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  • O PUTO QUE CRUZOU A EUROPA NO DORSO DE UMA SCOOTER «II – A Partida»

     

    O Puto esfrega os olhos. Não acredita que a sua Buxy é a mesma. Para além de ter efetuado uma revisão geral a todas as peças, a Peugeot instalou um conjunto de modificações na scooter que prometem ser bastante úteis. Colocaram um painel de plástico com iluminação junto ao visor, onde poderia ser encaixado o roadbook. Acrescentaram uma saída de isqueiro no painel principal onde, para além da chama, poderia ser carregada a bateria do telemóvel, ligada uma lanterna ou até alimentado um compressor portátil, instalado na lateral da motorizada. O Puto foi ainda surpreendido com um fato térmico vermelho, com botas a combinar, ambos forrados a neoprene para fazer frente às temperaturas negativas dos Alpes. “Estou ansioso por meter isto na estrada”, pensou, quando desembrulhou o presente de Natal antecipado. Falta menos de um mês para o arranque.


    Rodagem

    Contrariamente à expectativa inicial, a máquina não vai ser inaugurada na partida para a Alemanha. O Puto é aconselhado por um técnico da Peugeot a fazer uma viagem preliminar de rodagem, para preparar a mecânica renovada da scooter à violência dessa distância. Consulta o calendário de concentrações. Uma semana antes da data estimada da partida (18 Jan), tem a concentração dos Pinguinos, em Tordesilhas. Decide voltar a ir lá. Mais uma vez, Tordesilhas volta a ser um teste, uma derradeira etapa antes do sonho.

    Tordesilhas volta a ser um teste, uma derradeira etapa antes do sonho


    A palavra teste adequa-se mais do que nunca. O Puto não vai poder passar os 40 KM/hora na primeira metade da viagem. Ou seja, 600 quilómetros por estradas secundárias numa estimativa de 15 horas de viagem. Um verdadeiro teste à paciência e à determinação.

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    O Puto e a sua scooter, renovada para a viagem

    – Siga – afirma, mentalizado. Prepara a viagem em tempo recorde, inversamente proporcional à sua duração recorde. Arranca quando os primeiros raios de luz rasgam a noite. Chega a Tordesilhas de madrugada. Está estoirado, monta a tenda mas não vai dormir. Um espanhol reconhece o símbolo do grupo motard nas costas do seu colete. Aborda-o, descobrem que têm amigos em comum. Bebem uma cerveja junto à fogueira a poucos metros das tendas. O tema da grande viagem acaba por surgir.

    – A los Elefantes verdes? Eres un tonto. La lambreta no llega allí.

    – Espera e verás – afirma o Puto, acenando com a garrafa de San Miguel.  Sorri perante a descrença, já se habituou a ela. Nunca a ignora, armazena-a num pote invisível, ao qual pretende recorrer nas horas de maior dificuldade, em busca de combustível motivacional. Recorda um artigo que leu numa revista do pai sobre a psicologia das cores. O laranja era a cor da descrença, do pessimismo. Sorri ao apelidá-lo, mentalmente, de “pote laranja”. Sabe que não terá dificuldade em atestá-lo.

    Contempla por breves instantes aquele quadro. Ambos os companheiros da estrada estendidos ao relento, com as pernas esticadas e os pés aquecidos pela fogueira, as fagulhas que se elavam na noite invernal, tal como a suave arrogância do desígnio inimaginável daquele puto, o sonho impossível que paira sobre todas as atenções e se debruça sobre todas as convicções. Apetecia-lhe emoldurar aquele momento, capturar aquela sensação, aquele entusiasmo preliminar que embriagava cada célula do seu ser. Foi ali, numa noite emprestada pelo país vizinho, ao correr o zip e cambalear para dentro da tenda, que tomou consciência que estava a menos de uma semana da partida.

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    Ricardo Rodrigues num convívio motard, antes da partida para a Alemanha


    Artilhar a mota

    Os últimos preparativos foram os mais intensos. Como decidir o que levar numa aventura de 30 dias – quinze de ida, quinze de volta – e que coubesse no assento de uma scooter? Começou por dispor material em cima da cama e rapidamente chegou à conclusão que eram coisas a mais. Ia ter de fazer concessões.

    Tem dois alforges – cosidos pela tia numa espécie de tecido rígido típico das coberturas dos sofás – onde ia levar a roupa. Decide levar quatro mudas completas, não sabe se terá oportunidade de lavar/secar roupa com o tempo cinzento que se faz sentir. Decide juntar uma quinta, não cabe, retira-a. Enrola duas toalhas de banho e força-as para dentro dos alforges. Já não cabe lá mais nada. Amarrados com elásticos no corpo da mota, leva o saco da tenda, uma colchonete e três sacos-cama, que impermeabiliza com sacos pretos do lixo. Uma mala castanha de tiracolo – carregada com máquina e rolos fotográficos, documentos, papéis, canetas – serve de encosto no banco da scooter.
    Os punhos da motorizada estão cobertos pelo mesmo material dos alforges, numa capa improvisada para proteger as mãos da chuva e do frio, presa ao guiador com várias voltas de fita-cola. Amarrado à tralha, leva ainda um cantil antigo em pele, “mais para o estilo do que para outra coisa”.

    Passou os últimos dias a desdobrar-se em entrevistas para jornais e rádios locais. A curiosidade era grande e facilmente se alastrou, primeiro pela cidade, depois pelo distrito. Mais tarde, pelo país.

    No penúltimo dia, sentou-se na sala de reuniões do Clube Motard do GICA e passou a tarde a organizar um dossier de viagem. Escreveu à mão todo o itinerário de ida e volta, com todas as cidades por onde ia passar e uma estimativa de todas as zonas onde iria atestar o depósito e passar as noites. Fez um levantamento dos parques de campismo das cidades espanholas, francesas, italianas, austríacas e alemãs que iria atravessar. Juntou ainda um mapa português, um ibérico, um francês e um de toda a Europa Ocidental. Por último, inseriu uma folha rasurada com vários contactos de amigos ou conhecidos que vivem ao longo do percurso.

    Deitou-se cedo mas dormiu menos horas do que previa. A ansiedade mantinha-o acordado. “Cum carago, onde me fui meter? 18 aninhos e vou fazer uma coisa destas”, pensava, envolto numa mistura de receio com emoção, mas com uma vontade superior a tudo.


    Dia D

    A partida está marcada para as 20 horas. Durante a tarde, o Puto faz os últimos preparativos na mota. O depósito já está cheio, em ambas as faces dos alforges está bordada a bandeira portuguesa, e há mais um saco para juntar aos cerca de 50 quilos de bagagem. Foi cedido pela Câmara de Águeda e tem diversos materiais relativos à cidade (pins, brochuras, bordados, galhardetes) para serem entregues à organização do evento. Foi com algum assombro que constatou que a carga amarrada com cordas e elásticos duplicava a altura do assento da scooter em relação ao chão. “Não há-de ser nada”.

    Deitou-se cedo mas dormiu menos horas do que previa. A ansiedade mantinha-o acordado.

    Seguiu-se um lanche ajantarado de convívio no GICA com família e amigos. São muitos os abraços e as palavras de encorajamento, tais como os conselhos e as advertências. Ao descer as escadas, já em direção à mota, apercebe-se de um murmurinho à sua direita.“Não vai conseguir, vai dar o berro a meio, é muito quilómetro”. Sem que o emissor se aperceba, agarra na frase e enfia-a no pote laranja. “Levo comigo todo o combustível que puder”.


    Arranque

    O Puto está sentado na scooter. Acelera, sente-lhe o rugido. Estica-se para trás, sente o aconchego das tralhas que serão o seu mundo durante 30 dias. Todos esperam que ele arranque mas ele não levanta a âncora à mota. Durante um instante deixa-se abraçar pelos olhares de companheirismo e pela incondicionalidade do apoio, saboreia a antecipação, empolga-se com o ponto de interrogação que o irá acompanhar dia e noite a partir do momento que a roda se mover. Roda o acelerador e levanta os pés do chão. Entusiasmado como sempre, ansioso como nunca.

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    O Puto, no dorso bem carregado da sua Buxy, atravessa a escuridão da primeira de muitas noites rumo ao sonho

    Para já ainda não segue sozinho. Ao todo são cerca de 30 motas e 10 carros que formam uma comitiva que o acompanham nos primeiros 20 quilómetros da viagem, até à Mealhada. É nessa cidade, com o som das buzinadelas e a intermitência dos sinais de luzes nas suas costas, que sente que a aventura começa verdadeiramente.

    Chega a Coimbra rapidamente. Está habituado a fazer esse trajeto, há três verões consecutivos que ruma à concentração de Góis. É na cidade dos estudantes que sente necessidade de parar, para acondicionar a bagagem, que não pára de baloiçar. Muda alguns sacos de sítio, estica os elásticos. Aproveita também para atestar o depósito. A partir daí atravessa Góis, Pampilhosa da Serra, Castelo Branco, sempre sem parar.

    Chega à pequena aldeia fronteiriça de Segura por volta das 23:30. Precisa de encontrar bombas de abastecimento. 600 escudos enchem o depósito, com seis litros de gasolina, que dão para percorrer cerca de 100 quilómetros. É fundamental que encontre as bombas abertas, pois a cidade espanhola onde pretende dormir, Cáceres, fica ainda a 84 km de distância.

    Até aí tinha feito o percurso de memória, mas agora era preciso recorrer ao roadbook que tinha redigido. Procura a pasta, não a encontra. “Que raio, pensei que tinha deixado isso à mão”, pensa, mentalizado que vai ter de revirar a bagagem toda. A cada saco que abre, o receio adensa-se. “Queres ver?”. Quando retira as mãos do último, um arrepio gelado sobe-lhe pelas costas. Tinha-se esquecido da pasta na sala de reuniões do GICA. Voltar para trás não era uma possibilidade, teria de encontrar uma solução.

    Mete-se a caminho, percorre a estrada silenciosa que atravessa a pequena aldeia e avista ao longe a luz do néon das bombas. “Estão abertas, óptimo”. Junto ao balcão do empregado estão três amigos, que lhe fazem companhia nestes momentos monótonos do último turno.
    Vasculha a secção dos mapas, o mais completo que encontra é um ibérico. Quando o apresenta no balcão e pede para abastecer a scooter, a curiosidade instala-se. Uma pergunta, uma resposta, três, quatro, cinco perguntas, todas em simultâneo. A surpresa é geral e a emoção instala-se naquele pacato fim de noite do último estabelecimento com luz acesa na pequena aldeia fronteiriça.
    O puto afasta-se, com essa pequena luz cada vez mais ténue nas suas costas, de depósito cheio e com o corpo aquecido pelo café que recebeu do quarteto seguro, juntamente com o voto uníssono de “boa sorte”.

    Reduz a velocidade quando vê a silhueta escura da ponte romana sobre o Rio Erges, que separa Portugal de Espanha. Trava, desliga a motorizada. Deixa-se envolver pelo silêncio da noite invernal, uma noite solitária, anónima, perdida no meio do nada. Os candeeiros de iluminação estão desligados e as nuvens cinzentas cobrem o luar. Escuridão, silêncio, uma aragem fria que lhe toca no rosto e um sentimento dividido que lhe toca na alma. Deu o passo e agora está ali, prestes a atravessar a primeira de cinco fronteiras que o separam do seu destino final.
    Por um lado está animado com esta primeira etapa, por outro está envolto em alguma nostalgia, por saber que assim que atravessar aquela fronteira, estará 30 dias sem avistar o território do país que tanto ama. Mete as mãos no bolso do casaco e retira um walkman. Avança a fita da cassete durante alguns segundos. Volta a reanimar a Buxy e atravessa a ponte, com a chuva que o seu fato térmico permite ignorar e com a voz de Paco Bandeira bem alta nos ouvidos.

    “Ó Elvas, ó Elvas

    Badajoz à vista.

    Sou contrabandista

    De amor e saudade

    Transporto no peito

    A minha cidade”.



  • OS JOVENS, A VELHA E O CIGARRO DELA

    Dois jovens desaguaram no Porto. Não se conheciam, mas ambos traziam a mesma aspiração nas malas: tornarem-se atores. Cruzaram caminhos com uma matrícula no ESMAE. Não seria o único cruzamento. O segundo foi quando partilharam um pequeno apartamento na baixa do Porto.  O local tornou-se um ponto de encontro para noitadas, regadas com copos, música, filmes e muita, muita discussão de ideias. Gerou-se uma cumplicidade que ultrapassou os anos da faculdade e perdurou no tempo. Vieram outras fases de vida, empregos, casais, caixas de cartão empilhadas em carrinhas de mudanças, novas moradas, novos quotidianos. Os encontros tornaram-se cada vez mais espaçados, os serões sacramentais a tocar guitarra ou a fazer maratonas de cinema foram-se diluindo e o hábito acabou por ser envergado pelo desencontro. Mas a cumplicidade permaneceu. Resistiu ao tempo, ao espaço, à distância, à erosão da memória. Talvez para a manter imune a essa erosão, talvez meramente inspirado, um dos jovens, António Parra, decidiu passar para o papel essas vivências e essas conversas e desconversas da vida. Começou a escrever de forma espontânea, sem saber o que ia sair dali. Podia ser uma peça de teatro, um conto, uma curta-metragem. À medida que as páginas avançavam, os desígnios iam-se clarificando. Acabou por adquirir a forma de curta-metragem.
    Reuniu uma equipa e meteram mãos à obra. No entanto, já na fase de pós-produção, concluíram que o formato não funcionava, o argumento era demasiado longo para uma curta-metragem. Decidiram reformular o projeto. “E porque não uma série?”, alguém terá perguntado. A questão agradou. Foi respondida, estudada, estruturada, colocada em andamento. A ideia era transmiti-la na internet, sem objetivos comerciais. O verdadeiro desígnio era criar algo que fosse inovador, diferente de tudo o resto, e partilhar com o máximo de pessoas possível. A criação aconteceu e a partilha começa amanhã, com a estreia do primeiro episódio de “A Velhinha que Fuma”, uma web-série completamente independente. O argumentista, António Parra, é também um dos actores e contracena com Afonso Santos, ambos nomes habituais nos teatros da Invicta. Francisco Lobo assume as rédeas da realização e a Anexo 82 a distribuição.

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    A série retrata um dia de ressaca entre dois amigos de longa data, Ivo e Mauro, que costumavam viver juntos quando eram estudantes. Estão com uma direta em cima, ressacados e ligeiramente embriagados por nostalgia. A ressaca é a dobrar. Para além da alcoólica, prevalece uma ressaca de quotidiano, uma espécie de saudosismo árido de algo que existia e que agora – embora ainda exista – está desvanecido, diferente, desbotado como a capa de um livro que permaneceu demasiado tempo ao sol. E é encantadora a subtileza como ambos tentam hidratar essa convivência antiga, seja com diálogos hilariantes, pretextos acanhados  ou desconversas construtivas. Até a forma como se insultam é recheada de cumplicidade. O trabalho de ambos os atores é notável nesse ponto, há uma química muito interessante que nos mantém colados ao ecrã, mérito dividido com a própria dinâmica dos diálogos, os episódios passam a correr e é frequente os sorrisos acompanharem a corrida. É agradável constatar que o desígnio da inovação foi atingido, é visível uma preocupação em apresentar, de facto, um produto diferente, divertido, enérgico, mas nem por isso desprovido de conteúdo e pequenos detalhes e significados que se vão descortinando à medida que vamos conhecendo melhor o duo.
    Desde o genérico, a fotografia, a qualidade das transições, à própria banda sonora (de autoria de uma banda portuense – Corona) que é absolutamente deliciosa e muito bem inserida na ação (todo o minuto cinco é sublime), tudo parece ter sido gizado de forma meticulosa, que se compatibiliza muito bem com a forma espontânea e descontraída como decorre série.
    Há cumplicidades cujas fronteiras são complicadas de definir, “A Velhinha que Fuma” não as tenta definir, mas exprime-as muito bem. Se a encontrarem, seja na rua, num miradouro ou no Youtube, não lhe cravem um cigarro, mas deixem que ela vos crave uma dezena de minutos. Grannies know best.



  • A SERBIAN INTERVIEW

     

    A Serbian Film foi o filme choque da edição 2011 do Fantasporto e vencedor do Prémio Especial do Júri. Banido em vários países, premiado noutros, não deixou ninguém indiferente. O The New York Times considerou-o “Horrivelmente inventivo e desafiante no seu significado oculto”, o Bloody Disgusting deixou uma sugestão: “Tu não queres ver este filme. Apenas pensas que queres”. E uma organização católica moveu um processo judicial ao director do Festival de Sitges, que resolveu exibi-lo apesar de estar oficialmente banido em Espanha. Desígnios e motivações partilhados na primeira pessoa por Srdjan Spasojevic, autor daquele que já se tornou num dos filmes mais polémicos de sempre.

     

    Qual foi a sua principal inspiração para realizar “A Serbian Film”?

    Senti o ímpeto e a necessidade de dizer algo sobre os problemas que enfrentamos quotidianamente na nossa região, na nossa problemática e turbulenta região. E mesmo no mundo em geral. Como disse na estreia do nosso filme no Fantasporto, o mundo de hoje está revestido numa doce camada politicamente correcta mas por dentro está muito podre, em muitos níveis.
    No fundo, tratou-se de uma espécie de combinação interior de um estilo fílmico que gostaria de ver ou fazer, com todas essas emoções e tensões para dizer algo sobre o que nos rodeia. Daí, resultou “A Serbian Film”.

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    O realizador sérvio Srdjan Spasojevic


    Considera que manter o obscuro fenómeno retratado no filme escondido e fora de vista é alimentar a sua continuidade?

    Absolutamente! Absolutamente! Infelizmente, as pessoas são incapazes ou não corajosas o suficiente para encarar estas problemáticas. Defini-las, diagnosticá-las e, mais tarde, combatê-las. Se nos habituamos a ignorar todas essas coisas que nos rodeiam, estamos, como referiu, a alimentar a sua continuidade. Estamos a tornar o terreno fértil para esses predadores. É um problema sério não encarar estes problemas.

    E a crueza das imagens, o choque da plateia, são formas de despertar a audiência para esses problemas?

    Sim, algo do género. A minha intenção foi colocar a audiência no meio desses problemas. Não queria que este filme estivesse ao nível de, digamos, notícias da televisão ou jornais. Onde vês algo mau, viras a página e a vida continua. Não. Tínhamos de mostrar essas cenas de uma forma tão desprendida, tão desalgemada, que não permitisse que alguém as ignorasse.

    Digo sempre que este filme é uma metáfora do nosso país, falo sempre sobre metáforas, mas infelizmente talvez aquelas coisas existam mesmo. Podem perfeitamente existir. Podem ser reais. O filme é uma reflexão da realidade. Não dizemos nada de novo. Todas aquelas coisas acontecem à nossa volta. Apenas as mostramos, as denunciamos ao mundo.


    Como se lembrou de criar as cenas mais pesadas, mais negras? Pesquisa, entrevistas no meio ou apenas imaginação e processo criativo?

    Essas cenas são desenhos literais dos nossos sentimentos. Só quisemos pintar de acordo com o que sentimos. É a resposta mais exacta que posso dar. São pinturas dos nossos pensamentos e emoções.

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    O actor Srđan Todorović numa das (várias) cenas polémicas do filme

    Quão dura foi a produção e todo o processo de filmagens?

    Primeiro, tivemos muita sorte com os actores, que adoraram o argumento e acreditaram verdadeiramente em toda a ideia de “A Serbian Film”. Eles queriam dizer o mesmo que nós.

    Reunimos uma equipa muito jovem, que incluía pessoas com ambição, pessoas com imenso conhecimento. [pausa prolongada, olhar introspectivo] Fazer um filme é uma coisa séria. Tem de ser meticulosamente planeado. Após alguns meses de preparação e pré-produção, o processo de filmagem foi, penso, igual a qualquer outro. No set, muitas vezes ninguém diria ou constataria muita da força, digamos, dessas cenas que mais tarde estaria bem presente no filme. Foi um processo muito técnico. Tivemos imensas dificuldades. No fundo, um processo normal, com dias bons e maus.

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    Srdjan Spasojevic no Fantasporto

    Qual  é o impacto da Europa de Leste neste tipo de fenómeno?

    Uma das coisas que quisemos fazer foi transferir a Europa de leste para este filme. De uma certa forma, o personagem Vukmir, é uma representação exagerada de um executivo do financiamento de cinema europeu. É um pornógrafo, um explorador.

    Na Europa de leste, e se calhar em toda a Europa, não consegues financiar o teu filme a não ser que sejas ajudado pelo governo ou outro fundo europeu. E eles têm sempre as suas regras, as suas ideias. O aspecto que um filme deve ter, a mensagem que deve passar, as fronteiras que o devem limitar. Enfim, eles têm sempre formatos e padrões sobre como um filme deve ser feito. Sobre qual deve ser a forma de contar determinada historia. É uma burocracia. Tens uma esquema formatado e deves segui-lo. A forma como este filme foi feito representa a nossa luta contra o politicamente correcto, que penso estar a sufocar toda a arte livre e a criatividade que ainda resta nos dias de hoje. 

    Se nos habituamos a ignorar todas essas coisas que nos rodeiam, estamos a alimentar a sua continuidade. Estamos a tornar o terreno fértil para esses predadores.

    Há vários relatos de episódios caricatos durante a produção. Pode partilhar alguns?

    Agora, alguns desses factos podem parecer engraçados [risos], mas na altura não foram. Tivemos diversos problemas na pós-produção. Filmamos em Red Camera (digital) e mais tarde tivemos que transferir para 35 mm. Fazíamos questão que tudo tivesse um aspecto muito profissional, por isso negociámos com um laboratório em Munique para a transferência do filme. Depois de o serviço estar concluído, eles apareceram com um monte de advogados e directores e disseram-nos que não iam entregar o material. Que não iam colocar o carimbo deles num filme destes. Até fizeram uma espécie de charada, onde contactaram a polícia para falar por eles, com várias acusações ridículas.

    No meio da Europa livre, fomos atirados para a rua sem o nosso filme. Eles queimaram o filme, destruíram-no. Aprendemos algo com isso. Fomos a um laboratório estatal de Budapeste e, para evitar passar pelo mesmo, mostramos-lhes o filme primeiro. Perguntámos – Estão dispostos a fazer este trabalho? Responderam que sim. No final, depois de tudo concluído, disseram-nos: “Não, não vos podemos entregar o material”.

    Foi um processo muito louco, muito frustrante. Mas deu-me força. E foi como se me desse uma certeza que estava a retratar coisas verdadeiras no meu filme. Foi como se tudo o que aconteceu ao personagem principal e à sua família, estivesse a acontecer ao próprio filme.

     Depois disso, fizemos um plano. Dividimos o processo de transferência em cinco diferentes laboratórios europeus. Se alguém levantasse problemas, só destruiria e atrasaria uma parte do processo. E assim, oito ou nove meses depois, para o bem ou para o mal, “A Serbian Film” veio ao mundo.



  • A SERBIAN CRONIC

     

    “Todos vocês que estão aqui, já sabem ao que vêm”. À medida que as palavras de António Reis ecoaram pelo auditório do Rivoli, senti-os estremecer pela segunda vez. O primeiro abalo, esse ocorrera minutos antes.

    Convidara um grupo de amigos para uma sessão do Fantasporto. Todos os anos, o festival apresenta um filme choque. Um filme que não deixa ninguém indiferente, que entra no âmago, revira emoções e desperta acesas conversas noite dentro. Ou seja, ideal para visionar em grupo. Nesta edição (2011), esse papel estava atribuído: “A Serbian Film”.

    A todos tinha sugerido que evitassem qualquer tipo de pesquisa sobre o filme. Que tal poder-lhes-ia amputar severamente a experiência de visionamento. Afinal, nenhum choque é genuíno se contamos com ele, muito menos os efeitos sensoriais que daí advêm.

    Atravessada a cortina de veludo da entrada da sala, felicitei os seis por terem acatado a sugestão. “Todos os outros convidados não estão aqui. Desistiram”. Doze pares de olhos cruzaram-se de imediato, fugazes como gazelas assustadas perante um súbito rugido emanado da selva. “Mas… tem muito terror? Não suporto filmes de terror”, disse um. “Mas, mas espera aí…” balbuciou outra. Por entre um sorriso rapinado a Jack Nicholson, soltei um matreiro “don’t worry”. Afinal, agora era tarde para hesitações. Estava transposta a fronteira. Estava ultrapassado o ponto de não retorno.

    À medida que o co-director do festival continuava a apresentar o filme à audiência, o nervoso miudinho crescia à minha volta. E nada o parecia atenuar, nem quando António Reis afirmou: “o bom cinema não é só feito de filmes fáceis”. Convenhamos, era impossível atenuar. Na mente deles ainda pairava – acredito – a gorda lista de países onde o filme tinha sido banido, proferida momentos antes.

    “Mas afinal para o que me trouxeste, Victor?”, pergunta Caldevilla. Na realidade, eu próprio não sabia responder a essa questão. Apenas conhecia a reputação do filme e não o seu conteúdo – excepto duas cenas isoladas, partilhadas casualmente por um amigo. Tinha sido essa reputação a levar-me ali. Estava convicto que ir ser o filme mais provocante do festival e que nenhum de nós lhe ia ficar indiferente. E tudo o que detona a indiferença deve ser vivenciado colectivamente, pois é desses estilhaços que surgem as conversas mais fascinantes.

    A sala escurece e o filme sérvio começa a rodar. A apreensão é espessa, quase palpável.

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    O tema, finalmente, apresenta-se. Retrata o submundo da produção de filmes reais onde se mistura pornografia com sadismo e violência. Numa das cenas, vislumbro a silhueta ao meu lado esquerdo de uma mulher numa espécie de convulsão a tentar libertar-se de um colete-de-forças, que são os braços do acompanhante, que tenta a todo o custo acalmá-la e mantê-la sentada. Caldevilla está ao meu lado e deixa escapar um sorriso nervoso, algo comprometido. Foi ele que convidou o casal.

    A cena assombra-se. A sombra apodera-se da sala, da minha cadeira, arrepia-me as costas. O espectador da frente contorce-se, Caldevilla mete a mão na cabeça e a rapariga do lado esquerdo já fugiu pelo corredor. Olho para trás e naquele movimento cadenciado da cortina da saída ainda a abanar, não consigo evitar um sorriso nostálgico.

    tudo o que detona a indiferença deve ser vivenciado colectivamente, pois é desses estilhaços que surgem as conversas mais fascinantes

    Como nas experiências de quase-morte, onde horas supostamente se reduzem a segundos, naquele instante vejo-me nos tempos de universidade, a preparar uma reportagem para o jornal universitário. Atarefado e desorganizado, imerso numa panóplia de material relativo ao tema do lado obscuro da internet, enquanto veículo de distribuição de um mercado de conteúdos audiovisuais macabros. Filmagens reais de violações, assassinatos, tortura, tudo o que a imaginação mais distorcida possa conceber. Vi vídeos, li relatórios de polícia, recolhi testemunhos de utilizadores, acedi a sites onde esse material é transaccionado. Os mais superficiais pois os mais densos são inacessíveis aos jornalistas, quanto mais a um estudante de jornalismo. Esse trabalho chocou-me, mexeu comigo. Mas nunca recuei. A minha fome de realidade era maior. Não era curiosidade que me movia. Era a fome de realidade.

    A Serbian Film 2Afinal de contas, esse mundo paralelo existe. É obscuro, sobrevive abaixo do radar da maioria das pessoas, mas existe. Como em qualquer mercado, havendo procura, existirá sempre oferta. E os fetiches e as parafilias são quase infinitas, tal como a capacidade de as satisfazer por um preço.

    A cortina ainda ondula e dá tempo ao sorriso de se estender também a uma caricata conversa com um amigo, fotógrafo de estúdio, sobre o lado gráfico do fotojornalismo. Ele defendia a semântica estética da fotografia e contorcia-se na cadeira do bar à medida que eu lhe ia mostrando fotos do World Press Photo, num portátil que tinha pedido emprestado por uns minutos a um desconhecido da mesa do lado. O monge budista em chamas no protesto contra a perseguição do governo vietnamita, a execução do vietcong, as crianças queimadas pelo napalm, o massacre dos refugiados no Líbano, entre muitas outras imagens que fazem parte de um conjunto de fotos que se tornaram icónicas porque, dentro do seu contexto sociopolítico, são cruamente reais. Retratam a realidade tal como ela é, sem filtros, que é como o jornalismo deve operar nessas circunstâncias. Nos acidentes, admito a preocupação eufemística, porque entra em causa a exploração gratuita de um acontecimento fortuito. O chamado sensionalismo. Mas nos casos onde a realidade deve ser denunciada, qualquer eufemismo usado para acalentar a sensibilidade do espectador – que se recusa a presenciar/reconhecer esse lado negro da realidade – entra no campo da censura e apenas serve dois propósitos: Obstaculizar a verdadeira percepção dessa realidade e fomentar a sua continuidade.

    Informar é dar a conhecer a realidade que se quer desconhecida. É apontar-lhe o dedo, denunciá-la. Se o espectador se sente incomodado com as imagens, basta imaginar o nível de incómodo dos que vivem a realidade fotografada/filmada, para constatar que esse exercício psicológico de autocensura é quase egoísta. Sei que é confortável não saber, não ver, não imaginar. Mas acho que a minha fome de realidade sempre foi mais teimosa e ultrapassou o meu conforto e o meu sentido de auto-preservação.

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    Em linguagens e moldes diferentes, o cinema também pode desempenhar esse papel denunciador, onde usa a hipérbole como forma de choque para alertar o espectador para determinada realidade. Se lhe der um ligeiro encosto eufemístico, o espectador permanece entretido, mas incólume. Se lhe der um encontrão, ele estremece e nunca esquecerá o tema e, em maior ou menor escala, é iniciado um processo de consciencialização.

    É por isso que estou farto de levar pancada deste filme visceral neste auditório do Rivoli. Estou chocado, desconfortável e até com alguns hematomas sensoriais, mas satisfeito por ter decidido enfrentá-lo, pois reconheço-lhe um propósito: Um bramido de alerta para a existência da realidade retratada, usando um encontrão para que ninguém lhe fique indiferente.

    Todos os fenómenos condenáveis do mundo sobrevivem na obscuridade. Vivem de forma reptícia no silêncio, alimentam-se da ignorância das massas em relação à sua existência.
    Desde as produções pornográficas com violações reais controladas pelas máfias russas, ao tráfico humano na Tailândia para esclavagismo sexual, às “escravas brancas” dos Balcãs, à pedofilia que não tem limites ou fronteiras, há todo um conjunto de fenómenos cuja abordagem eufemística não só prejudica a percepção das suas reais dimensões, como até pode servir de adubo passivo, que fertiliza a sua continuidade.

    As lambadas continuam a emergir do negrume da sala, mas não arredo pé. Permaneço no ringue, teimoso e ensanguentado, e digo, entredentes, “Ok Serbian…. give me you best shot”.
    E neste momento ainda não faço ideia que horas mais tarde vou entrevistar o realizador e que este ia ficar entusiasmado por constatar que a minha visão sobre o desígnio do filme correspondia à sua, enquanto criador, que simultaneamente o concebeu como uma alegoria e uma denúncia. Não fazia ideia que o filme ia vencer o Prémio Especial do Júri do festival. E não fazia ideia que o casal que abandonou a projecção estava num primeiro encontro e que o meu amigo Caldevilla, amigo do rapaz, o tinha convencido a ver o filme por causa da minha sugestão.

    “Podes ir às cegas”, ter-lhe-á dito.



  • O PUTO QUE CRUZOU A EUROPA NO DORSO DE UMA SCOOTER «I – O Plano»

    Énoite cerrada, mas os clarões dos relâmpagos fazem parecer que o sol ainda se debruça sobre aquele sinuoso asfalto no norte de França. O Puto tenta a custo manter a sua scooter na estrada, mas os ventos são tão fortes que por vezes tem a sensação que está a conduzir inclinado, num ângulo de 45 graus, uma espécie de ‘moonwalk’ sobre rodas. Mas não há lua nesta noite, o céu está negro e denso, carregado de água que lhe cai vigorosamente em cima e lhe cobre a viseira do capacete. Tentara conduzir com ela aberta, mas o vento chicoteava-lhe os olhos castanhos ao ponto de os tornar vermelhos. Cego de uma forma e de outra, considera a primeira opção um mal menor. Percorre cerca de meio quilómetro nessas condições, até que a sensação de desequilíbrio deixa de ser uma sensação. Sente a motorizada a fugir e a ziguezaguear no alcatrão encharcado. Não sabe quanto tempo durou esse bailado aterrador, mas sabe que o levou para a via contrária, pois o olhar vislumbrou a forma disforme do tracejado branco no chão. Felizmente a estrada está deserta, ninguém arrisca conduzir com aquela tempestade. Determinado, finca ambos os punhos no guiador e consegue direcionar a motorizada para a sua berma, retirando-a da estrada e detendo-a a poucos centímetros de um poste de betão de eletricidade. Mantém-se sentado na Peugeot com o motor a trabalhar. Precisa de tomar uma decisão. Está ainda longe da povoação onde pretendia pernoitar. Olha para o seu lado direito e vê apenas a silhueta sombria de um bosque. Tem noção que montar acampamento numa zona com árvores durante uma tempestade é um erro que se pode revelar fatal. Mas conduzir 20 quilómetros naquelas condições também. Opta pela primeira opção, mas tenta minimizar o risco. Atravessa com facilidade a pequena vala que separa a berma do bosque e entra com a motorizada na vegetação, que não é alta. Apesar de molhados, os galhos do mato rasteiro estalam à sua passagem. A cada solavanco pensa duas vezes.

    “Que raio estou eu a fazer?”

    “Franceses do caralho, não limpam o mato!”

    “Vou lixar os pneus todos!”

    Entre outros pensamentos que povoam a sua mente, enquanto procura sem grande expectativa uma clareira. O clarão de mais um relâmpago sinaliza-lhe uma área mais aberta. Não é o desejável, mas é o melhor que poderá encontrar. Retira a tenda da carga que transporta na extremidade do banco da scooter. Monta-a num frenesim, com os dedos gelados e a chuva cada vez mais forte. Retira os sacos-cama, a colchonete e os alforges da roupa e atira-os para dentro da tenda. Deita a Peugeot junto à entrada da tenda, para o proteger do vento e para proteger a própria scooter, que dificilmente se manteria em pé no descanso. Já dentro da tenda, vira o fato impermeável ao contrário, enrola-o e transforma-o numa almofada improvisada. A lanterna está sem bateria, mas a luz quase se dispensa, pois de minuto a minuto, os relâmpagos iluminam-lhe o interior da tenda. Tenta calcular a distância do epicentro da tempestade, recorrendo a um velho truque que o avô lhe ensinara na infância. Sob a turbulência daquela noite invernal de 2000, recorda a conversa com lívida nitidez:

    “Quando vires um clarão, conta os segundos até ouvires o trovão. Se contares 10 segundos, não te preocupes que está longe, a cerca de 3400 metros de distância. Cada segundo corresponde a 340 metros. Isso acontece porque a velocidade da luz é mais rápida do que a velocidade do som”.

    O exercício, no entanto, não o conforta. Não chega a dois segundos e ouve um estrondo que lhe deixa os ouvidos a zunir. Coloca os auscultadores, aumenta o som e deixa que a música lhe abafe a trovoada.

    “O que tiver de ser será”, pensa. Rebola para o lado, esforça-se por adormecer. O sono não lhe faz companhia, ao contrário de um pensamento que já o visitara antes, ao longo dos milhares de quilómetros percorridos que o levaram até aquele ponto.

    “Será que vale a pena estar a passar por tudo isto?”

    Como em todas outras vezes, a resposta não se fez esperar e foi o melhor embalo que ele poderia ter. “Siga”.


    Como tudo começou

    A ideia despontou na cabeça de Ricardo Rodrigues em Agosto de 1998, enquanto passava as mãos por uma revista de motociclismo. Estava ansioso por ver o artigo sobre a Concentração de Faro, que ocorrera no mês anterior e onde ele marcara presença. “Será que apareço aqui?”.

    Folheou a publicação com sofreguidão, mas não encontrou nenhuma foto sua. No entanto, um pequeno artigo numa coluna prendeu-lhe a atenção. Era uma referência à concentração de Elefantentreffen, na Alemanha, a maior da Europa. Suspendeu o olhar no artigo durante alguns segundos, até que bateu com a edição na mesa e disse, bem alto:

    – Está decidido, para o ano vou à Alemanha!.

    – Tu és doido, Puto! – disse um dos colegas do clube motard do GICA (Ginásio Clube de Águeda), que estava com ele na sala de reuniões do clube.

    Ricardo Rodrigues sorriu duplamente. Por um lado porque sempre sorria quando ouvia a alcunha que carinhosamente recebeu do grupo, que já acompanhava desde os 15 anos. Por outro, porque sabia que estava convicto do que acabara de dizer. Sorveu mais um gole da Sagres e garantiu:

    – Podes escrever o que eu te digo.

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    Ricardo Rodrigues e a sua Peugeot “Buxy”

     

    A dúvida dos companheiros não se fizera sentir por descrença no arrojo do Puto. Já o conheciam bem; a descrença tinha morrido no ano passado, quando ele percorreu 1200 quilómetros (ida e volta) para ir à famosa concentração de Faro – sentado no dorso da sua Scooter, a sua acarinhada Peugeot, que disputou a presença no evento com Harleys e outras motas de grande cilindrada. Sempre fiel, sempre descomplexada. Já tinha repetido a experiência este ano, já tinha ido a mais de 21 concentrações de Norte a Sul, oito delas, duas vezes. Mas todos esses quilómetros no lombo pareciam algo embaciados naquele instante, perante o ardor da aventura que se propunha a enfrentar: Nove mil quilómetros numa scooter, para ir e regressar ao sudeste alemão.

    Digeriu a ideia durante uns meses. Sabia que uma expedição daquelas ia exigir um planeamento com grande antecedência. Para além disso, era menor, o que poderia revelar-se um obstáculo casos os pais discordassem da ideia. Optou por não lhes contar, para já.

    Cinco meses depois, em Janeiro de 99, decidiu rumar à concentração dos Pinguinos, no miolo do norte espanhol, em Tordesilhas. Embora estivesse seguro do plano na Alemanha, decidiu fazer um outro antes, como preparação, teste e até por um certo simbolismo romântico. Afinal de contas, tinha sido naquela região que há cinco séculos fora assinado o célebre tratado que dividia as terras por descobrir do mundo em duas fatias, uma para o reino português, outra para o espanhol.

    Também o Puto ia em busca do desconhecido. Da mais arrojada, impensável aventura que alguma vez imaginara. Encararia o sucesso destes 1300 quilómetros como um sinal que o seu desígnio maior valia a pena. E lá arrancou, no penúltimo Janeiro do milénio, rumo a uma ‘concentración motera’ que é considerada a maior da Península Ibérica. Coincidência ou não, foi a concentração que decorreu com menos desaires. Era o sinal que precisava.


    Planeamento

    Passou o resto de 99 a planificar a aventura. Comprou mapas, leu relatos, pesquisou sobre a história da concentração. Entre outros detalhes interessantes, descobriu a razão do batismo da concentração, que se traduz: “O Rali dos Elefantes”. Ganhou esta alcunha na sua primeira edição, em 1956, que visava ser um encontro exclusivo de motoqueiros que conduziam a Zundapp KS 601, uma moto ‘sidecar’ verde do pós-guerra alemão que, tradicionalmente, era conhecida por “Elefante Verde”. Os anos e as décadas foram passando, a concentração foi-se diversificando e é agora o destino anual de cinco a dez mil participantes, que se prontificam a enfrentar o rigoroso inverno da Bavaria com todo o tipo de motas de alta cilindrada. No primeiro mês do novo milénio, teria de ser a vez de uma scooter lhes fazer companhia. 

    Também o Puto ia em busca do desconhecido. Da mais arrojada, impensável aventura que alguma vez imaginara

    O Puto já tivera o sinal que precisava, mas ainda não tinha luz verde. A mudança do semáforo só ocorreria quando obtivesse os patrocínios que lhe permitiriam financiar a expedição.

    Numa estimativa preliminar, imaginou a aventura em 400 contos, excluindo assistência mecânica e alguns materiais. Na companhia do seu companheiro de muitas estradas, Vasco, dirigiu-se ao importador oficial da Peugeot em Aveiro, mas não passou da rececionista.

    Já estava a ficar desanimado, quando ouviu o amigo dizer:

    – Eu conheço o tipo, é aquele que está a entrar agora.

    O Puto não hesitou e abordou-o. Explicou-lhe detalhadamente o seu plano, informou-o da sua experiência nesse tipo de planos. E sublinhou o quanto positiva uma aventura destas poderia ser para a promoção da marca. Percecionou uma expressão intrigada no rosto do responsável, que rapidamente se desfez numa sugestão recetiva.

    – Escreve uma carta a manifestar a tua intenção e redige um orçamento detalhado do apoio que pretendes de nossa parte. Deixas cá e eu apresento isso na próxima reunião da direção.

    O puto apertou-lhe a mão e saiu, animado. Nessa mesma noite, redigiu uma carta, que terminou com este parágrafo:

    “Dizem os veteranos nestas andanças que esta é a concentração mais difícil do mundo, devido às suas extremas condições atmosféricas. Pelo que conheço de mim – e pela experiência que tenho – isso não será um obstáculo para concretizar esta viagem”.

    Reúne à carta de intenção um currículo com todas as concentrações percorridas com a sua Peugeot (modelo Buxy) até à data – cerca de quatro dezenas, nas quais percorreu 18.600 quilómetros – e o orçamento. Estimou a alimentação em 170 contos, a hospedagem em 130 e o gasto com os combustíveis em 100. 400 contos – numa estimativa que sabia ser algo otimista, mas era a isca que decidira usar –  que o separavam da sua aventura.

    O dossier é entregue no dia seguinte, mas o Puto não quer ficar à espera da resposta. Contacta 30 empresas/entidades da região Centro a pedir patrocínios. Apenas quatro respondem, mas todas positivamente. Algumas dão material, outras, dinheiro.

    Nessa altura já informara os pais que, desconhecendo os contactos estabelecidos, tinham recebido a informação com descrença. “Em breve isso passa-lhe”, terão pensado.

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    Os cheques começam a chegar e a expressão parental muda de figura:

    – O quê? Mas o gajo afinal vai mesmo?

    Bem-disposto num bar, o Puto partilha o olhar estupefacto de ambos com os amigos, quando lhes mostrou a correspondência.

    – Quando viram o graveto a chegar, nem queria acreditar – refere, perante mais um golo na cerveja, concluindo de seguida – Pá, estão apreensivos, é normal, mas sei que quando chegar a hora me vão apoiar.

    Eram apoios encorajadores, embora no fundo o Puto soubesse que o patrocínio decisivo estava ainda por concretizar. Passa os dias seguintes com o ouvido no telemóvel e o olhar na caixa do correio. Quinze longos dias, até que emergiu uma mensagem do verde monocromático do seu Nokia: “Apoiamos em tudo!”. A resposta da Peugeot era a derradeira das certezas. “Já consegui, já nada me vai parar”.

    No dia seguinte, descobre que o “tudo” ultrapassa todas as suas expectativas. Esperava uma fatia do que tinha orçamentado e manutenção da motorizada antes da partida. Obteve o orçamento na íntegra, uma revisão geral à motorizada, um fato de neve e assistência em todos os países por onde ia passar.

    Fica combinado que tem de entregar a motorizada na Peugeot em meados de Novembro, onde ficará um mês, sendo que Janeiro é a data marcada para o arranque para a Alemanha.

    Mas estamos em pleno verão e a tentação paira no ar. O Puto decide ir à concentração internacional de Sanchenxo, no noroeste espanhol. Mais seiscentos quilómetros e umas quantas histórias no currículo. Os meses do calor passam a correr. Em pleno fim de milénio, são muitas as conversas se prolongam pelas madrugadas dos cafés. O conflito em Timor Leste, a queda do avião que vitimou o filho de Kennedy, as profecias de Nostradamus sobre o fim do mundo, o bug informático 2k, a aguardada estreia de “The Matrix”, entre outras problemáticas em relação às quais o Puto parece imunizado. A aventura alemã povoa-lhe todos os pensamentos, todas as conversas. Começara a contagem decrescente.



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