{"id":1827,"date":"2020-12-09T11:43:14","date_gmt":"2020-12-09T11:43:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=1827"},"modified":"2020-12-11T21:18:03","modified_gmt":"2020-12-11T21:18:03","slug":"uma-noite-com-drave-so-para-mim-i-a-caminhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/uma-noite-com-drave-so-para-mim-i-a-caminhada\/","title":{"rendered":"UMA NOITE COM DRAVE S\u00d3 PARA MIM \u00abI &#8211; A Caminhada\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">O<\/span>s ponteiros do rel\u00f3gio marcam 21:49 quando anoitece. Pensei que o sil\u00eancio ia envolver esta aldeia deserta quando a noite ca\u00edsse, mas n\u00e3o \u00e9 o que acontece. Algures num ramo ainda h\u00e1 um p\u00e1ssaro a cantar e o riacho que corre ao fundo da aldeia solta um murm\u00fario incans\u00e1vel que ecoa por todas as ruas de Drave. Ainda estava sol quando me encostei \u00e0s paredes desta casa, onde viveu o \u00faltimo habitante da aldeia. Em 300 anos, v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es nasceram e morreram dentro destas paredes de pedra. O senhor Joaquim foi o \u00faltimo. Durante oito anos partilhou a povoa\u00e7\u00e3o apenas com a mulher, a dona Aninhas, at\u00e9 ela falecer em 1999. O vi\u00favo n\u00e3o quis deixar a sua terra \u00f3rf\u00e3 e permaneceu um ano aqui sozinho, at\u00e9 os familiares o convencerem a ir viver para a povoa\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima, Regoufe.<\/p>\n<p>Olho para as janelas e tento imaginar a sua silhueta a espreitar o vale, como um rei velho e cansado que se recusa a abandonar o seu reino. Se tivesse jeito para desenhar, era essa imagem que imortalizava no meu caderno, em vez de descri\u00e7\u00f5es e pensamentos. Nesse instante, levanta-se uma brisa ligeira que revira as folhas. \u201cN\u00e3o est\u00e1s assim t\u00e3o cansado, meu caro?\u201d, digo, instintivamente e em voz alta, com um sorriso, como se este sopro fosse dele. O vento deixou descoberta a primeira p\u00e1gina, onde est\u00e1 escrita uma inten\u00e7\u00e3o: \u201cUm dia vou regressar e passar aqui uma noite sozinho, com Drave s\u00f3 para mim. S\u00f3 eu, o sil\u00eancio e esta aldeia que chamam de m\u00e1gica\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9368-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1850 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9368-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9368-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9368-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9368-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9368-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9368-2048x1366.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira vez que fui a Drave foi na Primavera de 2008. J\u00e1 tinha ouvido falar imenso desta aldeia alojada num vale a 600 metros de altitude, cercada por montanhas que lhe ocultam o sol no Inverno e que s\u00f3 se alcan\u00e7a com duas horas de caminhada.<br \/>\nA povoa\u00e7\u00e3o, dizem, j\u00e1 existe desde tempos antigos. J\u00e1 l\u00e1 foi encontrada uma pulseia de ouro de origem celta. H\u00e1 quem diga que nos s\u00e9culos seguintes, se tornou um ref\u00fagio de \u201cbandidos e canalhas\u201d, que se aproveitavam do seu isolamento para ali se refugiarem ap\u00f3s os seus crimes. No entanto, foi em 1700 que um casal ali se instalou e deu origem \u00e0 aldeia que conhecemos hoje: Os Martins. Eles e os seus descendentes contru\u00edram casas de xisto, a capela, a adega e o enorme solar da fam\u00edlia, onde nasciam e, muitas vezes, morriam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9340-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1852 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9340-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9340-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9340-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9340-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9340-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9340-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com o passar dos anos, os habitantes ascenderam a poucas centenas. Um povo de agricultores, pastores e mineiros. A partir do s\u00e9culo XX a desertifica\u00e7\u00e3o acentua-se. Em 1971, ocorre o \u00faltimo nascimento na aldeia. Em 1990, j\u00e1 s\u00f3 l\u00e1 viviam dois casais, sendo que um deles parte no ano seguinte. Permanecem l\u00e1 Joaquim Martins e a Dona Aninhas, sozinhos numa aldeia sem eletricidade, saneamento ou telefone, uma viv\u00eancia de simplicidade e encanto; que sempre conheceram e sempre amaram. A morte separa-os em 1999 e juntou-os em 2005.<\/p>\n<p>Em 2003, Drave torna-se uma base nacional dos escuteiros. Desde ent\u00e3o, est\u00e3o quase sempre l\u00e1, a trabalhar na reconstru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o das casas da aldeia. Foi assim quando percorri as suas ruas pela primeira vez. Ouviam-se martelos a pregar, pedras a serem colocadas no s\u00edtio, escadotes a serem levantados para envernizar a madeira das janelas. Uma az\u00e1fama incessante e inspiradora, que dava gosto presenciar. No entanto, parte de mim sentia um outro desejo. Foram muitos anos a ouvir falar desta aldeia antiga, distante e deserta. Um local onde a vida secou, mas cuja terra permanecia f\u00e9rtil em mem\u00f3rias, sobretudo dos que permaneceram c\u00e1 at\u00e9 ao fim. Havia algo de po\u00e9tico nessa resili\u00eancia, nessa solid\u00e3o autoinfligida dos dravenses. E para usufruir dessa poesia, de forma mais genu\u00edna, a visita deste forasteiro teria de ser diferente. Retirei do bolso o caderno que me acompanha em todas as caminhadas, sentei-me numa laje de xisto e escrevi uma frase, em forma de promessa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9458-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1851 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9458-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9458-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9458-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9458-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9458-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9458-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201c24 de Junho, \u00e9 uma quarta-feira\u201d. Dei um abra\u00e7o ao meu velho amigo e agradeci-lhe a confian\u00e7a. Querer encontrar Drave totalmente deserta \u00e9 como procurar uma agulha num enorme palheiro. H\u00e1 acampamentos de escuteiros durante todo o ano e quase todas as semanas. Por isso, tive de recorrer a uma fonte especial. Um amigo com n\u00edvel hier\u00e1rquico alto nos escuteiros arranjou-me uma data desprovida de qualquer atividade escutista. \u201cNesse dia, tens Drave s\u00f3 para ti\u201d. Opto por n\u00e3o o identificar porque n\u00e3o sei se poder\u00e1 haver algum tipo de repres\u00e1lia pela partilha da informa\u00e7\u00e3o interna. Posso assegurar que \u00e9 um dos seres humanos mais id\u00f3neos que conhe\u00e7o. Abriu uma exce\u00e7\u00e3o porque me conhece bem &#8211; desde pequeno &#8211; e sabe que vou respeitar o local.<\/p>\n<p>Arranco ao amanhecer. Na mala do carro est\u00e1 uma mochila com mantimentos para dia e meio, tenda, colchonete, saco-cama de ver\u00e3o, dois livros, mp3, trip\u00e9 e equipamento fotogr\u00e1fico.<br \/>\nJ\u00e1 na fase final da viagem, h\u00e1 uma placa que enuncia: \u201cPortal do Inferno\u201d. A partir da\u00ed, a estrada serpenteia pela crista da montanha. A vista corta a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9003-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1832 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9003-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9003-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9003-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9003-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9003-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9003-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Chego \u00e0 aldeia de Regoufe \u00e0s 9:30. Deixo a mochila no carro e vou explorar as ru\u00ednas das minas de volfr\u00e2mio, cujo min\u00e9rio abastecia o armamento do ex\u00e9rcito aliado na II Guerra Mundial. [<em>Experi\u00eancia descrita em detalhe no <a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/a-garimpar-imaginacao-nas-ruinas-das-minas-de-volframio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">prel\u00fadio<\/a> deste texto<\/em>]<br \/>\nAndo por l\u00e1 umas duas horas, a fotografar e a tentar imaginar a sua atividade nos anos 40, com mil homens a escavar o dia inteiro, em plena \u201cFebre do volfr\u00e2mio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9035-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1833 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9035-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9035-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9035-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9035-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9035-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9035-2048x1366.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 ao fim da manh\u00e3, vou ao Caf\u00e9 Montanha, onde almo\u00e7o e converso com a dona Ilda. Tem 57 anos (a a\u00e7\u00e3o deste texto decorre em 2015, hoje tem 62), todos passados em Regoufe. A antiga mercearia onde o seu pai servia sopa e vinho aos mineiros \u00e9 agora o seu caf\u00e9. \u201cQuando era pequenina percorria o trilho at\u00e9 Drave, sempre de manh\u00e3 quando era fresquinho, e trazia de l\u00e1 o vinho \u00e0s costas num odre de pele de cabra\u201d. Em muitas noites, os copos de tinto eram a \u00fanica companhia e o \u00fanico manto que cobria as saudades desses homens com sotaques estranhos que tinham deixado as suas fam\u00edlias, as suas casas e o seu pa\u00eds para tr\u00e1s, para viverem oito a 10 horas por dia debaixo de terra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9106-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1834 \" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9106-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9106-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9106-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9106-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9106-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9106-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A dona Ilda sorri quando fala das minas. Eram um s\u00edtio de trabalho. \u201cO meu pai era capataz e passei muitas tardes a lavar min\u00e9rio em cales de madeira\u201d. Mas tamb\u00e9m eram um s\u00edtio de lazer. \u201cQuando \u00e9ramos pequenas, brinc\u00e1vamos l\u00e1 \u00e0s escondidas. Mais tarde \u00edamos l\u00e1 por outros motivos\u201d. Ri-se, envergonhada. \u201cNamorar era f\u00e1cil em Regoufe\u201d.<\/p>\n<p>Eram tamb\u00e9m um \u201celetrodom\u00e9stico\u201d. \u201cNa altura n\u00e3o havia frigor\u00edficos, se quer\u00edamos \u00e1gua ou cervejas frescas, deix\u00e1vamos as garrafas na mina mais fria\u201d. \u201cHavia uma mais fria do que as outras?\u201d, pergunto. \u201cSim, a mais funda, demorava uns vinte minutos a percorr\u00ea-la at\u00e9 ao fim, era muito escura, tinha medo de l\u00e1 entrar\u201d. \u201cPois, isso soa-me familiar\u201d, refiro, com um sorriso comprometido. [<em>Ler <a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/a-garimpar-imaginacao-nas-ruinas-das-minas-de-volframio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">prel\u00fadio<\/a><\/em>]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9053-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1835 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9053-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9053-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9053-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9053-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9053-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9053-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s servir um baga\u00e7o aos dois velhotes da mesa do lado, a dona Ilda fala-me tamb\u00e9m dos quotidianos de outrora de Drave. \u201cOs antigos trabalhavam muito a terra, iam a cantar para a lavoura, havia muita alegria l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Conta-me a hist\u00f3ria da senhora Albertina, que teve nove filhos, todos nascidos em Drave; do senhor Joaquim, que \u201cpor ele, ficava por l\u00e1\u201d e que teve \u201cimensa pena\u201d de partir e deixar ao abandono \u201cos campos que semeava com tanto cuidado\u201d; do paradis\u00edaco po\u00e7o da ronca, \u201conde a juventude se banhava\u201d; e dos lobos, cujos uivos se ouviam de noite, \u201cpara os lados de Covas do Monte\u201d.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o-lhe as hist\u00f3rias, meto a mochila \u00e0s costas e arranco.<\/p>\n<p>S\u00e3o 14:25. Estou num ponto alto de Regoufe. Avisto o fim da aldeia no fundo do vale e o trilho que arranca da\u00ed e sobe em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 montanha. H\u00e1 um rebanho enorme a percorr\u00ea-lo.\u00a0 Tenho ainda que atravessar a aldeia para l\u00e1 chegar. \u00c9 uma caminhada agrad\u00e1vel, muitas das ruas est\u00e3o cobertas por videiras que me protegem do imenso calor que j\u00e1 se faz sentir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9116-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1836 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9116-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9116-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9116-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9116-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9116-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9116-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira parte do trilho \u00e9 dura. \u00c9 uma subida \u00edngreme e muito acidentada, cheia de pedras soltas. Vou devagar, n\u00e3o quero arriscar uma entorse logo no in\u00edcio do plano.<br \/>\nA subida nunca mais acaba. Percorr\u00ea-la com o peso da mochila e o sol abrasador n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Mais acima, vejo uma \u00e1rvore junto ao trilho. Resolvo parar uns instantes \u00e0 sua sombra. Bebo um pouco de \u00e1gua enquanto a observo. Tem um tronco enorme, retorcido e esburacado, que lhe d\u00e1 um aspeto g\u00f3tico, faz lembrar os filmes do Tim Burton. Respiro fundo, retomo a ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9129-1-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1881 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9129-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9129-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9129-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9129-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9129-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9129-1-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Finalmente atinjo um planalto. Solo lisinho e amolecido por erva seca e com vista para a cordilheira, banhado ocasionalmente por brisa fresca. Que maravilha! Sento-me junto a uma mariola e decido ficar por ali algum tempo, a usufruir do ambiente id\u00edlico. Retiro o caderno da mochila e escrevo um pouco. Decido que vou desenhar um mapa ao longo do trajeto, batizando os pontos de refer\u00eancia que vou encontrando. \u201cVertigem do Cascalho\u201d, \u201cSombra de Burton\u201d, \u201cPlanalto Divino\u201d. Junto \u00e0s p\u00e1ginas, est\u00e1 um envelope fechado. Pego nele e sorrio. \u201cFoi por pouco\u201d, penso.\u00a0 L\u00e1 dentro est\u00e1 uma lenda sobre Drave. Uma lenda arrepiante, dizem. Enviaram-me a vers\u00e3o mais completa, que imprimi sem ler e selei neste envelope. Decidi que s\u00f3 a ia ler quando estivesse j\u00e1 a pernoitar na aldeia. Por um lado, para ser mais clim\u00e1tico. Que melhor s\u00edtio para conhecer a lenda do que no seu pr\u00f3prio palco? Por outro, porque n\u00e3o me queria deixar condicionar por ela. Podia ficar amedrontado e cair na tenta\u00e7\u00e3o de convidar mais algu\u00e9m para vir comigo e adulterar o des\u00edgnio inicial do meu plano. Assim, quando a ler, se for assustadora como contam, prevalecer\u00e1 algo deste g\u00e9nero: \u201cTarde demais, meu caro. Nem voltas para tr\u00e1s, nem alteras seja o que for. J\u00e1 c\u00e1 est\u00e1s, sozinho, como querias. <em>Deal with it<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9137-2-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1838 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9137-2-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9137-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9137-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9137-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9137-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9137-2-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Durante a conversa com a dona Ilda, senti-me tentado a perguntar-lhe sobre isto. Seja qual for essa hist\u00f3ria, seria muito bom obter uma perspetiva local. Ali\u00e1s, eu procuro sempre essa perspetiva e fico sempre entusiasmado quando a encontro. Acho que foi a primeira vez que a ignorei, de forma deliberada, numa viagem. \u201cN\u00e3o foi f\u00e1cil\u201d, digo em voz alta, enquanto volto a guardar o envelope.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9139-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1839 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9139-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9139-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9139-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9139-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9139-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9139-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9596-2-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1847 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9596-2-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9596-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9596-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9596-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9596-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9596-2-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguns minutos mais \u00e0 frente, encontro uma das vis\u00f5es mais assombrosas deste trilho. Mesmo que n\u00e3o se queira fazer as duas horas de caminhada at\u00e9 Drave, vale a pena subir at\u00e9 aqui s\u00f3 para ver isto: A Garra da Gralheira. Uma montanha no Maci\u00e7o da Gralheira (que re\u00fane as serras da Freita, Arada e Arestal) que ao longo dos s\u00e9culos foi sendo cortada por diversas linhas de \u00e1gua e que ficou com a forma da garra de uma ave. Nenhuma fotografia reproduz a impon\u00eancia desta paisagem. Sentimo-nos min\u00fasculos perante um monstro descomunal. E o sil\u00eancio da serra, que nos envolve sem darmos conta, ainda acentua mais essa sensa\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s in\u00fameros minutos de contempla\u00e7\u00e3o, retiro o caderno, aponto \u201cGarra Colossal\u201d e sigo caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9610-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1840 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9610-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9610-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9610-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9610-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9610-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9610-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O trilho continua a serpentear a montanha. N\u00e3o \u00e9 um trilho t\u00edpico com terra e erva, \u00e9 mais \u00e1rido, com muitas rochas soltas. Mas h\u00e1 sempre uma linha menos acidentada, que acusa a passagem mais comum em anos de caminhadas. \u00c9 um percurso mais duro no ver\u00e3o, pois \u00e9 muito exposto ao sol, n\u00e3o h\u00e1 \u00e1rvores, \u00e9 raro encontrar algum tipo de sombra. Tento combater isso com um chap\u00e9u de abas e litro e meio de \u00e1gua, dispersa por dois cantis, que conto poder reabastecer numa fonte ou ribeiro da aldeia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9586-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1841 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9586-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9586-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9586-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9586-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9586-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9586-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma descida ligeira ao fundo da qual o trilho parece desaparecer. Quando chego l\u00e1 constato que ele vira bruscamente \u00e0 esquerda, uma esp\u00e9cie de curva reta, por mais antag\u00f3nica que essa descri\u00e7\u00e3o possa parecer. Este ponto permite-me tamb\u00e9m uma perspetiva diferente da Garra da Gralheira, sendo poss\u00edvel avistar um riacho que percorre o vale. Aproveito o cen\u00e1rio para descansar um bocado, apreciar a paisagem e tirar algumas fotografias com o trip\u00e9, que j\u00e1 desisti de recolher e prender na mochila ao longo do trajeto. Neste momento, j\u00e1 o carrego aos ombros, estendido e com a m\u00e1quina acoplada. Antes de me levantar, fa\u00e7o mais um registo no caderno. \u201cCurva Desenhada a Esquadro\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1843\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1707\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9155-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quinze minutos depois, encontro, finalmente, o pequeno resguardo de pedras amontoadas que ansiava ver desde o in\u00edcio da caminhada. Parece intocado pelo tempo. Lembro-me dele exatamente assim, desde que passei aqui h\u00e1 sete anos. Tal como fiz nessa altura, procuro em redor um pedregulho com superf\u00edcies planas e contribuo para a \u201cedifica\u00e7\u00e3o\u201d. Este ponto do trajeto tem uma particularidade especial. A partir daqui avista-se, pela primeira vez, a silhueta de Drave \u00e0 dist\u00e2ncia, entre as montanhas. \u00c9 um derradeiro f\u00f4lego motivacional antes do destino. \u201cMuralha de Vigia\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9173-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1844 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9173-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9173-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9173-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9173-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9173-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9173-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A partir daqui o trilho \u00e9 mais estreito. Tr\u00eas passos e a vista mergulha para o fundo do vale. O riacho est\u00e1 seco nesta altura do ano. Recordo, algures l\u00e1 um baixo, uma pequena cascata que deu um toque ainda mais belo \u00e0 primeira fotografia que tirei a Drave. Hoje est\u00e1 nua, despida do seu manto de \u00e1gua. A melhor altura para vir c\u00e1 \u00e9 mesmo na Primavera, at\u00e9 pelas pr\u00f3prias cores da vegeta\u00e7\u00e3o, onde o lil\u00e1s e o amarelo se juntam ao verde.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1845\" aria-describedby=\"caption-attachment-1845\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_2099-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1845 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_2099-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_2099-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_2099-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_2099-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_2099-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_2099-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1845\" class=\"wp-caption-text\"><em>Paisagem primaveril na minha primeira visita, em Abril de 2008<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De vez em quando encontro pequenas escava\u00e7\u00f5es em veios de min\u00e9rio. A maioria delas concentrava-se, sensivelmente, a meio do percurso, mas de vez em quando l\u00e1 surge mais um testemunho da \u201cfebre do volfr\u00e2mio\u201d. Sorrio e relembro as palavras matinais da dona Ilda: \u201cMuitos andavam na pilha, escavavam a serra a torto e a direito, \u00e0 socapa, sem contrato nem projeto. Muitas casas foram aqui erguidas com o dinheiro do ouro preto, o volfr\u00e2mio\u201d. [<em>Ler <a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/a-garimpar-imaginacao-nas-ruinas-das-minas-de-volframio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">prel\u00fadio<\/a><\/em>]<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9183-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1842 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9183-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9183-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9183-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9183-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9183-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9183-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0 medida que me aproximo da aldeia, o trilho torna-se lajeado e, a partir de determinado ponto, ladeado por pequenos muros de xisto. Come\u00e7am a avistar-se \u00e1rvores, que ocultam uma derradeira curva antes de chegar a um cruzeiro, o miradouro perfeito que nos abre as portas a Drave.<\/p>\n<p>Nessa colina h\u00e1 um amontoado de ru\u00ednas do que deduzo terem sido abrigos agr\u00edcolas. Junto a eles h\u00e1 um planalto de erva seca. \u201cSe n\u00e3o encontrar um s\u00edtio adequado para montar o acampamento no meio da aldeia, j\u00e1 tenho aqui um local formid\u00e1vel\u201d, pensei, ainda longe, t\u00e3o longe de imaginar a impens\u00e1vel realidade com que me ia deparar algumas horas depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9204-scaled.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1846 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9204-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9204-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9204-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9204-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9204-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/IMG_9204-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Subo para cima de uma dessas paredes semi-desabadas e sento-me em cima do que teria sido uma porta. Tiro o caderno e come\u00e7o a escrever. \u201cDrave escorre pela crista da montanha como uma avalanche de xisto. Que privil\u00e9gio \u00e9 olhar para isto, imaginar isto. Quantas d\u00e9cadas ou s\u00e9culos de sonhos e inten\u00e7\u00f5es ter\u00e3o retumbado pela serra abaixo at\u00e9 aqui se alojarem, aninhados uns dos outros. Viver em proximidade \u00e0 dist\u00e2ncia de tudo o resto\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Interrompo a escrita e concentro-me no som que acabei de ouvir. Parecem passos. \u201cSer\u00e1 a minha imagina\u00e7\u00e3o?\u201d. O sil\u00eancio diz-me que sim, mas sinto-lhe inconst\u00e2ncia na voz. Ap\u00f3s dois segundos de hesita\u00e7\u00e3o, contradiz-se. S\u00e3o passos. N\u00e3o estou aqui sozinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/uma-noite-com-drave-so-para-mim-ii-a-pastora-anfitria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong><em>[Ler segundo cap\u00edtulo]<\/em><\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decidi fazer o trilho que atravessa as montanhas e passar uma noite com Drave s\u00f3 para mim. S\u00f3 eu, o sil\u00eancio e esta aldeia que chamam de m\u00e1gica. Enchi uma mochila com mantimentos, uma tenda e um saco-cama e parti. A espontaneidade do plano presenteou-me com imprevistos. Daqueles bons, que nos enriquecem as jornadas. Conversei sobre as hist\u00f3rias, as tradi\u00e7\u00f5es e o passado secular da aldeia. Depois veio o caminho, as paisagens de cortar a respira\u00e7\u00e3o, os encontros inesperados, as lendas arrepiantes, os desfechos surpreendentes. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1879,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[89],"class_list":["post-1827","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica-inedita","tag-sozinho-em-drave"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.9 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>UMA NOITE COM DRAVE S\u00d3 PARA MIM \u00abI - A Caminhada\u00bb<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Decidi fazer o trilho que atravessa as montanhas e passar uma noite com Drave s\u00f3 para mim. 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