DEAR BICHAROCO

Eras o mais feio da ninhada. Escanzelado, orelhas colossais, cabeça desproporcional em relação ao corpo e olhos remelosos. Talvez por isso, ela escolheu-te. Não por seres feio, mas por seres frágil. “A tua vida vai mudar, gatinha”, disse a tua dona, quando te pegou ao colo. Sim, no início pensávamos que eras gata. Recebeste um nome de gata e tudo: Dharma. O tempo passou e detetámos o erro de género. Rebatizámos-te: Lince. Com o teu dorso cinzento, malhado e branco, fazias mesmo lembrar um lince ibérico e um dia até pensei em cortar parte do pelo do teu queixo, para reproduzir as barbichas pontiagudas deles. Em boa hora, a tua dona convenceu-me que a ideia era idiota.

Eras chatinho. Empoleiravas-te no meu ombro feito papagaio quando eu estava a escrever. Quando concluías que a minha atenção ainda não era suficiente, saltavas para cima do teclado e olhavas-me com olhos desafiantes: “Estou aqui, sou mais importante”. E eras, sem dúvida, meu querido bicharoco. Desde pequenino que ganhaste esse apelido. Sessenta por centro de ternura e quarenta a brincar com o teu aspeto desgrenhado.

Quando fomos a Águeda pela primeira vez, travaste amizade com o Monkey. Ele era um excelente anfitrião, recebeu-te de patas abertas. Houve reciprocidade. Dormias com ele, brincavas com ele e até exigias acompanhá-lo ao telhado. Rapidamente, decoraste o acesso e sempre que voltávamos a Águeda, lá ias a correr até aquela pequena janela do primeiro andar da moradia. Adoravas ir ao telhado durante o dia, sentir a brisa e o sol no teu focinho e de noite, ouvir os grilhos e as cigarras a cantar. Numa dessas noites, caíste. Ou então saltaste, nunca vamos saber. Quando demos por tua falta, percorremos o bosque que circunda a casa durante horas, em todas as direções dos pontos cardeais, de lanternas em punho e com o teu nome nos lábios. A tua dona foi incansável, nunca perdeu a esperança. Ao amanhecer, não sei como, descobriu-te a centenas de metros de distância. Sociável como sempre, estavas a brincar com um felino desconhecido. Ela chamou-te e tu vieste, devagarinho, até saltar para o colo dela. O susto foi suficiente. Daí em diante, passeios no telhado só com supervisão. Um de nós tinha de ir para o terraço e ficar a observar-te durante esses minutos de recreio. Que seca nos davas, bicharoco!

Já em Viseu, onde morávamos, já tinhas caído duas vezes da varanda. Felizmente era um segundo andar mais baixo do que é normal e demos sempre pelas quedas a tempo. Numa delas, esticaste-te todo para tentar apanhar uma borboleta. Tu e o teu instinto de caça, meu grande safado!
Foi o suficiente para nunca mais ires à varanda ou sequer abrirmos uma janela contigo presente nessa divisão da casa. O medo de te perder era demasiado grande.

Gostavas de dormir no pescoço da tua dona. Aninhavas-te lá e dormias horas a fio. Ela, ao ver-te tão satisfeito, deixava-se ficar sempre na mesma posição. Por vezes, ainda pequenito, gostavas de saltar para dentro da máquina de lavar roupa. Eras mesmo um bicharoco doido. Ias sempre receber-nos à porta. Num dos dias, eu já estava lá dentro e testemunhei a ânsia com que o fazias. Podias estar completamente adormecido, mas quando ouvias a chave na porta, corrias a sete patas. Cheguei a combinar com a tua dona e filmar essas tuas corridas desvairadas à sua chegada. Também filmei uma das tuas muitas brincadeiras: tu a ires buscar uma bola de papel que nós arremessávamos. Trazia-la na boca até nós e fazias um gesto com o focinho a atirá-la na nossa direção, para que a arremessássemos outra vez. Quando mencionávamos isso a amigos, não acreditavam, pensavam que era o nosso amor a hiperbolizar as tuas capacidades. Quando mostrámos o vídeo, ficaram estupefactos.

 

Por vezes, acumulavas energias durante o dia que insistias em gastar connosco. Insistir é um eufemismo. Tu exigias. Exigias tantas coisas e tinhas miados próprios para essas exigências.
A tua brincadeira favorita era obrigar-nos a correr atrás de ti pelo apartamento. Ou então jogar às escondidas com a tua dona. Conseguias sempre encontrá-la.
Um dia, decidimos arranjar uma companhia para ti. Adotámos uma gatinha toda branca e doámos-lhe o teu primeiro nome. Recebeste-a como um cavalheiro e dividiste o teu reino com ela.

 

Foste crescendo e deste corpo à história do Patinho Feio. Tornaste-te um lindo cisne. O pelo sedoso, o olhar lindíssimo, a tua expressão sempre fotogénica que me impeliu a tirar-te centenas de fotografias. Foi a primeira grande lição que me deste. A aparência é moldada pelo amor.

Mais tarde, numa viagem a Santarém, encontrámos uma gatinha preta bebé no jardim de um museu. Em boa verdade, ela é que nos encontrou. Veio na nossa direção, subiu para o colo da tua dona e nunca mais o largou. Tínhamos decidido que dois gatos era o número ideal para o T1 onde vivíamos, mas o olhar dela fez-nos perceber que certas decisões são vergadas pelas circunstâncias. Estávamos de férias em Santarém e vocês estavam lá connosco.
Tu recebeste logo bem a pretinha. A Dharma precisou de mais um bocadinho para se habituar. Fizeram os três a viagem connosco para Viseu e apresentaram-na ao seu novo lar. Chamamos-lhe Puma.
Uma branca, uma preta e um cinzento. Que tríptico, que dégradé tão giro!


Um dia, pregaste-nos um susto com uma gastroenterite. Ficaste dois dias internado. Foi duro visitar-te, ver-te com um focinho nitidamente chateado, e não te poder trazer para casa. Voltou a acontecer seis meses depois. “Que gatinho sensível!”, dizia a tua dona, cheia de meiguice.
A tua alimentação mudou. Procurámos a ração mais saudável, mais nutritiva e mais palatável que existia e passámos a encomendá-la de propósito. E aqueles snacks que te faziam lamber os bigodes, como um pedacinho de fiambre de vez em quando, acabaram. E o teu sistema gastrointestinal franzino ganhou tantos músculos que nunca mais tiveste problemas.
Ganhaste, no entanto, outro vício. Quando estavas em Águeda, ias miar para a porta da cozinha. Miavas até a tua dona te colocar um baudrier com uma trela e levar-te a passear no jardim. Com paciência de santa, acompanhava-te nessas jornadas enquanto atravessavas vegetação, cheiravas plantas, comias ervas e perseguias pequenos insetos. Eras tu a definir o rumo e, quase sempre, a duração do passeio.

 

Depois, veio uma nova mudança. Mais uma cidade, mais uma casa. Eras um bicharoco mesmo viajado. Eu fui primeiro e vocês três vieram comigo. A tua dona veio poucos dias depois. Antes disso, dei com vocês a dormirem no quarto mais vazio e frio da casa, que tinha apenas uma cama, um colchão e uma velha camisola azul de lã, que era dela. Vocês os três estavam todos aninhados em cima da camisola, aconchegados pela fragância da saudade. Tirei uma fotografia e a vossa dona chorou.

Adoraste a casa de Coimbra. Tinha um sótão que podias explorar à vontade e escadas que adoravas subir e descer. Tinhas um ginásio novo para arranhar e um compartimento só para as vossas casas de banho. Tinhas também um cantinho de chill out, com um tapete felpudo e muitas almofadas. Eram tantas as tardes que passavas lá.

Eras um bicharoco muito friorento. Por vezes dava contigo a dormir nos sítios mais estranhos, em busca de calor. Em cima da box ou do router da Vodafone (por vezes esticado em cima de ambos), no topo do micro-ondas ou até no fogão, pouco tempo depois de ter sido usado. Quando alguém ligava o aquecedor, tu ouvias à distância e vinhas a correr e deixavas-te ficar, com o pelo a ondular ao sabor daquela brisa quentinha.

Mas o sítio onde mais gostavas de te aconchegar era no colo da tua dona. Quando ela se sentava no sofá com uma manta, ias logo a correr, levantavas a ponta da manta com a pata e aninhavas-te nas pernas dela. Tornou-se tão habitual que, quando ela se sentava lá, levantava de imediato a manta pois sabia que em menos de cinco segundos ias estar lá.
As gatinhas começaram a aperceber-se desse teu covil cálido e também queriam ir para lá. Nas raras vezes em que uma delas se antecipava a ti, tu entravas e começavas a encostar-te de forma sorrateira, sempre a mudar de posição, ganhando terreno centímetro a centímetro, cada vez mais em cima dela, até ela decidir sair e ficares com o ninho só para ti. Que bicharoco mais matreiro!

Eras tão, mas tão matreiro. Quando te ralhava por subires à mesa durante a refeição, descias para a cadeira e ficavas só com as orelhas e os olhos à mostra, à espera de uma oportunidade. Não sem antes reclamares, claro. Tinhas um miado específico para reclamar. Uma espécie de ronronar prolongado e rabugento. Tinhas mil e um miados. Praticamente falavas. Quando querias comer miavas de uma forma. Quando eu não te fazia a vontade, acentuavas o miado e corrias na minha direção. Quando querias que eu te abrisse a torneira do bidé, porque beber da sua taça era demasiado mainstream para sua excelência felina, tinhas outro miado próprio. Quando estavas no meu colo e eu tinha de me levantar, reclamavas, com outro tom específico. Quando querias exigir atenção, não vinhas ter connosco. Ias para o corredor e os teus bigodes até vibravam com as autênticas árias que soltavas até alguém se decidir ir lá e brincar contigo.

Quando chegávamos a casa tínhamos sempre de abrir a porta devagarinho, porque por vezes tentavas fugir. Eras um bicharoco muito explorador! De vez em quando, deixávamos-te sair para as escadas do prédio (sempre coordenado com a tua dona, que descia um ou dois andares para não te deixar passar daí) e a tua reação era tão hilariante quanto indiscritível. Entusiasmado ou agradecido (ou ambos), gatinhavas abaixado e a fazer um miado que se assemelhava a um arrulho de um pombo. E ias cheirar todos os recantos, sempre com esse cântico engraçado.

Havia outro sítio onde fazias isso. A única divisão do apartamento que te estava interdita: O meu escritório. Rapidamente decoraste o som do trinco e eu nem dava por ti a entrar. Só te via depois, a deambular agachado por lá e com esses miados à pombo.

Uma vez, numa dessas nossas chegadas a casa, conseguiste passar por nós e entraste na casa do vizinho de baixo. Um miúdo com 10 ou 11 anos tentou agarrar-te. “Que pelo tão macio!”, exclamou ele. Toda a gente que te fazia festinhas se rendia ao teu pelo. Parecia seda, a mão quase deslizava sozinha. E cheiravas bem! “Que gatinho mais cheiroso”, dizia a tua dona, vezes sem conta.

Eu achava imensa piada ao teu nariz cor-de-rosa, ligeiramente achatado, e ao teu porte esguio e elegante. Andavas aos saltinhos, como se tivesses pezinhos de lã. Quando estávamos deitados no quarto e ouvíamos patinhas cadenciadas no soalho de madeira, tentávamos adivinhar qual era o gatito que ia saltar para cima da cama. O teu andar flutuante denunciava-te quase sempre. Dormias connosco e tinhas hábitos muito próprios de demonstrar o teu afeto. À tua dona, davas beijinhos no pescoço e na cara. A mim, davas pequenas mordiscadelas nas minhas mãos ou nos meus pés. Por vezes, gostavas de te deitar em cima do nosso peito e esticar ambas as patas na direção do nosso pescoço. Nesses momentos, tínhamos de te segurar as patinhas, para nos protegermos das tuas unhas. Não é que fossem as mais afiadas. Mas dos três gatos, eras o que menos cuidado tinhas com elas. “Ele é brutito”, dizia tantas vezes a tua dona.

De manhã, as tuas irmãs aguardavam, pacientemente, que nos levantássemos para comer. Tu não. Tu é que decidias quando tomar o teu pequeno-almoço. Por volta das 07:00, 07:30, começavas a dar-nos patadinhas na cabeça. Começava sempre de uma forma levezinha, mas ia aumentando de intensidade até cedermos.

Tinhas tantas peculiaridades dessas. Tantas, tantas. Podia escrever mil páginas e não as registava todas. “Tanta personalidade num ser-vivo de quatro quilos”, costumava dizer a tua dona. Ela dizia tantas coisas fofas sobre ti. Seguramente incompreensíveis para qualquer pessoa com coração de granito. Mas esses corações não entram nesta casa, não é bicharoco?

 

Eu também. Por mais que me tivesse afeiçoado a esse teu epíteto, por vezes dirigia-me a ti de outras formas. Lincezito, bichinho, cinzentinho. Tinhas esse dom, de nos despertares diminutivos a torto e a direito, tal era o teu encanto.

No entanto, a tua alcunha principal tornou-se tão característica que, por vezes, até se estendia aos três. “Passar o serão no sofá com os bicharocos”, tornou-se uma expressão comum entre os teus donos. Adoramos sair, viajar, praticar desporto e estar em contacto com a natureza. Mas os planos caseiros ganharam uma cor especial com vocês. Tornava-se igualmente idílico. Dias de chuva, sol, calor ou frio, tarde ou noite, era esplêndido ficar “no sofá com bicharocos”.

Vou-te contar um segredo que nunca disse a ninguém, nem sequer à tua dona. Por vezes via-te a dormir no sofá ou na cama, ia lá e metia-te o cobertor por cima, por vezes até te enrolava nas tuas mantinhas, como uma múmia. E dava-te um beijo na bochecha peluda. Tu, como sempre, com confiança incondicional, deixavas-te ficar, imperturbável na tua expressão regalada. Sabes, sentir-te seguro, quentinho, protegido, fazer-te sentir assim, dava-me um conforto interno intenso que nunca soube exprimir. Nem verbalmente, nem por escrito. Mas adorava essa sensação, de saber que independentemente de todas as intempéries, tu estavas aqui, aconchegado no teu lar.

Gosto dos três, mas estaria a mentir se não admitisse que tu eras especial. Os teus donos adotaram-te quase na mesma altura em que começaram a viver juntos. Tu viveste e testemunhaste todo esse período da nossa relação. Cresceste connosco e nós crescemos contigo. Enquanto donos, enquanto casal, enquanto seres humanos.

Foram 66 meses de amor, que se interromperam, subitamente, numa manhã fria de Fevereiro. Partiste cedo, bicharoco. 38 anos, na nossa idade. Um jovem em pleno fulgor da vida, qual estrela de rock ou cinema a perpetuar a sua juventude pela eternidade.

Partiste e deixas-te um vazio nos nossos quotidianos, cuja dor tento, talvez em vão, exorcizar neste teclado. Tenho esta mania, sabes? Já me morreram muitos familiares queridos e eu sempre lhes escrevi. Essas palavras ficaram sempre entre eu e eles. Sempre optei por fazer esse luto de forma mais íntima e privada, como sempre senti que ele devia ser feito. Mas, desta vez, resolvi escrever-te e soltar essa carta ao universo. Não é uma situação comparável, nem tem de ser. Porque gostamos nós humanos de comparar o incomparável? Tu não, bicharoco. Não tinhas ponta de cinismo, inflexibilidade ou maldade e certamente compreenderias o motivo, o mais simples, natural, etéreo motivo do mundo: Porque me apeteceu.

Talvez esta partilha me alivie um pouco a mágoa de chegar a casa e não te ver cá.
De saber que perdemos um pedacinho da nossa felicidade quotidiana.
De não te voltar a ver a dormir.

Foste para o teu derradeiro sono embrulhado na camisola azul de lã da tua dona. Que esse odor que te era tão familiar te ampare para sempre.
E que em breve, eu consiga olhar para as tuas mil e uma fotos e vídeos e apenas sorrir.

Adeus, querido bicharoco!

© 2018, Victor Melo. Todos os direitos reservados.


One Response to DEAR BICHAROCO

  1. Cristina Pelicano says:

    ❤️❤️❤️❤️❤️