessoas, sentadas em mantas e almofadas, debaixo de um díospireiro e de uma noite quente de agosto, a visionar curtas-metragens projetadas sobre um velho tanque de pedra, revestido a musgo. O silêncio da audiência é acompanhado pelo cântico dos grilos e pela brisa estival, que percorre estas vielas repletas de história e revela a sua presença com a dança noturna das folhas da árvore. Há drama, tensão, ação, comédia, ternura. E acima de tudo, imensa cumplicidade.

    Decorre a quinta sessão do Curtas Ao Tanque (CAT), iniciativa na loja cultural EMPÓRIO (integrante do Projeto Património), que veio ao mundo este ano. Há dois rostos por trás do certame: Luís Belo (24) e Carlos Salvador (44). O primeiro é um homem de vários ofícios. Ilustra, fotografa, faz design gráfico, idealiza projetos culturais, realiza documentários, toca metalofone. O segundo é conhecido na cidade como o “senhor curtas”. Professor de Educação Visual na EB23 do Viso, mentor do clube de cinema da escola e organizador de residências artísticas, Salvador já viu serem produzidas mais de 100 curtas-metragens pelos seus alunos. Luís Belo idealizou o CAT. Lançou de imediato o repto a Salvador. “Não há ninguém em Viseu mais apaixonado e com vontade de fazer coisas lindas do que ele”, afirma, destacando a sua experiência na área. Salvador exercitou essa experiência com um périplo por festivais de cinema em 2011. Fantasporto, MOTELx, Shortcutz, Caminhos do Cinema Português, Córtex, Avanca, Curtas de Vila do Conde. Colecionou quilómetros e filmes, conviveu com realizadores, apurou o seu poder de síntese. Juntos, passaram às decisões. A primeira: Só curtas-metragens portuguesas. “Persiste um preconceito numa grande fatia de espectadores em relação às produções nacionais. Grande parte por desconhecimento do muito que se faz por aí”, refere Luís Belo, assegurando que um dos objetivos do CAT é contribuir para a alteração dessa realidade.

     

    RODAGEM

    E o contributo continua esta noite, com mais cinco curtas portuguesas apresentadas ao público. A projeção da primeira, “They Shoot Crows…Don’t They?”, de Joana Sá, coincide com uma salva de foguetes que faz estremecer a plateia. Na baixa da cidade é celebrada a abertura da Feira de São Mateus, curiosamente no preciso momento em que Luís Belo pressionou o play. Alguém brinca e alude à cinefilia entusiasta do referido santo. Sorrisos, gracejos, novo arranque. 25 minutos depois, Joana Sá vai ao tanque. Prevalece uma espécie de mito brincalhão que reza que no final de cada projeção, o respetivo realizador, se presente, é atirado ao tanque. Não o vou desmistificar, mas é um facto que o autor se dirige ao tanque. É lá o púlpito onde discursa sobre o filme e responde a questões da audiência. Alguém identifica influências de Lynch e Cronenberg na obra. A realizadora confirma o primeiro, acrescenta os argumentos de Michel Gondry como inspiração narrativa e o filme “Mister Nobody”, como referência técnica. Confessa que o seu filme não é suposto ter uma história e perturba-a quando as pessoas a encontram. “Quis fazer algo diferente, com princípio, meio e fim, não necessariamente narrativo, mas bonito em termos visuais”.

    “Como te deixaram fazer este filme?”. Salvador está admirado. É um projeto de final de curso (Universidade da Beira Interior), onde é costume seguir uma estrutura mais plana, tradicional, académica. “Este filme é montanhoso”, refere, aludindo à sua complexidade. “É comum os professores estarem pegados à noção que o aluno só deve soltar as asas quando tiver autonomia para tal”, explica, felicitando o arrojo e destacando a fotografia: “Há planos que davam pinturas fabulosas”.

    Segue-se “O Milagre”, de Amadeu Pena da Silva, cuja manifestação arranca risos à audiência. “Acho esta escolha pertinente pois trata-se de um trabalho de um finalista do ESMAE, uma escola com muitos créditos no ensino de multimédia em Portugal”, refere Salvador, salientando a fotografia: “cores fantásticas”.

    As lágrimas chegam ao final de “Um dia Longo”, um drama enternecedor sobre um neto que perde o avô e, impelido por uma mescla de inocência e emancipação, tenta lidar com a situação. Salvador confessa que é um filme “particularmente especial” para si, que lhe humedeceu os olhos no primeiro visionamento, no Shortcutz Lisboa. “O Sérgio Graciano [realizador] é um valor seguro”, afirma, destacando a “formidável construção das personagens”.

    “Um último Olhar” é um projeto que venceu a categoria da maratona 48 Horas do Festival de Vila do Conde, onde os concorrentes dispõem desse espaço de tempo para produzir um filme. Luís Sérgio (22) e Hélder Faria (21) – que juntamente com Michell Silva (24) compõem o tríptico de realização – marcam presença no CAT. “A nossa principal fonte de inspiração? A falta de recursos”, brinca Luís Sérgio. “Tínhamos muitas ideias, mas todas impossíveis de concretizar nesse curto espaço de tempo. Optamos por algo mais experimental”, afirma Hélder Faria.

    Carlos Salvador sorri ao apresentar o filme. Conhece os intervenientes, foram seus alunos e participaram numa iniciativa organizada por si – Aviso@24 – residência artística da escola do Viso, onde os participantes tinham 24 horas para produzir um filme. “Já tinham treino. Com o tempo duplicado, foi canja”, afirma, sorridente. “Uma ideia bem trabalhada, bem editada”, foram as valências destacadas.

    Os arrepios ficaram para o fim, com “Survivalismo”, um thriller de autoria de José Pedro Lopes, que desperta imensa curiosidade a Carlos Salvador, devido à boa reputação que o filme detém nas comunidades virtuais desse género cinematográfico. A plateia assiste enregelada, imersa num silêncio tenso, apenas quebrado por um momento de humor. O organizador salienta o trabalho de realização, onde “os enquadramentos conseguiram passar o drama para o espectador sem que este tivesse acesso à face e às expressões do personagem”.

     

    CENÁRIO

    No CAT, os filmes quase disputam a ribalta com o vasto mundo de peculiaridades do espaço. O olhar de Luís Belo parece entreabrir-se, fatigado, quando recorda o estado do local há três anos: “As Silvas eram tão densas que não se via nada para além da porta, nem sequer o tanque”. A equipa meteu as mãos à obra e recuperou o seu EMPÓRIO. Fizeram recuar a invasão da vegetação até um canto, onde ainda perdura um pé de silva que dá amoras no verão. O voluntarismo dos amantes do espaço fez e ainda faz a diferença. As mantas e as almofadas onde estou sentado foram trazidas por espectadores. O projetor, erguido numa pilha de livros do Asterix, é emprestado. Os bolinhos de limão que servem de petisco para a sessão foram feitos por Ana Seia de Matos (31), namorada de Luís Belo. E os dois peixinhos dourados que habitam no tanque foram oferecidos por um cliente da loja.

    O encanto do convívio e visionamento de filmes ao ar livre preenche o quadro, com toda uma envolvência que parece confluir para intensificar sensações. Seja a brisa que nos afaga o rosto durante um momento enternecedor, como o gato que emerge subitamente das plantas no decurso de um filme mais tenso e pula para os telhados limítrofes.

    E se até São Mateus se revelou entusiasta, já São Pedro não tem sido um aliado leal. Choveu durante a sessão anterior. O duo organizador teve de recolocar 36 pessoas no interior da loja, num espaço exíguo, sentados num chão cor de sangue e acotovelados entre estantes de livros antigos, discos usados e antiguidades. “E isto durante mais de uma hora, estava com receio que ficassem aborrecidos, com o rabo dormente”. Contrariamente ao temor de Luís, a audiência valorizou a experiência. Gostaram, não apesar da contrariedade, mas por causa dela. “Sentimos que essa cumplicidade que se tem gerado é amplamente apreciada”.

     

     

    DESÍGNIO

    “Empurrar!”. Carlos Salvador sintetiza num único verbo o principal desígnio do CAT. Pressinto que ele vai prosseguir, logo refreio a pergunta óbvia: “Para o tanque?”. Explica-me que há outros eventos na cidade, embora a um nível “mais elitista”, onde são visionadas obras de autor, como Jean-Luc Godard, entre outros.“Um jovem sai de lá muito mais rico culturalmente, mas olha de baixo para cima para as obras. Não sai encorajado, com vontade de fazer algo, criar algo”. Constato o empurrão e sorrio, por ele se coadunar, analogamente, com a minha dedução anterior e também pela imagem mental de um tanque purificador de epifanias artísticas para onde os discípulos são atirados. Salvador prossegue: “Mostrar, divulgar, encorajar”. Em suma, “empurrar” quem tem sonhos na área do cinema na direção da sua materialização. “É uma função subliminar, não assumida, que reside nas entrelinhas e aguarda pacientemente por ser assimilada”. A paciência compensa. “Por vezes, no final das sessões, o público mais jovem vem-me dizer que quer filmar, quer fazer coisas, quer saber como começar”. Um desses episódios ocorreu na terceira sessão. Um jovem estudante de letras do 11º ano abordou Salvador. Relatou o seu gosto pela escrita e apresentou um dos seus textos, que achava ter potencial para um argumento. Salvador leu-o atenciosamente. Deu-lhe um contacto de um aluno seu, que sabia fazer edição. Juntaram-se os dois. Falaram. Juntaram-se a outros. Na sessão seguinte do CAT, o filme “O Suicida” estava concluído. “Embora tenha limitações técnicas óbvias, o argumento é uma mais-valia, tal como a enorme vontade dele em fazer. Contagiou, arrastou os outros”. Um empurrão que deixa Carlos Salvador feliz. “Podia ficar vaidoso, mas fico apenas feliz”.

     

    PÓS-PRODUÇÃO

    O duo organizador partilha de uma predileção por números redondos, mas tem sido o número cinco a predominar nesta primeira edição do CAT. Cinco sessões, 25 filmes, 155 espectadores. No próximo dia 24 ocorre a última ida ao tanque, com mais cinco filmes projetados. Seguir-se-á um interregno, “tempo de fazer balanço, maturar ideias”. E como fluem, as ideias na mente do duo. Desde uma maratona de 24 horas de curtas, à expansão do festival para duas edições anuais, Inverno e Verão. Enquanto esgrimem sugestões, é percetível um brilho liquefeito no olhar de Belo e Salvador. Uma centelha idealista, que denota genuína paixão pelo que estão a criar. Abandono o Empório, acompanhado por uma intangível sensação que também eu fora empurrado.



  • A JUKEBOX DOS CAMINHOS

    O banco ao lado do seu estava vago há mais de uma hora. Os seus pensamentos também, ou pelo menos assim percecionaria quem o observasse do outro lado do bar. Calado e retraído sobre o balcão, com o olhar perdido na neblina de fumo que saía da chávena. Perdido como um caminhante nos planaltos verdes do norte, desnorteado pelo nevoeiro matinal. Errante como um vagabundo. Decifrável como um poema indiscreto.
    Assim pensariam.

    Na realidade não estava vago, nem perdido, nem desnorteado. Errante, sim. O seu pensamento errava por milhares de terras, lugares, cantos, outrora desconhecidos, sem que no entanto ele percebesse como, pois percorrera-os toda a sua vida.

    Aquela conversa surtira um efeito curioso. Talvez tivesse sido demasiado longa, demasiado unilateral para ser apelidada de conversa. Uma epopeia oratória? Demasiado rebuscado. Uma viagem, uma boleia? Uma visita guiada? Sim, uma visita guiada. Aquela visita guiada levara-o a ver serem içados pequenos pontos de interrogação sob todos os terrenos que conhecia.

    Sempre fora governado. E sentira-se bem assim. Protegido. Essa sensação, essa convicção era espessa como grossas vestes de lã, que sempre o tinham agasalhado, confortado. Esta noite, pela primeira vez, sentira que afinal o tecido dessas vestes era leve como cetim, como adereços de um velho e antigo, muito antigo teatro.
    A visita guiada levara-o a esse teatro, aos seus bastidores. À vasta profundidade dos seus bastidores, imensurável quando comparada com a da plateia. E tudo ganhou nova luz.

    Na exiguidade daquela plateia conseguia vislumbrar as ruas que percorria diariamente, os sinais de trânsito que as condicionavam, os pequenos hábitos instalados que alimentava, quase mecanicamente, sem na verdade entender porquê. O que pediam de si enquanto cidadão, o que anuía enquanto cidadão. O quão perpétuo era o alojamento das lascas dos remos na mesma carne, nas mesmas mãos. O quanto oca era a esperança de novos rumos e a carícia tetradáctila que a massajava. O quanto enrugado era o carácter esclavagista da ilusão de liberdade. E o quanto era áspero, afinal, o subtil toque do conformismo.

    Sentia-se dividido nessa errância. Como uma bifurcação percorrida em simultâneo, com sentimentos de libertação num dos caminhos e de revolta no outro. Nesse último, mais do que revoltado, sentia-se deprimido a cada passo, pela recta que se espreguiçava até bem longe no horizonte e pela percepção da profundidade tentacular da máquina que a trilhara.

    Estremeceu com o sabor frio do café. Levantou-se, pôs a mão no bolso e retirou algumas moedas, que pousou no balcão. Uma delas caiu, fez um barulho seco ao embater no chão de madeira e rolou até à jukebox. Mesmo sabendo que a máquina estava há muito avariada e o seu propósito era meramente decorativo, achou caricata a situação. Tinha algo de verdade.

    Já perdera a conta às vezes que a música tinha sido o seu oráculo. Porque não hoje?

    Tirou o iPod do bolso do casaco e decidiu que ouviria a música correspondente ao valor da moeda. A número 20, portanto. Não gostou. Resolveu fazer batota. Afinal, era dono do próprio destino.

    O som cavalgou pelos seus phones e ele encontrou o sorriso que o arrastaria dali para fora. A bússola que lhe nortearia as ruas, da cidade e do pensamento.

    Estava escuro, frio e vento cá fora. Sabia que não estava bem agasalhado mas não se importou.
    Esfregou as mãos, riu-se e disse – Bom dia caminho!

    iPod



  • O MOSTEIRO

    Enfio o bilhete de comboio entre as páginas do livro de Murakami e perco-me na paisagem que escorre lá fora, como aguarelas frescas numa tela inclinada. Algures nessa tela de vidro perdura uma recordação longínqua. A de quatro jovens aguedenses que um dia se enfiaram num comboio rumo a Viana do castelo, impelidos por desejo de aventura e descoberta.

    Tinham ouvido falar num velho mosteiro com paredes de granito, escondido no meio do mato, cujas ruínas estavam repletas de lendas sobre assombrações e actos macabros.
    Histórias seculares de monges que violavam freiras e que, nove meses depois, enterravam o fruto do crime nas traseiras. Em certas noites sem vento – dizia-se – ainda era possível ouvir o choro dos bebés, como que um eco eterno que ainda colidia nos blocos de pedra, rancoroso por em tão terna idade ter sido silenciado para sempre.
    Constava-se também que os espíritos dos monges e das freiras habitavam o local, fria presença conservada por dois dos mais perpétuos sentimentos: o remorso e a vingança.
    E relatos de túneis secretos que ligavam o mosteiro ao convento – que anos mais tarde eu veria desmistificados por um arqueólogo companheiro de inúmeras reportagens, que me garantia tratar-se de um mito perpetuado um pouco por todo o país, fomentado pelo “eterno interesse pelo profano no imaginário popular”.
    E claro, os famigerados rituais satânicos que lá eram celebrados, tendo todo esse misticismo como palco.

    Os jovens passaram uma noite de tempestade perdidos no monte de Santa Luzia, com os relâmpagos como única lanterna e a impulsividade como único mapa. Tropeçaram em galhos nocturnos, sentiram o piar sombrio das corujas nas suas nucas, até atravessaram um campo de tiro do exército, de mansinho para não alertar o sentinela que se aquecia com uma fogueira na guarita. Amanheceu sem que conseguissem encontrar o mosteiro. A dificuldade adensou-lhe o misticismo e aguçou-lhes o apetite. Gerou-se uma espécie de pacto tácito. Voltariam a tentar, um dia.

    A reminiscência deve ter durado algum tempo, o vidro estava embaciado. A última vez que fiz esta viagem de comboio foi há 15 anos – pensei. Metade de uma vida! Quantos sonhos de juventude são perpetuados pela idade adulta? Será um erro fazê-lo? Ou será um erro enterrá-los precocemente, arriscando ouvir o seu choro distante nas noites mais silenciosas?

    Mais tarde, sentado num dos túmulos de mármore do mosteiro, acompanhando as suas inscrições em latim com os dedos e aquele ambiente deliciosamente sombrio com os outros quatro sentidos, a resposta sussurrou-me que eu não precisava dela, pois sempre a conhecera ao longo da vida. E sempre a conheceria. Concordei, despedi-me dela e fui explorar o resto das ruínas com um sorriso de criança entusiasmada nos lábios.

     



  • A ASSOMBRAÇÃO DA PORTA 18

    A noite parece estar mais silenciosa do que o costume. Talvez por isso, os passos na calçada fazem um eco que acompanha o casal pelas vielas escuras do centro histórico. Ela dispensava essa companhia. Mete-lhe medo e para esse efeito já lhe bastara a conversa dele:
    – Sabes, travaram-se aqui imensas batalhas no passado. Muita gente teve uma morte agonizante no chão que caminhas.
    Ela debruça o olhar sobre o solo com algum receio e ele aproveita para complementar:
    – E nunca abandonaram o local.
    – Nunca abandonaram como? – replica ela.
    – Os seus espíritos permanecem. Alguns estão apenas confusos. Outros, revoltados.
    – Revoltados? Revoltados com quem?
    – Com o destino que tiveram. Não o compreendem e por isso descarregam a sua incompreensão sobre quem encontram.
    – Acreditas mesmo que isso é verdade?
    – Só nesta rua, já ouvi falar de duas casas que estão abandonadas porque as pessoas já não aguentavam as coisas estranhas que lá aconteciam.
    – Tudo o que é estranho deixa de o ser, quando se encontra a explicação.
    Ele acena com um sorriso.
    – É precisamente quando não existe uma explicação que acontecem os abandonos e as fugas.
    – A tal surpresa que me falaste não é uma visita a uma dessas casas pois não?
    – Dentro de poucos instantes já vais saber.
    – Devo preocupar-me?
    – Não tens nada a temer. Ou melhor, vais temer sim, mas de forma positiva e em segurança.
    – Vou temer de forma positiva? Em segurança?! Mas o que raio queres dizer com isso?
    – Já vais perceber.
    Continuam a caminhar pelas ruelas sinuosas. A aragem é fria e ela sente-a no rosto. Tão fria que o verão parece uma recordação distante. “Estará mesmo tanto frio ou estou a deixar-me condicionar pela conversa dele?”, questiona-se. O silêncio parece enregelar ainda mais o ambiente. Resolve quebrá-lo.
    – Acabámos de sair de uma rua que se chama “Rua Escura”, para agora entrar numa que se chama “Senhora da Boa Morte”. Estás a fazer de propósito?
    – Não, é pura coincidência.
    – Não me parece nada uma coincidência.
    – Então parece-te o quê?
    – Sei lá, uma partida tua…
    – As coincidências também têm sentido de humor.
    Ela resigna-se com a resposta e continua a caminhar. O seu receio caminha de mãos dadas com a curiosidade. Resolve deixá-los ir. Segue-os.
    Dobram uma esquina e ele puxa-a pela mão, para lhe travar o movimento. Sorri-lhe.
    – É aqui.
    Ela ergue o olhar e depara-se com um velho edifício abandonado. Telhado a cair, vidros partidos, teias de aranha. “Tinha de ser”, pensa.
    – Hoje é dia 18. Trazes-me para uma casa abandonada com o número 18. Outra coincidência brincalhona?
    – Se assim for, porque haverás de as temer? Sorri-lhes de volta.
    Ela ainda estava a tentar digerir a resposta quando o destrancar da pesada porta de madeira lhe arranca um sobressalto. Salta de lá um anfitrião barbudo, cuja boa disposição lhe tranquiliza a inquietação. Para ser agitada logo a seguir:
    – Lembra-te: vais temer em plena segurança. Repete essa frase caso sintas que o medo se está a apoderar de ti.
    Ela olha em redor. O espaço é escuro e húmido. Estão algumas pessoas sentadas no soalho. Sentam-se. Há um murmurinho indecifrável no ar, que é apagado subitamente por uma luz branca que surge ao fundo da sala, em forma de quadrado. A luz é ofuscante, intensa, quente. Todos olham para ela sem desviar o olhar. Parecem materializar-se algumas palavras na luz. Pouco a pouco, vão-se tornando perceptíveis: Shortcutz Xpress Viseu. Ela respira fundo. Por um lado, aliviada. Por outro, como se quisesse armazenar todo o ar possível, que tanta falta lhe ia fazer durante a maratona de oito curtas-metragens de terror.
    “Estou em segurança”
    “Estou em segurança”
    “Estou em…”

    (Fotografia: José Cruzio)



  • AREIAS NOCTURNAS

     

    Há muitos, muitos verões atrás, numa praia não tão longínqua, ela sussurrou as palavras ao meu ouvido:

    “When the night has come … and the land is dark…”

    A areia estava fria. Ouvia-se à distância a revolta do mar noctívago; as ondas eram como trovões sem relâmpago, tal como o vento, madrugador, que assobiava na escuridão. Desse continuo fervor, a maresia chegava-nos aos rostos.

    “And the moon is the only light we’ll see”

    Tendo a brisa nocturna como rival, acariciava-lhe o cabelo loiro e saboreava cada uma das letras que escorriam da fonte que me saciara, cadenciadas, numa languidez apenas alcançável em praias e pensamentos desertos.

    Já o olhar, esse ardia. Folheava nos seus olhos páginas e mais páginas de excitação e medo, escritas pelo punho da paisagem sombria. A mescla também era induzida por um ligeiro tremor dos lábios, vibração que quase, quase sentia tocar no meu lóbulo frio. Quase.

    “No I won’t be afraid, no I won’t be afraid

    Just as long as you stand, stand by me”

     



  • PAREDES HUMANAS

    Casa. As paredes da palavra parecem um amontoado de tijolos açucarados na escrita de Ralph Waldo Emerson. Era encantadora a forma como ele romantizava as casas. “Feliz é a casa que abriga um amigo”. Ou ainda: “O ornamento de uma casa é o amigo que a frequenta”. E embora ambas as minhas naturezas de anfitrião e de refugiado esbocem sorrisos concordantes perante essas frases, não são elas que habitavam o meu pensamento, este fim de tarde, quando me deparei, mais uma vez, defronte daquela casa. Deve ser uma das casas mais humildes que já vi – mesmo tendo já viajado por países do terceiro mundo – e no entanto a sua humildade parece coadunar-se com um certo encanto que, de alguma forma, me toca. Mais do que um encanto, uma estranha sensação de familiaridade.

    Olho para a sua estrutura clássica, com o seu telhado em V e a chaminé num dos cantos. A porta pintada de azul, um azul desmaiado e ao mesmo tempo vívido, como um olhar nórdico. O arbusto que espreita à janela, as sombras desenhadas pelas árvores de fruto e a forma bucólica como o vegetação a contorna, como uma ilha num oceano de águas verdes. Que belo, que sereno será o barulho trémulo dessas águas nos dias de vento, tal como o silêncio nocturno dos céus estrelados, apenas perfurado por cantigas de grilos e cigarras. E olho as suas cicatrizes, inúmeras, que tantos segredos vincarão consigo.

    Cerro o olhar e imagino o seu interior. Aconchegante. Um sofá de couro castanho-escuro desbotado junto à janela, que recebe a luz do sol da manhã. O perfume de café acabado de fazer que se espalha pelas quatro paredes. Prateleiras rústicas e mal pregadas cheias de livros, que vão desde as planícies quentes de Hemingway às tundras geladas de Tolstoi. Um soalho de madeira que range ao ser calcado. Uma secretária cheia de papéis, mapas e artigos de jornal recortados, ligeiramente submersos no metal enferrujado de uma máquina de escrever Remington sem a letra M; uma amarelada edição de The Catcher in the Rye num dos cantos, com um perfeito circulo cor de avelã na capa, tatuado por uma chávena indolente; um amontoado de passaportes encardidos com memórias não declaradas em mil alfândegas; e uma velha Rolleicord V a fazer de pisa-papéis. Na outra parede, uma pequena lareira de tijolo, não muito distante de um modesto balcão de cozinha. E um baú, por baixo de um beliche com mantas quentes de lã.

    Saio e bato com a porta, mental, que fica entreaberta. E a imaginação volta a escapulir. Imagino que se o seu dono um dia reconhecesse as minhas (muitas) visitas, tal como o motivo que as move, talvez me convidasse a entrar. Apertar-lhe-ia a mão, mas nunca aceitaria. Há excepções à minha fome por realidade. Esta casa é uma delas.

    É algures nesse jejum que me surge a tal oração de Emerson. “Toda a casa é uma citação de todas as florestas, minas e pedreiras”. Só hoje, só nestas tardes, resolvo parafraseá-lo – nada que um convicto transcendentalista não perdoasse – acrescento uma vírgula entre as duas últimas palavras e expando a frase: … e memórias. As vividas e as por viver.

     Poderia ser final, o ponto. Podia encerrar aqui, o último parágrafo servia perfeitamente de chave. Mas não me apetece trancar ainda o texto. O sono é um sonho ainda distante. A ebriedade ainda paira no ar, como um espectro tentador. Auto-exorcizar-se-á, algures na noite.

     Essa dança entre o olhar e a imaginação conduz-me a um pátio, numa praia vianense, nos últimos dias do ano.

    O anúncio prometia uma casa junto à praia. Fiquei algo desiludido quando verifiquei que, embora isso fosse verdade, não tinha o mar à vista. Uma duna enorme, coberta de vegetação, cobria a linha do horizonte. Torci um pouco o nariz. Tinha idealizado passar algumas tardes a ler e a escrever, sentado numa mesa do pátio, com o mar como cenário inspirador. Um desígnio que aparentemente tinham acabado de me amputar. As aparências iludem tanto.

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    Algures nas primeiras horas, pousei o livro, pleno de contentamento com a fluidez da leitura. Estava a ser embalado pelo barulho do mar. Não o via, mas sabia que estava ali, mesmo ao meu lado. Para além de confortante, era um embalar que estimulava a imaginação. Os pensamentos vagueavam, nadavam por entre um mar invisível aos olhos, mas visível à mente.
    “Via-o” diferente todos os dias. Azul-escuro e tempestuoso. Turquesa e tranquilo. Sulcado por cargueiros de ferro ou naus de madeira.

    Foram muitos os instantes onde jurei ter sido melhor assim.

    Os momentos passados naquele pátio recordaram-me a importância do oculto.

    O que não é dito e é transmitido por um sorriso. O que não precisa de ser explícito pois está implícito num gesto. O que não é vislumbrado, mas sentido. O que está coberto e é despido pouco a pouco. O quanto o conhecimento mútuo dispensa mapas ou cábulas. O quanto a nossa visão é uma mera interpretação cerebral de um impulso nervoso transmitido por um nervo óptico.
    O quanto pertinente era a convicção de Ralph Waldo Emerson, que defendia que o ideal espiritual transcendia o físico e o empírico e apenas podia ser compreendido pela intuição.

    E o quanto existem paredes vãs. Na tua casa ou na minha.