{"id":1004,"date":"2019-01-10T18:36:27","date_gmt":"2019-01-10T18:36:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=1004"},"modified":"2020-03-11T00:02:30","modified_gmt":"2020-03-11T00:02:30","slug":"o-hospede-do-hotel-abandonado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/o-hospede-do-hotel-abandonado\/","title":{"rendered":"O H\u00d3SPEDE DO HOTEL ABANDONADO"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">O<\/span> funcion\u00e1rio destranca a porta e pousa as malas na colcha bege impecavelmente engomada da cama. Dirige-se \u00e0s cortinas e sorri antes de as abrir. Sabe que do outro lado daquelas janelas enormes est\u00e1 uma paisagem que vai tirar o f\u00f4lego ao h\u00f3spede. Vai ouvir express\u00f5es de espanto, incredibilidade, deslumbre. De alguma forma, essas express\u00f5es orgulhavam-no. E serviam de alento especialmente nos dias mais dif\u00edceis, onde chegava a duvidar se estava na profiss\u00e3o certa. Nesses momentos havia uma sensa\u00e7\u00e3o confortante de perten\u00e7a, sentia que fazia parte de algo especial, algo que surpreendia todos os olhares, que desarmava o mais c\u00ednico dos semblantes, que despertava uma centelha de entusiasmo, mesmo nas auras menos inflam\u00e1veis. J\u00e1 com a gorjeta no bolso, ao sair do quarto tinha o h\u00e1bito de olhar para tr\u00e1s e ver sempre os h\u00f3spedes na mesma posi\u00e7\u00e3o, petrificados perante aquele v\u00e9u t\u00e3o v\u00edtreo quanto indiscreto que permitia contemplar cada cent\u00edmetro do corpo daquela medusa paisag\u00edstica.<\/p>\n<p>Enquanto desce a escada em espiral que leva \u00e0 rece\u00e7\u00e3o, o funcion\u00e1rio sente que pisa um ch\u00e3o cimentado, frio, h\u00famido. Era capaz de jurar que este j\u00e1 estivera alcatifado. J\u00e1 no balc\u00e3o, fica a aguardar que a abertura da moderna porta-autom\u00e1tica anuncie a entrada dos pr\u00f3ximos h\u00f3spedes. Mas ela n\u00e3o volta a abrir. Sente-se intrigado, mas estranhamente n\u00e3o consegue explicar a raz\u00e3o dessa intriga. Resolve n\u00e3o pensar nisso. Opta por debru\u00e7ar os pensamentos sobre o h\u00f3spede na suite. Ainda estar\u00e1 deliciado com a paisagem? Fecha os olhos e imagina-o. O sorriso regressa ao seu rosto e permanece l\u00e1, mesmo quando sente uma brisa inesperada. \u00c9 suposto estar tudo fechado, n\u00e3o faz ideia de onde ela vem, mas sabe-lhe bem. \u00c9 Ver\u00e3o e algo se passa com o ar condicionado. H\u00e1 quanto tempo j\u00e1 o deviam ter arranjado? N\u00e3o encontra uma resposta, mas tamb\u00e9m n\u00e3o importa. O que importa \u00e9 o h\u00f3spede. Esse estranho ser que, estranhamente, d\u00e1 sentido \u00e0 sua vida. Um ser que me ajuda a ser? Um estranho que me faz sentir estranho? J\u00e1 chega de perguntas, est\u00e1 t\u00e3o farto de perguntas. As perguntas podem ser uma maldi\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua quanto n\u00e3o existem respostas. Volta a acolher o h\u00f3spede nos seus pensamentos. N\u00e3o sabe porqu\u00ea, mas tem medo que um dia ele saia de l\u00e1. Tantas estrelas, pelo menos cinco, cinco inating\u00edveis estrelas e, no entanto, ele pode vir a querer sair de l\u00e1. Porque raio h\u00e1-de querer sair de l\u00e1? Mais uma pergunta. Mais uma maldi\u00e7\u00e3o. Estremece o rosto, como se quisesse afastar esses maus pensamentos. H\u00e1 tantos pensamentos que gostaria de querer afastar. Alguns s\u00e3o recorda\u00e7\u00f5es. Deixou de conseguir entender as recorda\u00e7\u00f5es. Todas elas lhe parecem t\u00e3o recentes e, simultaneamente, t\u00e3o long\u00ednquas. Recordar tornou-se um quadro abstrato. A tela? Ou a tinta? Mais perguntas, porque n\u00e3o consigo exorcizar essas perguntas da minha cabe\u00e7a?<\/p>\n<p>\u00c9 tarde, talvez j\u00e1 tenha passado a sua hora de sa\u00edda. Ultimamente n\u00e3o tem ouvido o toque cadenciado dos ponteiros do rel\u00f3gio franc\u00eas ornamentado em ferro, preso a uma das colunas de m\u00e1rmore do \u00e1trio. Em boa verdade, tamb\u00e9m n\u00e3o se lembra de ter sa\u00eddo, mas n\u00e3o quer arriscar mais uma pergunta. Respira fundo, cinco ou seis vezes, antes de conseguir voltar a pensar no h\u00f3spede. Mesmo esse pensamento feliz requer esfor\u00e7o de vez em quando. Ele n\u00e3o diz a ningu\u00e9m, mas esse esfor\u00e7o amedronta-o. Teme-o, talvez mais do que a morte. Ser\u00e1 que um dia a imagem do h\u00f3spede deliciado perante uma das vistas mais id\u00edlicas do pa\u00eds se vai desvanecer do seu pensamento? Como nevoeiro imaculado que se dissipa e deixa \u00e0 mostra o veludo que se transformou em trapos rasgados que ondulam ao sabor do vento? A tinta que se transformou em bolor, os m\u00f3veis que se transformaram em destro\u00e7os? O sonho que se transformou em vazio? Que disparate, diz para si. Aquela Medusa \u00e9 imortal. \u00c9 imune \u00e0 neblina do tempo, \u00e0 espada e ao escudo de Perseu, talvez at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3pria raz\u00e3o. Por isso, pouco me importa tudo o resto, o que sei, o que desconhe\u00e7o, o que temo vir a conhecer. O h\u00f3spede est\u00e1 l\u00e1 em cima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Este texto foi inspirado por uma visita ao Hotel Monte Palace, na ilha de S\u00e3o Miguel (A\u00e7ores), abandonado h\u00e1 27 anos. Na nossa <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/cronicasmadrugada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">p\u00e1gina<\/a> do Facebook foi publicado um <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pg\/cronicasmadrugada\/photos\/?tab=album&amp;album_id=2398154967079141&amp;__xts__%5B0%5D=68.ARBrPsoy_hMrkfSZgL0qJTsTUYrFLxbqEdRGFOYKRUnPS7EL-f6nvu6CT3sF5ATfpvYpZar344aCwvHVw8YJ7Zic-QRez4s0sULieYmdgdDhJyrCqHWhdiZRt3Csy_P_ioRaIAyHgPP1f5mvs6t2B1ArETb7_iS5Z3PN_TRAPEE3YA6zU04m_HuUpna27UIUTPkbHGk2g5RlVAXPrVQCxAccxcMzHggAU-cS-QHm8aeUjVrk6NgX3q1W3w71Kj2Q4A7W9j5fVQWAVuovWSBQw-MyyFsYUkyeKtf2YgVN--_zy_EVAkNy8kSfc4B21Rjw9FVmNNXUhH1z5TTBjPK6M_O8grzTTmd4U6xL6vHhBYSpS-c86_ab1KNkEPxm-xRxY0dAacQe9_hjJQT87EyVfbcark1a-YDy2CDl3U5hMcH8ITS8poRlmGl9PLh2Q-ZoKS8wT7vEksyRwQSA05KHHLdbgg&amp;__tn__=-UC-R\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e1lbum<\/a> recheado de fotografias dessa visita. Na descri\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, encontram um breve resumo da ef\u00e9mera e emblem\u00e1tica hist\u00f3ria do hotel.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa viagem aos A\u00e7ores, encontrei um velho hotel abandonado. Contornei o port\u00e3o trancado com correntes e explorei todos os seus recantos. Subi at\u00e9 ao andar mais alto, onde deduzo que se situavam as suites mais exclusivas e deparei-me com a vista privilegiada para um dos cen\u00e1rios mais id\u00edlicos de Portugal: A Lagoa das Sete Cidades. Finalmente percebi porque os antigos h\u00f3spedes apelidavam aquelas janelas de &#8220;quadro vivo&#8221;.<br \/>\nEra para contar a sua hist\u00f3ria, mas o que devia ser a entrada, uma introdu\u00e7\u00e3o ficcional e evocativa com meia d\u00fazia de linhas, ganhou vida pr\u00f3pria e tornou-se, ela mesma, no texto.<br \/>\nDecidi que seria ele a ficar hospedado no Cr\u00f3nicas da Madrugada. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1006,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[88],"class_list":["post-1004","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica-inedita","tag-ghost-stories"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.9 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O H\u00d3SPEDE DO HOTEL ABANDONADO | CR\u00d3NICAS DA MADRUGADA<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Numa viagem aos A\u00e7ores, encontrei um velho hotel abandonado envolto em neblina. 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