{"id":1492,"date":"2019-06-11T18:17:05","date_gmt":"2019-06-11T18:17:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=1492"},"modified":"2020-03-11T16:08:38","modified_gmt":"2020-03-11T16:08:38","slug":"cies-onde-a-liberdade-e-uma-ilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/cies-onde-a-liberdade-e-uma-ilha\/","title":{"rendered":"CIES: ONDE A LIBERDADE \u00c9 UMA ILHA"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">J<\/span>\u00e1 passaram nove ver\u00f5es desde que me apaixonei pela cor destas \u00e1guas. H\u00e1 nove ver\u00f5es que sonho com esta mescla vibrante de verde e azul que nos inunda os olhos e afoga todos os outros sentidos. Parece que estou num mar distante das Cara\u00edbas. A tonalidade ex\u00f3tica do mar, a floresta luxuriante que alcan\u00e7a o areal, a areia fina, a brisa suave, as in\u00fameras hist\u00f3rias de piratas que aqui desaguaram e enterraram os seus tesouros. E, no entanto, estou numa ilha no Norte de Espanha.<br \/>\nVim c\u00e1 pela primeira vez quando fiz 30 anos (podem ler esse relato <a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/uma-noite-na-ilha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>). Foi uma visita rel\u00e2mpago, de apenas 24 horas. Na altura, prometi regressar e explorar estas Ilhas Cies devidamente. Hoje &#8211; anoto no di\u00e1rio de bordo &#8211; nesta c\u00e1lida manh\u00e3 de 21 de Agosto do ano de 2016 do nosso Senhor, voltei a desembarcar neste peda\u00e7o de terra algures no Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>A \u00fanica forma (legal \u2013 e escrevo estas cinco letras com um sorriso maroto, descortinado no relato acima referido) de pernoitar essa ilha \u00e9 no parque de campismo. Do porto ao parque \u00e9 cerca de um quil\u00f3metro, incluindo a travessia de uma ponte de pedra que fica submersa ao anoitecer. A alternativa \u00e9 um longo areal em forma de quarto minguante que, visto de cima, d\u00e1 um aspeto ainda mais tropical a estas ilhas que os romanos batizaram de \u2018Ilhas dos Deuses\u2019, alcunha que os s\u00e9culos e os espanh\u00f3is transformaram num on\u00edrico \u2018Ilhas dos C\u00e9us\u2019.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s montar acampamento, passei o resto do dia na praia principal da Ilha, a Playa de Rodas, que o jornal brit\u00e2nico The Guardian considerou a mais bela do mundo em 2007. A beleza hipnotizante destas \u00e1guas faz-nos mergulhar de forma quase instintiva e ignorar os seus 17 graus. Estou a mentir, nunca ignoramos. A \u00e1gua \u00e9 gelada e s\u00e3o precisos alguns instantes arrepiantes, antes do corpo se habituar e podermos ent\u00e3o nadar \u00e0 vontade. \u00c9 a\u00ed que o sentido hipn\u00f3tico se faz sentir e podemos flutuar ao sabor de uma corrente quase inexistente naquele mar t\u00e3o fascinante que parece divino. Como se um deus qualquer da antiguidade tenha um dia decidido derreter esmeraldas e turquesas e despejar aqui o fruto da sua experi\u00eancia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1494\" aria-describedby=\"caption-attachment-1494\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vortex-magazine.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1494 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vortex-magazine-1024x648.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"648\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vortex-magazine-1024x648.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vortex-magazine-300x190.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vortex-magazine-768x486.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Vortex-magazine.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1494\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Vortex Magazine<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 noite quando janto na esplanada do bar do parque, que apelidei de \u2018velha taberna pirata\u2019. Tento atenuar o sabor de um panado de porco intrag\u00e1vel com uma segunda cerveja. Est\u00e1 gelada, perfeita para uma noite quente de Agosto. Despejo na mesa todas as anota\u00e7\u00f5es, mapas e artigos que imprimi sobre a ilha. Vou tentar planificar os pr\u00f3ximos dias e tamb\u00e9m aprofundar um pouco mais a pesquisa sobre a ilha. Embora eu tenha o h\u00e1bito de me referir a ela no singular, na verdade s\u00e3o tr\u00eas ilhas. Todas t\u00eam nomes, mas tamb\u00e9m s\u00e3o conhecidas pela sua orienta\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e eu gosto mais assim. Estou na ilha do Meio, que est\u00e1 ligada \u00e0 ilha do Norte pela ponte de pedra\/areal que referi atr\u00e1s. Depois h\u00e1 a ilha do Sul, separada por poucas milhas e raramente visitada.<\/p>\n<h2><span style=\"color: #808080;\">Hist\u00f3ria da ilha<\/span><\/h2>\n<p>H\u00e1 registos de presen\u00e7a humana nas Ilhas Cies desde 3500 AC. H\u00e1 ru\u00ednas de dois castros (Idade do Ferro e Bronze) e foram encontrados in\u00fameros vest\u00edgios romanos. Na \u00e9poca medieval foram oferecidas \u00e0 igreja e ocupadas por monges, que constru\u00edram dois mosteiros. O mosteiro de San Marti\u00f1o (Ilha Sul) e o San Estevo (Ilha do Meio), em cujas ru\u00ednas foi erguido o Centro de Interpreta\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o das ordens religiosas, tentaram repovoar a ilha no s\u00e9culo XIX. A tentativa falhou. Nos anos 60 toda a gente deixou de l\u00e1 viver. Exceto um, mas isso \u00e9 para descobrir mais \u00e0 frente. Por enquanto, j\u00e1 vou na quinta Estrella Galicia e continuo a ler sobre os mist\u00e9rios da ilha.<\/p>\n<h2><span style=\"color: #808080;\">Pirataria na ilha<\/span><\/h2>\n<p>Pelo nevoeiro dos s\u00e9culos passaram muitos piratas por esta ilha. A maior parte atracou de forma pac\u00edfica e respeitou, relativamente, a popula\u00e7\u00e3o religiosa. A exce\u00e7\u00e3o foi Francis Drake. O famoso cors\u00e1rio ingl\u00eas \u2013 que inspirou a personagem Natham Drake, que \u00e9 seu descendente na saga de videojogos Uncharted \u2013 arrasou a ilha e usou-a como base quando atacou Vigo e Baiona no s\u00e9culo XVI. De 1568 a 1589, o cors\u00e1rio aterrorizou e saqueou estas cidades diversas vezes. Ainda hoje, por vezes os pescadores locais recolhem bolas de canh\u00e3o nas suas redes de pesca. Entre os incont\u00e1veis barcos naufragados ao largo destas ilhas, h\u00e1 dois gale\u00f5es espanh\u00f3is que se tornaram lend\u00e1rios. \u201cSanto Cristo de Maracaibo\u201d afundou em 1702, perto da Ilha do Sul. Tinha os por\u00f5es cheio de ouro e prata das Am\u00e9ricas. Nesse mesmo ano, ap\u00f3s embater nos rochedos pr\u00f3ximos das ilhas, o navio mercante &#8220;Nuestra Se\u00f1ora de los Remedios&#8221; naufragou juntamente com toda a preciosa varga de trazia de Havana. Ambos os tesouros nunca foram encontrados.<br \/>\nNo entanto, as preciosidades n\u00e3o est\u00e3o apenas no fundo do mar. Os piratas usavam ilhas como esta \u2013 praticamente desabitadas \u2013 como \u201ccofres\u201d para guardarem os seus valiosos saques.<br \/>\nPor entre os areais c\u00e2ndidos como p\u00e9rolas das Ilhas Cies, os densos bosques ou grutas que mergulham na escurid\u00e3o, abundam as hist\u00f3rias e lendas sobre antigas arcas escondidas com tesouros inimagin\u00e1veis por destrancar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28718336-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1498 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28718336-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28718336-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28718336-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28718336-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28718336-2-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><span style=\"color: #808080;\">Explorar a ilha<\/span><\/h2>\n<p>O barulho das ondas entra pela tenda adentro e desperta-me. O sono e a vontade de explorar. O parque de campismo fica no meio de um pinhal mesmo em frente \u00e0 praia. Sento-me na manta em frente \u00e0 tenda, tomo o pequeno-almo\u00e7o e parto \u00e0 descoberta, com o sorriso de uma crian\u00e7a deslumbrada. H\u00e1 apenas um (muito) ligeiro travo amargo nesse sorriso. Deixei todo o meu material fotogr\u00e1fico em casa. Queria fazer planos \u00e0 vontade na praia e no mar, sem estar minimamente preocupado com a seguran\u00e7a do material na tenda. Entre o magn\u00edfico potencial fotogr\u00e1fico deste s\u00edtio e a liberdade imperturb\u00e1vel de usufruto, optei pela \u00faltima. O telem\u00f3vel vai ter de substituir a velha companheira Canon 40D. Para al\u00e9m dele, vou equipado com uns bin\u00f3culos, um mapa rasurado e uma <em>handycam<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29464448-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1495 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29464448-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29464448-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29464448-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29464448-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29464448-2-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24839360.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1504 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24839360-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24839360-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24839360-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24839360-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24839360-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29288896.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1505 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29288896-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29288896-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29288896-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29288896-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29288896-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passei os cinco dias a explorar cada recanto da ilha. Fiz o trilho que rasga quase toda a ilha do Norte, at\u00e9 ao Farol de Monteagudo. \u00c9 nesta ilha que est\u00e1 a montanha mais alta e escarpada de todo o arquip\u00e9lago. Chamam-lhe \u201cMonteagudo\u201d: \u2018Montanha afiada\u2019. Nesta zona, procuro uma gruta junto ao mar, a \u2018Furna de Monteagudo\u2019. H\u00e1 relatos com rugas e cabelos brancos que garantem que as suas profundezas escondem um velho tesouro pirata.\u00a0 Segundo li, foram descobertos alguns dobr\u00f5es do s\u00e9culo XVIII nas suas imedia\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA gruta n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil de encontrar. H\u00e1 um trilho que segue do farol em dire\u00e7\u00e3o ao mar. No fim do caminho, encontramo-la \u00e0 direita. Basta aproveitar a mar\u00e9 vazia, escalar algumas rochas e estamos perante essa enorme boca rochosa que engole ondas do tamanho de autocarros durante a mar\u00e9 alta. \u00c9 de manh\u00e3 e a turbul\u00eancia e o rugido das \u00e1guas l\u00e1 dentro desencorajam qualquer plano idiota de l\u00e1 entrar. Nem quero imaginar ao anoitecer, com a subida da mar\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f25611456-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1496 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f25611456-4-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f25611456-4-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f25611456-4-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f25611456-4-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f25611456-4-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Regresso, sem ouro mas enxuto. Por pouco tempo. Algures no cora\u00e7\u00e3o da ilha descansam as ru\u00ednas de um castro da idade do bronze. Ap\u00f3s percorrer um caminho de terra ladeado por capim dourado \u00e0 altura da cintura, encontro-o num meio de um bosque. Percorro-as, acaricio essas rochas antigas, inspiro essa ancestralidade. Neste solo de terra e caruma foi encontrado um anel de ouro do s\u00e9culo II, que est\u00e1 hoje no Museu de Pontevedra. Quantos mais estar\u00e3o por descobrir? Enquanto penso na resposta, os c\u00e9us estalam com um rel\u00e2mpago. Como nas ilhas tropicais, n\u00e3o h\u00e1 aviso pr\u00e9vio, a tempestade chega de repente. A chuva \u00e9 morna, leve e agrad\u00e1vel. Acompanha-me o resto do caminho.<br \/>\nJ\u00e1 na outra extremidade da ilha nortenha, subo ao \u2018Alto do Pr\u00edncipe\u2019, um planalto rochoso a 111 metros de altitude com vista para a baia e para as montanhas do Sul. \u00c9 o melhor s\u00edtio para ver o p\u00f4r-do-sol nas Islas Cies.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28331264-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1497 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28331264-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28331264-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28331264-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28331264-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f28331264-2-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seguiram-se mais dias e mais trilhos. Todos os trilhos da ilha. Caminhos cheios de vegeta\u00e7\u00e3o que nos levam a bosques serrados, praias escondidas, habita\u00e7\u00f5es em ru\u00ednas ou velhos cemit\u00e9rios com muros de pedra e campas de areia. Caminha-se sobre terra, pedra, caruma ou areia. A ilha tem imensas faces, de Norte a Sul, Este a Oeste.<\/p>\n<p>A subida mais \u00e1rdua \u00e9 ao farol principal das Cies que se ergue no topo de uma montanha \u00edngreme. Ap\u00f3s um dia inteiro a deambular por outras paragens, senti-me ofegante a subi-la ao entardecer. Nesses momentos, at\u00e9 a f\u00faria do vento ascendente parecia ajudar a empurrar-me at\u00e9 l\u00e1 cima. A vista extraordin\u00e1ria recompensou o esfor\u00e7o. Com a ajuda do zoom da m\u00e1quina de filmar deu, inclusivamente, para ver grupos de pessoas empoleiradas no \u2018Alto do Pr\u00edncipe\u2019, onde tinha estado 48 horas antes. Nas Cies \u00e9 comum dar-se as boas-vindas \u00e0 noite no topo das montanhas.<\/p>\n<p>Foi nessa descida, algures a Oeste da ilha do Meio, que encontrei o abrigo onde passei a noite h\u00e1 nove anos (ler <a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/uma-noite-na-ilha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pre\u00e2mbulo<\/a>). Fiquei l\u00e1 alguns minutos, num sil\u00eancio acompanhado pela brisa noturna, pelo ondular do capim e pelo c\u00e2ntico das cigarras, com um c\u00e9u azul escuro, laranja e vermelho, avistado por entre a janela de pedra da caricata forma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica a quem chamam \u2018Pedra da Camp\u00e1\u2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29477248.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1507 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29477248-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29477248-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29477248-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29477248-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29477248-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29179264-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1518 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29179264-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29179264-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29179264-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29179264-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29179264-2-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29253120.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1506 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29253120-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29253120-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29253120-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29253120-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29253120-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Iniciei o dia dos meus 39 anos debaixo do mar. Fiz mergulho numa praia chamada &#8216;Nosa Se\u00f1ora\u2019, protegida numa enseada da ilha, com \u00e1guas tranquilas e transparentes que permitem observar cada detalhe da sua diversa biodiversidade aqu\u00e1tica. A praia \u00e9 lind\u00edssima, deixei-me ficar por l\u00e1 durante a tarde.<\/p>\n<p>A poucos metros, a t\u00e3o poucos metros dali, no topo da encosta rochosa que protege a praia, estava a casa do El Chuco (ler <a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/uma-noite-na-ilha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pre\u00e2mbulo<\/a>). Nem em 2007 nem em 2016 soube da exist\u00eancia desse ermita hospitaleiro que recebia visitantes com admir\u00e1vel simpatia. Que hist\u00f3ria incr\u00edvel poderia ter surgido se tivesse optado por o visitar h\u00e1 nove anos em vez de pernoitar no abrigo. E mesmo agora, teria tido todo o prazer em comprar mantimentos e ir l\u00e1 oferec\u00ea-los para o jantar e passar o ser\u00e3o com uma garrafa de rum &#8211; bebida que detesto mas, em terra de piratas bebe-se bebidas de piratas &#8211; a conversar com ele e ouvir tantas hist\u00f3rias que ter\u00e1 recolhido em quase trinta anos de ex\u00edlio auto-infligido.<\/p>\n<p>Li tantas coisas sobre a ilha, \u00e9 inacredit\u00e1vel como s\u00f3 descobri a exist\u00eancia de El Chuco quando me sentei para escrever estas linhas em 2019. Ap\u00f3s d\u00e9cadas de liberdade nesta ilha, um cancro arrancou-o do seu para\u00edso. Morreu em Vigo, numa cama de hospital, no Dezembro passado. Li, numa emocionante reportagem do El Espa\u00f1ol, que os amigos tinham reunido 2400 euros para cremar o seu corpo e que tinham espalhado as suas cinzas na ilha.<\/p>\n<p>Nessa noite, por mera coincid\u00eancia, jantei na esplanada onde h\u00e1 nove anos tinha bebido um ch\u00e1 para aquecer o corpo encharcado de chuva. Afinal n\u00e3o \u00e9 um caf\u00e9, \u00e9 um restaurante. O melhor restaurante da ilha. Chama-se Seraf\u00edn e \u00e9 l\u00e1 que se come o melhor peixe das Cies. Perante um long\u00ednquo c\u00e9u tempestuoso algures sobre Vigo e na companhia da namorada, de um pargo maravilhosamente grelhado, suculentos pimentos padr\u00f3n e uma garrafa fresca de vinho branco, dei as boas-vindas ao meu trig\u00e9simo nono Ver\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29742784-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1499 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29742784-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29742784-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29742784-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29742784-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f29742784-2-1200x675.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2><span style=\"color: #808080;\">Levantar \u00e2ncora <\/span><\/h2>\n<p>J\u00e1 no barco, com as montanhas da ilha cada vez mais pequenas no horizonte, sinto um encanto dif\u00edcil de explicar. Nesta ilha parece perdurar uma sensa\u00e7\u00e3o peculiar de liberdade. Talvez aliada \u00e0s mem\u00f3rias antigas dos piratas que aqui passaram. Talvez seja o seu aspeto selvagem, quase ex\u00f3tico. Quando nos afastamos do parque de campismo e do porto &#8211; onde est\u00e3o reunidos os poucos estabelecimentos &#8211; a ilha parece deserta, um para\u00edso virgem cheio de natureza inexplorada.<br \/>\nTalvez sejam as manh\u00e3s no acampamento, deitado numa manta a olhar para o c\u00e9u azul e para o topo dos pinheiros a ondular com a brisa, a ouvir as ondas e a sentir o cheio de caf\u00e9 acabado de fazer no <em>campingaz<\/em>. T\u00e3o simples de descrever, t\u00e3o id\u00edlico de vivenciar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24801664.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1509 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24801664-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24801664-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24801664-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/f24801664-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez sejam as p\u00e1ginas de \u201cA Ilha do Tesouro\u201d, de Robert Louis Stevenson, que devorei durante esta estadia, provavelmente o segundo melhor s\u00edtio do mundo para ler esta hist\u00f3ria apaixonante de velhos lobos do mar. Talvez seja a r\u00fastica taberna pirata onde todos convergem.<br \/>\nTalvez seja o quotidiano da ilha, ao qual nos familiarizamos com a passagem dos dias. Passamos a reconhecer os n\u00e1ufragos (ali s\u00e3o n\u00e1ufragos, n\u00e3o turistas), reconhecemos os seus rostos nas manh\u00e3s e nas noites. Partilhamos o cansa\u00e7o dos trilhos, os pequenos transtornos, os muitos encantos, todo um estilo de vida m\u00fatuo que adotamos durante a estadia neste peda\u00e7o de terra em forma de lua com parecen\u00e7as e reminisc\u00eancias caribenhas. Talvez tenha sido tudo isso que encantou Germ\u00e1n Freijeiro e o transformou em El Chuco, quando decidiu hastear uma bandeira com caveira e ossos e ali passar o resto dos seus dias. Talvez seja uma frase, a mais bela frase que, como um pirata devasso, saqueei \u00e0 reportagem do El Espan\u00f5l: \u201cPois aquela bandeira, s\u00edmbolo da liberdade mais selvagem, mais absoluta, impregnou este lugar com o seu esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><span style=\"color: #808080;\"><em>Na nossa <a style=\"color: #808080;\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/cronicasmadrugada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">p\u00e1gina<\/a> do Facebook foi publicado um <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pg\/cronicasmadrugada\/photos\/?tab=album&amp;album_id=2501692050058765\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">\u00e1lbum<\/a> com fotografias suplementares que n\u00e3o integraram este texto. Foi tamb\u00e9m publicado um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ANStl1pugf4&amp;fbclid=IwAR1GxFOEzRqSZcrJBysG1QJ79FILeRAbyoIhWyXSpPTXXaX4pDVsqssBrTY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">v\u00eddeo\u00a0<\/a> com diversas filmagens que retratam os trilhos, o\u00a0 quotidiano e as maravilhas naturais da ilha.<\/em><\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha prometido regressar e explorar a ilha. Nove anos depois, cumpri a promessa. Mergulhei em \u00e1guas cristalinas, atravessei florestas, escalei montanhas escarpadas, inebriei-me com velhas hist\u00f3rias de piratas e senti o murm\u00fario desses sonhos antigos de liberdade selvagem que ainda ecoam por aqui. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1501,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[86],"class_list":["post-1492","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica-inedita","tag-as-ilhas-paradisiacas-da-galiza"],"yoast_head":"<!-- This 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