O TANQUE QUE LAVA EPIFANIAS

Os olhos fundem-se no feixe de luz que projeta a imagem na parede caiada. Já a mente, essa deambula, inquieta. Dizem que Michelangelo, quando confrontado com um bloco de mármore, viu a estátua de David. “O meu ofício, enquanto escultor, foi apenas libertá-la do seu interior”, terá proferido.
Ora eu sei, desde o momento que trespassei uma enorme portada verde na zona histórica de Viseu e me sentei nesta manta, num pátio de pedra antiga, que estava diante de uma reportagem. Estou desprovido de todas as ferramentas do ofício. Entrei ali por mero acaso, empurrado por um caricato conjunto de coincidências. Mas num par de minutos, o ímpeto de reportar subjugou o desejo de desfrutar.

Em meu redor estão 30 pessoas, sentadas em mantas e almofadas, debaixo de um díospireiro e de uma noite quente de agosto, a visionar curtas-metragens projetadas sobre um velho tanque de pedra, revestido a musgo. O silêncio da audiência é acompanhado pelo cântico dos grilos e pela brisa estival, que percorre estas vielas repletas de história e revela a sua presença com a dança noturna das folhas da árvore. Há drama, tensão, ação, comédia, ternura. E acima de tudo, imensa cumplicidade.

Decorre a quinta sessão do Curtas Ao Tanque (CAT), iniciativa na loja cultural EMPÓRIO (integrante do Projeto Património), que veio ao mundo este ano. Há dois rostos por trás do certame: Luís Belo (24) e Carlos Salvador (44). O primeiro é um homem de vários ofícios. Ilustra, fotografa, faz design gráfico, idealiza projetos culturais, realiza documentários, toca metalofone. O segundo é conhecido na cidade como o “senhor curtas”. Professor de Educação Visual na EB23 do Viso, mentor do clube de cinema da escola e organizador de residências artísticas, Salvador já viu serem produzidas mais de 100 curtas-metragens pelos seus alunos. Luís Belo idealizou o CAT. Lançou de imediato o repto a Salvador. “Não há ninguém em Viseu mais apaixonado e com vontade de fazer coisas lindas do que ele”, afirma, destacando a sua experiência na área. Salvador exercitou essa experiência com um périplo por festivais de cinema em 2011. Fantasporto, MOTELx, Shortcutz, Caminhos do Cinema Português, Córtex, Avanca, Curtas de Vila do Conde. Colecionou quilómetros e filmes, conviveu com realizadores, apurou o seu poder de síntese. Juntos, passaram às decisões. A primeira: Só curtas-metragens portuguesas. “Persiste um preconceito numa grande fatia de espectadores em relação às produções nacionais. Grande parte por desconhecimento do muito que se faz por aí”, refere Luís Belo, assegurando que um dos objetivos do CAT é contribuir para a alteração dessa realidade.

 

RODAGEM

E o contributo continua esta noite, com mais cinco curtas portuguesas apresentadas ao público. A projeção da primeira, “They Shoot Crows…Don’t They?”, de Joana Sá, coincide com uma salva de foguetes que faz estremecer a plateia. Na baixa da cidade é celebrada a abertura da Feira de São Mateus, curiosamente no preciso momento em que Luís Belo pressionou o play. Alguém brinca e alude à cinefilia entusiasta do referido santo. Sorrisos, gracejos, novo arranque. 25 minutos depois, Joana Sá vai ao tanque. Prevalece uma espécie de mito brincalhão que reza que no final de cada projeção, o respetivo realizador, se presente, é atirado ao tanque. Não o vou desmistificar, mas é um facto que o autor se dirige ao tanque. É lá o púlpito onde discursa sobre o filme e responde a questões da audiência. Alguém identifica influências de Lynch e Cronenberg na obra. A realizadora confirma o primeiro, acrescenta os argumentos de Michel Gondry como inspiração narrativa e o filme “Mister Nobody”, como referência técnica. Confessa que o seu filme não é suposto ter uma história e perturba-a quando as pessoas a encontram. “Quis fazer algo diferente, com princípio, meio e fim, não necessariamente narrativo, mas bonito em termos visuais”.

“Como te deixaram fazer este filme?”. Salvador está admirado. É um projeto de final de curso (Universidade da Beira Interior), onde é costume seguir uma estrutura mais plana, tradicional, académica. “Este filme é montanhoso”, refere, aludindo à sua complexidade. “É comum os professores estarem pegados à noção que o aluno só deve soltar as asas quando tiver autonomia para tal”, explica, felicitando o arrojo e destacando a fotografia: “Há planos que davam pinturas fabulosas”.

Segue-se “O Milagre”, de Amadeu Pena da Silva, cuja manifestação arranca risos à audiência. “Acho esta escolha pertinente pois trata-se de um trabalho de um finalista do ESMAE, uma escola com muitos créditos no ensino de multimédia em Portugal”, refere Salvador, salientando a fotografia: “cores fantásticas”.

As lágrimas chegam ao final de “Um dia Longo”, um drama enternecedor sobre um neto que perde o avô e, impelido por uma mescla de inocência e emancipação, tenta lidar com a situação. Salvador confessa que é um filme “particularmente especial” para si, que lhe humedeceu os olhos no primeiro visionamento, no Shortcutz Lisboa. “O Sérgio Graciano [realizador] é um valor seguro”, afirma, destacando a “formidável construção das personagens”.

“Um último Olhar” é um projeto que venceu a categoria da maratona 48 Horas do Festival de Vila do Conde, onde os concorrentes dispõem desse espaço de tempo para produzir um filme. Luís Sérgio (22) e Hélder Faria (21) – que juntamente com Michell Silva (24) compõem o tríptico de realização – marcam presença no CAT. “A nossa principal fonte de inspiração? A falta de recursos”, brinca Luís Sérgio. “Tínhamos muitas ideias, mas todas impossíveis de concretizar nesse curto espaço de tempo. Optamos por algo mais experimental”, afirma Hélder Faria.

Carlos Salvador sorri ao apresentar o filme. Conhece os intervenientes, foram seus alunos e participaram numa iniciativa organizada por si – Aviso@24 – residência artística da escola do Viso, onde os participantes tinham 24 horas para produzir um filme. “Já tinham treino. Com o tempo duplicado, foi canja”, afirma, sorridente. “Uma ideia bem trabalhada, bem editada”, foram as valências destacadas.

Os arrepios ficaram para o fim, com “Survivalismo”, um thriller de autoria de José Pedro Lopes, que desperta imensa curiosidade a Carlos Salvador, devido à boa reputação que o filme detém nas comunidades virtuais desse género cinematográfico. A plateia assiste enregelada, imersa num silêncio tenso, apenas quebrado por um momento de humor. O organizador salienta o trabalho de realização, onde “os enquadramentos conseguiram passar o drama para o espectador sem que este tivesse acesso à face e às expressões do personagem”.

 

CENÁRIO

No CAT, os filmes quase disputam a ribalta com o vasto mundo de peculiaridades do espaço. O olhar de Luís Belo parece entreabrir-se, fatigado, quando recorda o estado do local há três anos: “As Silvas eram tão densas que não se via nada para além da porta, nem sequer o tanque”. A equipa meteu as mãos à obra e recuperou o seu EMPÓRIO. Fizeram recuar a invasão da vegetação até um canto, onde ainda perdura um pé de silva que dá amoras no verão. O voluntarismo dos amantes do espaço fez e ainda faz a diferença. As mantas e as almofadas onde estou sentado foram trazidas por espectadores. O projetor, erguido numa pilha de livros do Asterix, é emprestado. Os bolinhos de limão que servem de petisco para a sessão foram feitos por Ana Seia de Matos (31), namorada de Luís Belo. E os dois peixinhos dourados que habitam no tanque foram oferecidos por um cliente da loja.

O encanto do convívio e visionamento de filmes ao ar livre preenche o quadro, com toda uma envolvência que parece confluir para intensificar sensações. Seja a brisa que nos afaga o rosto durante um momento enternecedor, como o gato que emerge subitamente das plantas no decurso de um filme mais tenso e pula para os telhados limítrofes.

E se até São Mateus se revelou entusiasta, já São Pedro não tem sido um aliado leal. Choveu durante a sessão anterior. O duo organizador teve de recolocar 36 pessoas no interior da loja, num espaço exíguo, sentados num chão cor de sangue e acotovelados entre estantes de livros antigos, discos usados e antiguidades. “E isto durante mais de uma hora, estava com receio que ficassem aborrecidos, com o rabo dormente”. Contrariamente ao temor de Luís, a audiência valorizou a experiência. Gostaram, não apesar da contrariedade, mas por causa dela. “Sentimos que essa cumplicidade que se tem gerado é amplamente apreciada”.

 

 

DESÍGNIO

“Empurrar!”. Carlos Salvador sintetiza num único verbo o principal desígnio do CAT. Pressinto que ele vai prosseguir, logo refreio a pergunta óbvia: “Para o tanque?”. Explica-me que há outros eventos na cidade, embora a um nível “mais elitista”, onde são visionadas obras de autor, como Jean-Luc Godard, entre outros.“Um jovem sai de lá muito mais rico culturalmente, mas olha de baixo para cima para as obras. Não sai encorajado, com vontade de fazer algo, criar algo”. Constato o empurrão e sorrio, por ele se coadunar, analogamente, com a minha dedução anterior e também pela imagem mental de um tanque purificador de epifanias artísticas para onde os discípulos são atirados. Salvador prossegue: “Mostrar, divulgar, encorajar”. Em suma, “empurrar” quem tem sonhos na área do cinema na direção da sua materialização. “É uma função subliminar, não assumida, que reside nas entrelinhas e aguarda pacientemente por ser assimilada”. A paciência compensa. “Por vezes, no final das sessões, o público mais jovem vem-me dizer que quer filmar, quer fazer coisas, quer saber como começar”. Um desses episódios ocorreu na terceira sessão. Um jovem estudante de letras do 11º ano abordou Salvador. Relatou o seu gosto pela escrita e apresentou um dos seus textos, que achava ter potencial para um argumento. Salvador leu-o atenciosamente. Deu-lhe um contacto de um aluno seu, que sabia fazer edição. Juntaram-se os dois. Falaram. Juntaram-se a outros. Na sessão seguinte do CAT, o filme “O Suicida” estava concluído. “Embora tenha limitações técnicas óbvias, o argumento é uma mais-valia, tal como a enorme vontade dele em fazer. Contagiou, arrastou os outros”. Um empurrão que deixa Carlos Salvador feliz. “Podia ficar vaidoso, mas fico apenas feliz”.

 

PÓS-PRODUÇÃO

O duo organizador partilha de uma predileção por números redondos, mas tem sido o número cinco a predominar nesta primeira edição do CAT. Cinco sessões, 25 filmes, 155 espectadores. No próximo dia 24 ocorre a última ida ao tanque, com mais cinco filmes projetados. Seguir-se-á um interregno, “tempo de fazer balanço, maturar ideias”. E como fluem, as ideias na mente do duo. Desde uma maratona de 24 horas de curtas, à expansão do festival para duas edições anuais, Inverno e Verão. Enquanto esgrimem sugestões, é percetível um brilho liquefeito no olhar de Belo e Salvador. Uma centelha idealista, que denota genuína paixão pelo que estão a criar. Abandono o Empório, acompanhado por uma intangível sensação que também eu fora empurrado.

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