A JUKEBOX DOS CAMINHOS

O banco ao lado do seu estava vago há mais de uma hora. Os seus pensamentos também, ou pelo menos assim percecionaria quem o observasse do outro lado do bar. Calado e retraído sobre o balcão, com o olhar perdido na neblina de fumo que saía da chávena. Perdido como um caminhante nos planaltos verdes do norte, desnorteado pelo nevoeiro matinal. Errante como um vagabundo. Decifrável como um poema indiscreto.
Assim pensariam.

Na realidade não estava vago, nem perdido, nem desnorteado. Errante, sim. O seu pensamento errava por milhares de terras, lugares, cantos, outrora desconhecidos, sem que no entanto ele percebesse como, pois percorrera-os toda a sua vida.

Aquela conversa surtira um efeito curioso. Talvez tivesse sido demasiado longa, demasiado unilateral para ser apelidada de conversa. Uma epopeia oratória? Demasiado rebuscado. Uma viagem, uma boleia? Uma visita guiada? Sim, uma visita guiada. Aquela visita guiada levara-o a ver serem içados pequenos pontos de interrogação sob todos os terrenos que conhecia.

Sempre fora governado. E sentira-se bem assim. Protegido. Essa sensação, essa convicção era espessa como grossas vestes de lã, que sempre o tinham agasalhado, confortado. Esta noite, pela primeira vez, sentira que afinal o tecido dessas vestes era leve como cetim, como adereços de um velho e antigo, muito antigo teatro.
A visita guiada levara-o a esse teatro, aos seus bastidores. À vasta profundidade dos seus bastidores, imensurável quando comparada com a da plateia. E tudo ganhou nova luz.

Na exiguidade daquela plateia conseguia vislumbrar as ruas que percorria diariamente, os sinais de trânsito que as condicionavam, os pequenos hábitos instalados que alimentava, quase mecanicamente, sem na verdade entender porquê. O que pediam de si enquanto cidadão, o que anuía enquanto cidadão. O quão perpétuo era o alojamento das lascas dos remos na mesma carne, nas mesmas mãos. O quanto oca era a esperança de novos rumos e a carícia tetradáctila que a massajava. O quanto enrugado era o carácter esclavagista da ilusão de liberdade. E o quanto era áspero, afinal, o subtil toque do conformismo.

Sentia-se dividido nessa errância. Como uma bifurcação percorrida em simultâneo, com sentimentos de libertação num dos caminhos e de revolta no outro. Nesse último, mais do que revoltado, sentia-se deprimido a cada passo, pela recta que se espreguiçava até bem longe no horizonte e pela percepção da profundidade tentacular da máquina que a trilhara.

Estremeceu com o sabor frio do café. Levantou-se, pôs a mão no bolso e retirou algumas moedas, que pousou no balcão. Uma delas caiu, fez um barulho seco ao embater no chão de madeira e rolou até à jukebox. Mesmo sabendo que a máquina estava há muito avariada e o seu propósito era meramente decorativo, achou caricata a situação. Tinha algo de verdade.

Já perdera a conta às vezes que a música tinha sido o seu oráculo. Porque não hoje?

Tirou o iPod do bolso do casaco e decidiu que ouviria a música correspondente ao valor da moeda. A número 20, portanto. Não gostou. Resolveu fazer batota. Afinal, era dono do próprio destino.

O som cavalgou pelos seus phones e ele encontrou o sorriso que o arrastaria dali para fora. A bússola que lhe nortearia as ruas, da cidade e do pensamento.

Estava escuro, frio e vento cá fora. Sabia que não estava bem agasalhado mas não se importou.
Esfregou as mãos, riu-se e disse – Bom dia caminho!

iPod

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