{"id":511,"date":"2015-06-17T14:20:26","date_gmt":"2015-06-17T14:20:26","guid":{"rendered":"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=511"},"modified":"2020-12-04T12:13:53","modified_gmt":"2020-12-04T12:13:53","slug":"a-guardia-de-cavalos-de-ferro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/a-guardia-de-cavalos-de-ferro\/","title":{"rendered":"A GUARDI\u00c3 DE CAVALOS DE FERRO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"color: #808080;\">Texto<\/span>: <strong>Victor Melo<\/strong><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #808080;\">Fotos<\/span>: <strong>Rui Pedro Oliveira<\/strong>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O telefone toca \u00e0s 6:27. Ela levanta o auscultador e diz \u201c32\u201d. Acena com a cabe\u00e7a, desliga e sai para a rua, onde um galo disputa o sil\u00eancio da madrugada de inverno com uma campainha cadenciada. Junta-se-lhes o som de uma corrente de metal a deslizar no alcatr\u00e3o. Ainda \u00e9 noite, a \u00fanica claridade vem de um pequeno c\u00edrculo vermelho que balanceia numa das suas m\u00e3os, expelido por uma velha lanterna. A corrente \u00e9 esticada at\u00e9 atravessar toda a estrada e no meio \u00e9 colocado um disco a sinalizar \u201ctr\u00e2nsito proibido\u201d. O pequeno c\u00edrculo de luz \u00e9 agora branco mas continua t\u00e9nue, n\u00e3o ilumina, apenas sinaliza. Dois pontos brancos emergem \u00e0 dist\u00e2ncia e rapidamente se propagam na sua dire\u00e7\u00e3o. Atravessam com f\u00faria \u00e0 sua frente, agitando-lhe os cabelos grisalhos. Zita Dias n\u00e3o arreda p\u00e9, nem se assusta com o rugido. H\u00e1 anos que ele lhe \u00e9 familiar. Recolhe a corrente e reabre a passagem de n\u00edvel. Este foi o primeiro comboio do dia. Faltam 21.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-520 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6454-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6454\" width=\"785\" height=\"523\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6454-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6454-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6454-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 785px) 100vw, 785px\" \/><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-521 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6455-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6455\" width=\"786\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6455-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6455-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6455-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 786px) 100vw, 786px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser guarda de uma passagem de n\u00edvel \u00e9 uma profiss\u00e3o com a qual todas as gera\u00e7\u00f5es anteriores ao novo mil\u00e9nio estavam habituadas a conviver. Em finais da d\u00e9cada de 90 havia acima de 900 destas profissionais. Era uma presen\u00e7a muito ass\u00eddua na vida dos condutores, embora estes desconhecessem o seu quotidiano, rico em curiosidades e peculiaridades. Hoje, j\u00e1 s\u00f3 s\u00e3o 99.<br \/>\nNuma Era onde a tend\u00eancia \u00e9 a informatiza\u00e7\u00e3o e automatiza\u00e7\u00e3o, quisemos fazer um registo documental de uma profiss\u00e3o que \u00e9 rara no pa\u00eds e que um dia, inevitavelmente, deixar\u00e1 de existir. Zita Dias \u00e9 um desses esp\u00e9cimes raros, que aceitou partilhar connosco o seu dia-a-dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-514 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/2-683x1024.jpg\" alt=\"2\" width=\"493\" height=\"740\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/2-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/2-600x899.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/2-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/2.jpg 2002w\" sizes=\"auto, (max-width: 493px) 100vw, 493px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\nA cavalari\u00e7a\u00a0 \u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rel\u00f3gio marcava 6:15 da madrugada quando abriu a porta do seu abrigo, no quil\u00f3metro 32 da Linha do Vouga (conhecida como \u201cVouguinha\u201d), a \u00fanica linha de via estreita ainda em funcionamento no pa\u00eds. Liga o r\u00e1dio, veste a bata azul\u00a0e amarela e pouco depois atender\u00e1 o telefone, onde se identificar\u00e1 com o n\u00famero da sua passagem de n\u00edvel. O telefone toca sempre 15 minutos antes da passagem de cada comboio. Por dia passam 22, 11 em cada sentido, entre Aveiro e Sernada de Vouga. O telefonema \u00e9 proveniente dessa \u00faltima esta\u00e7\u00e3o, que controla o tr\u00e1fego do Vouguinha.<\/p>\n<p>De seguida, Zita dirige-se a uma pequena banca de madeira, junto \u00e0 janela do abrigo, onde tem um livrinho para registar a hora da comunica\u00e7\u00e3o, o n\u00famero do comboio e a sua proveni\u00eancia. Assina, faz um compasso de espera de alguns minutos e fecha a passagem. Ergue a lanterna com a luz branca. \u00c9 sinal que est\u00e1 tudo em ordem e o comboio tem via livre. Usou a lanterna porque \u00e9 de noite. Dentro de momentos amanhecer\u00e1 e Zita passar\u00e1 a usar uma bandeira. \u201cA n\u00e3o ser que esteja nevoeiro\u201d, sublinha. \u201cSe n\u00e3o tivermos visibilidade a menos de 100 metros, continuamos a usar a lanterna\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-537 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6968-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6968\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6968-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6968-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6968-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><a href=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6480.jpg\"><br \/>\n<\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-531 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7053-1024x683.jpg\" alt=\"INS_7053\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7053-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7053-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7053-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-523 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6539-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6539\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6539-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6539-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6539-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o 07:22 quando o c\u00e9u se tinge de azul claro. Na passagem do pr\u00f3ximo comboio, l\u00e1 est\u00e1 a Zita a erguer a bandeira vermelha, cuidadosamente enrolada. \u00c9 sinal que est\u00e1 tudo bem e o maquinista pode continuar. Se estiver aberta, sinaliza perigo e o comboio deve parar.<\/p>\n<p>Antigamente, para al\u00e9m da lanterna e da bandeira, as guardas tinham de andar sempre munidas de uma corneta e de uma lata com petardos. Agora, este material permanece no abrigo at\u00e9 ser necess\u00e1rio. A corneta serve para despertar um condutor mais distra\u00eddo ou afastar um animal da linha. J\u00e1 os petardos s\u00e3o o derradeiro recurso para fazer parar um comboio, caso exista algum obst\u00e1culo na linha. Devem ser colocados nos carris, a 500 metros do obst\u00e1culo. A explos\u00e3o alertar\u00e1 o maquinista, que puxar\u00e1 de imediato os freios do \u201ccavalo de ferro\u201d.<\/p>\n<p>A lata est\u00e1 empoeirada e presa por uma corda. L\u00e1 dentro, est\u00e3o seis petardos cil\u00edndricos de aspeto ligeiramente enferrujado. Durante todos estes anos nunca foram precisos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-517 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/5-1024x683.jpg\" alt=\"5\" width=\"936\" height=\"625\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/5-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/5-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/5-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 936px) 100vw, 936px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE anos disto \u00e9 o que n\u00e3o me falta\u201d, deixa escapar Zita, sorridente. Tem 57, 39 deles a tomar conta desse obstinado cavalo de ferro que lhe ocupa o dia a correr de um lado para o outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mem\u00f3rias da primeira cavalari\u00e7a<br \/>\n<\/strong><br \/>\nS\u00e1bado, 7 de Junho de 1975, foi o seu primeiro dia. A linha tinha acabado de reabrir nesse m\u00eas, ap\u00f3s tr\u00eas anos inativa, devido \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o das locomotivas a vapor pelas automotoras a diesel. Zita tinha 18 anos e come\u00e7ou por fazer apenas as folgas da colega, aos fins-de-semana. Era o trabalho ideal para ela naquela altura. Tinha um filho de dois anos, n\u00e3o existiam infant\u00e1rios e a m\u00e3e trabalhava no campo todo o dia. Ao fim-de-semana era quando tinha tempo livre para trabalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O seu posto era no \u201c25\u201d, na zona de Eirol. Resumia-se num poste com uma caixa de chapa pregada, com um telefone e uma lanterna l\u00e1 dentro, que ela trancava com um embude quando acabava o turno. N\u00e3o havia abrigo, nem sequer uma cadeira. Mas o desconforto era o menor dos seus problemas. \u201cEra uma zona muito medonha, cheia de arvoredo, escura e isolada, metia medo\u201d. Muitas vezes o marido fazia-lhe companhia. Quando n\u00e3o podia, ela sentia-se insegura. \u201cUma vez andavam l\u00e1 uns homens a tirar areia do rio. Come\u00e7aram a mandar bocas mal-educadas e um deles chegou mesmo a fazer porcarias virado para mim\u201d. Zita n\u00e3o teve meias medidas. Mandou parar um carro e perguntou ao condutor, de forma bem aud\u00edvel: \u201cN\u00e3o tem a\u00ed um cacete? Aqueles ali andam-se a portal mal\u201d. Ter\u00e1 sido rem\u00e9dio santo. \u201cNunca mais me importunaram\u201d. Pouco a pouco, a jovem e franzina menina foi-se habituando \u00e0s condicionantes da zona, foi alargando o seu hor\u00e1rio e superando todos os receios. Esteve l\u00e1 20 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-515 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/3-1024x683.jpg\" alt=\"3\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/3-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1995, passou para uma passagem de n\u00edvel um quil\u00f3metro acima. O \u201c26\u201d, na zona de Eixo. Esse posto j\u00e1 era abrigado, j\u00e1 tinha luz e \u00e1gua. E era um bocadinho mais perto de casa. \u201cMetia-me l\u00e1 em tr\u00eas minutos de motoreta\u201d. Aqui, o inconveniente era outro. \u201cA passagem de n\u00edvel ficava numa grande reta, passavam l\u00e1 imensos carros e em grande velocidade. Por vezes quer\u00edamos fechar e n\u00e3o consegu\u00edamos, as pessoas pura e simplesmente n\u00e3o paravam\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo dos 15 anos que l\u00e1 esteve, foram constantes os sustos. Incluindo aquele que a obrigou a fugir para a linha, quando um carro desgovernado se espetou contra a cancela. \u201cVinham de \u00c1gueda e vinham xispados. At\u00e9 larguei um chinelo a fugir\u201d. Felizmente, ao longo das quase quatro d\u00e9cadas de profiss\u00e3o, Zita nunca presenciou um incidente grave no seu turno. J\u00e1 uma colega sua do \u201c26\u201d n\u00e3o teve a mesma sorte. \u201cEspetaram-se l\u00e1 dois de mota e morreram. Foi um bocado traum\u00e1tico para ela, que era t\u00e3o certinha. Teve azar\u201d.<br \/>\nEsta passagem foi automatizada em 2010 e Zita Dias veio parar ao \u201c32\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-536 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6862-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6862\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6862-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6862-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6862-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/strong><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vicissitudes do of\u00edcio\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passam poucos minutos das oito da manh\u00e3 quando Zita se senta, finalmente, para tomar o pequeno-almo\u00e7o. Trouxe de casa um termo com leite e caf\u00e9, que acompanha com alguns \u201cp\u00e3ezinhos bem cozidos\u201d, que comprou numa padaria madrugadora a caminho do trabalho. Trouxe tamb\u00e9m o almo\u00e7o, como \u00e9 h\u00e1bito sempre que faz o turno da manh\u00e3, das 6:15 \u00e0s 14:15.<\/p>\n<p>\u00c9 o seu turno preferido. \u201cPassa mais r\u00e1pido, parece que tenho mais tempo livre e aproveito melhor o dia\u201d. O outro \u00e9 das 12:30 \u00e0s 20:30, agora torce-lhe o nariz, mas nem sempre foi assim. \u201cAntigamente gostava bem mais de dormir durante a manh\u00e3zinha\u201d, refere, com o dedo erguido e um sorriso prolongado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-525 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6826-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6826\" width=\"742\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6826-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6826-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6826-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 742px) 100vw, 742px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-533 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7119-1024x683.jpg\" alt=\"INS_7119\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7119-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7119-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7119-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-522 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6533-1024x575.jpg\" alt=\"INS_6533\" width=\"754\" height=\"423\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6533-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6533-600x337.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6533-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 754px) 100vw, 754px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levanta-se e vai \u00e0 \u201ccozinha\u201d, um ex\u00edguo espa\u00e7o no canto do abrigo, composto por um lavat\u00f3rio de pedra, um pequeno frigor\u00edfico e um micro-ondas. Uma divis\u00f3ria de cimento e uma cortina de pl\u00e1stico separam esse espa\u00e7o de uma sanita. Um luxo comparado com o passado. Durante muitos anos n\u00e3o existiu uma casa de banho no \u201c25\u201d. \u201cTentava-se a ir a casa de algu\u00e9m conhecido que vivesse la perto\u201d. Conta que depois acabaram por montar l\u00e1 uma pequena divis\u00e3o, embora sem \u00e1gua. \u201cNo inverno \u00edamos \u00e0s po\u00e7as com um balde para arranjar \u00e1gua para despejar na sanita\u201d.<\/p>\n<p>Foram anos duros, que Zita foi superando atrav\u00e9s da capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e um s\u00f3lido sentido de dever. Algo que nem sempre \u00e9 reconhecido pelos utentes, cuja impaci\u00eancia muitas vezes lhes tolda a realidade mais crua e \u00f3bvia: o facto de aquela pessoa estar a zelar pela sua seguran\u00e7a. Por vezes, um pequeno atraso de um ou dois minutos na automotora \u00e9 o suficiente para a ira ser descarregada na guarda da passagem de n\u00edvel. \u201cMas felizmente tamb\u00e9m h\u00e1 muita gente compreensiva e c\u00edvica\u201d, clarifica Zita. Parece ser o caso nesta manh\u00e3. S\u00e3o oito os carros atr\u00e1s da cancela e j\u00e1 est\u00e3o parados h\u00e1 mais tempo do que seria o normal. \u201cEste vem sempre queimado\u201d, afirma Zita, referindo-se ao 5180 proveniente de \u00c1gueda e recorrendo \u00e0 g\u00edria habitual que significa \u201catrasado\u201d. Vislumbram-se alguns olhares impacientes atr\u00e1s dos volantes, mas ningu\u00e9m verbaliza a impaci\u00eancia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-538 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7019-1024x683.jpg\" alt=\"INS_7019\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7019-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7019-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7019-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a velocidade excessiva, aqui n\u00e3o \u00e9 um problema. \u00c9 uma zona calma e precedida de lombas. O \u00fanico susto de relevo remonta a uma tarde de inverno, quando um idoso n\u00e3o ter\u00e1 visto a corrente e embateu contra ela, passando por baixo e projetando o disco contra a parede do abrigo. Felizmente aconteceu poucos momentos ap\u00f3s Zita fechar a passagem, ainda a alguns minutos da passagem do comboio. \u201cParou l\u00e1 \u00e0 frente, saiu devagarinho, inspecionou o carro, viu que estava tudo em ordem, entrou e foi \u00e0 vida dele. Nem se lembrou de perguntar se estava tudo bem ou era preciso alguma coisa\u201d, recorda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-518 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/7-1024x683.jpg\" alt=\"7\" width=\"1035\" height=\"691\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/7-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/7-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/7-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1035px) 100vw, 1035px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\nNo trilho da linha\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A manh\u00e3 vai a meio, quando desponta uma silhueta ao fundo da linha. \u00c9 um jovem, que vem a tocar guitarra enquanto percorre o caminho-de-ferro. O momento \u00e9 caricato, mas perigoso. E esse perigo tornou-se uma rotina di\u00e1ria aqui no \u201c32\u201d.<br \/>\nDurante o turno da manh\u00e3 s\u00e3o incont\u00e1veis as vezes que Zita Dias intercepta pessoas a circular a p\u00e9 na linha. Sempre paciente, aborda-as uma a uma, aponta para as placas sinalizadoras de proibi\u00e7\u00e3o e tenta consciencializ\u00e1-las para o perigo desse acto. Mas se a paci\u00eancia de Zita \u00e9 inesgot\u00e1vel, tamb\u00e9m o parece ser a teimosia dos pe\u00f5es. \u201cFazem ouvidos moucos, \u00e9 um corrupio de manh\u00e3 \u00e0 noite\u201d.<\/p>\n<p>Explica que eles encaram aquele tro\u00e7o de linha como um atalho para encurtarem caminho para a escola, para o infant\u00e1rio e para o mercado. A zona j\u00e1 esteve vedada, \u201cmas eles derrubaram o muro\u201d. Ele foi arranjado e refor\u00e7ado com uma rede. A rede foi \u201cesburacada\u201d. Ainda \u00e9 v\u00edvida a recorda\u00e7\u00e3o do dia que testemunhou uma senhora a passar, meticulosamente, os seus sacos de couves pelo buraco, antes de, a esfor\u00e7o, passar ela pr\u00f3pria por l\u00e1. Zita abordou-a. E foi presenteada com uma resposta cheia de naturalidade: \u201cQuem mandou fecharem? D\u00e1 tanto jeito\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-526 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6841-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6841\" width=\"790\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6841-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6841-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6841-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-532 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7104-1024x683.jpg\" alt=\"INS_7104\" width=\"790\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7104-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7104-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7104-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 790px) 100vw, 790px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Irmandade das Guardi\u00e3s<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma campainha do telefone, mais um \u201c32\u201d. Toda uma vida de servi\u00e7o equipou Zita com pequenos h\u00e1bitos que j\u00e1 se tornaram intr\u00ednsecos. Calcula o tempo entre o telefonema e o fecho da passagem com afinada exatid\u00e3o, reconhece pelos n\u00fameros os comboios que tendem a vir horas ou os que \u201craramente v\u00eam \u00e0 tabela\u201d, sabe antever se as carruagens vir\u00e3o cheias ou vazias consoante o hor\u00e1rio. S\u00e3o anos a observar aquele animal met\u00e1lico, aprendeu-lhe os costumes e os temperamentos.<\/p>\n<p>C\u00e1 fora, enquanto conversa connosco, mesmo fora dos hor\u00e1rios de passagem, \u00e9 frequente o olhar escapar para as duas linhas que rasgam longitudinalmente a terra. \u00c9 uma profiss\u00e3o rigidamente regulamentada, com v\u00e1rias conting\u00eancias de actua\u00e7\u00e3o que se mecanizam com a passagem do tempo. Todos os focos de distra\u00e7\u00e3o s\u00e3o controlados. Para Zita poder falar connosco, a Refer disponibilizou um colega adicional para estar presente durante o turno, que garante \u201ca redund\u00e2ncia de servi\u00e7o\u201d. Uma conting\u00eancia de seguran\u00e7a da empresa. Zita desempenha as suas fun\u00e7\u00f5es normalmente, mas tem um colega presente a certificar-se que nenhuma distra\u00e7\u00e3o causada pela equipa de reportagem se revela fatal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-528 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6998-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6998\" width=\"791\" height=\"527\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6998-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6998-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6998-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, por entre essa rigidez hor\u00e1ria sobram imensos tempos mortos. Zita aprendeu a aproveit\u00e1-los. P\u00f5e a leitura em dia &#8211; com prefer\u00eancia por jornais di\u00e1rios e revistas &#8211; ou ouve m\u00fasica portuguesa no seu fiel r\u00e1dio que lhe inunda a solid\u00e3o matinal com voz humana. Por vezes, simplesmente olha pela janela e pensa no futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas horas de sobreposi\u00e7\u00e3o de turnos, tem as colegas para conversar. Foi no decurso de uma conversa que aprendeu a bordar. \u201cFiz aqui os cortinados para a minha casa\u201d, afirma, complementando de seguida, com um sorriso nos olhos: \u201censinamos muitas coisas umas \u00e0s outras\u201d.<\/p>\n<p>Zita est\u00e1 neste momento sentada num velho sof\u00e1 de napa verde a bordar uma toalha para o pr\u00f3ximo Natal. O sof\u00e1 pertencia a uma antiga colega, que o usava para passar aqui a noite. Na linha estreita n\u00e3o h\u00e1 hor\u00e1rios noturnos, mas algumas guardas s\u00e3o de longe e s\u00f3 v\u00e3o a casa nas folgas. A sua colega era de Oliveira de Frades (48 km de dist\u00e2ncia). Quando a linha local fechou, deram-lhe trabalho aqui no \u201c32\u201d. \u201cQuem precisa, n\u00e3o recusa\u201d.<\/p>\n<p>Zita sempre trabalhou na sua \u00e1rea de resid\u00eancia, mas ao longo das d\u00e9cadas foi tendo colegas de longe. No \u201c25\u201d, teve uma colega de Pinheiro de Laf\u00f5es (43 km), a quem deu guarida na casa da m\u00e3e: \u201cEla l\u00e1 lhe arranjou um quartinho para dormir, ainda durante uns aninhos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-527 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6922-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6922\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6922-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6922-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6922-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><br \/>\nO abrigo \u00e9 frio, especialmente no inverno. \u201cN\u00e3o imagino que sejam noites agrad\u00e1veis\u201d, refere Zita. Foram tantas as vezes que chegou ao amanhecer ao abrigo e ouviu as confid\u00eancias da colega, sobre o medo que se apoderava dela quando a cortina noct\u00edvaga descia e a solid\u00e3o se aliava \u00e0 escurid\u00e3o. A imprevisibilidade do elemento humano ainda piorava o cen\u00e1rio. Algu\u00e9m ter\u00e1 descoberto que ela ali passava a noite e divertia-se a arremessar pedras e a bater \u00e0 porta durante a madrugada. As grades de ferro que hoje existem no exterior das janelas e a rede de arame no interior foram uma exig\u00eancia dessa colega \u00e0 Refer, na altura desses acontecimentos.<\/p>\n<p>Hoje, a Refer fornece frigor\u00edfico, micro-ondas, aquecedor, uma cadeira e uma mesa. Na altura, eram elas que \u201cmobilavam\u201d o abrigo para o tornar mais confort\u00e1vel. \u201cCada um levava o que podia. E quem queria dormir c\u00e1 \u00e9 que tinha de arranjar meio\u201d. E com um pouco de entreajuda e criatividade, l\u00e1 conseguiam transformar o posto de trabalho num aposento. H\u00e1 um arame que ainda cruza o abrigo, que servia para manter uma cortina que dava privacidade a quem ali pernoitava. S\u00e3o v\u00e1rios os objectos que ainda perduram das estadias antigas das guardas de outrora. \u201cS\u00e3o heran\u00e7as\u201d, diz Zita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-539 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6480-683x1024.jpg\" alt=\"INS_6480\" width=\"619\" height=\"928\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6480-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6480-600x899.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6480-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6480-768x1151.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6480.jpg 2002w\" sizes=\"auto, (max-width: 619px) 100vw, 619px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As folhas da nespereira abanam com a correria desfreada do \u00faltimo cavalo de ferro do dia. O \u00faltimo sob a guarida de Zita. S\u00e3o 13:20, j\u00e1 falta menos de uma hora para passar o turno. A ramagem da nespereira prolonga-se na horizontal, criando uma cerca natural ao abrigo. No final da primavera d\u00e1 fruto. Zita contempla-a por uns instantes e relembra uma tradi\u00e7\u00e3o antiga, que se enraizou no \u201c25\u201d e no \u201c26\u201d. As guardas criavam uma horta junto ao abrigo, onde plantavam couves, batatas, cebola e feij\u00e3o. Um importante sustento ao longo do ano. Hoje perdeu-se o h\u00e1bito. \u201cAgora roubam tudo, passam e levam tudo. Eram outros tempos, outro respeito\u201d, desabafa Zita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-516 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/4-1024x683.jpg\" alt=\"4\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/4-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/4-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante todo este tempo enraizou-se tamb\u00e9m uma conven\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o foi semeada e cuja origem ningu\u00e9m consegue explicar. O facto de a profiss\u00e3o ser exercida praticamente em regime de exclusivamente por mulheres. Os pr\u00f3prios documentos orientativos s\u00e3o expl\u00edcitos nas suas designa\u00e7\u00f5es. L\u00e1 dentro, pode ler-se \u201cdeveres das guardas\u201d, num documento afixado. \u201cN\u00e3o sei porqu\u00ea, foi sempre assim\u201d, afirma. S\u00f3 num passado muito recente \u00e9 que come\u00e7aram a surgir exce\u00e7\u00f5es. Inclusivamente, o guarda que vai substituir Zita no turno da tarde \u00e9 homem. \u201cDeve ser um sinal dos tempos\u201d solta, entre uma gargalhada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-524 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6607-1024x683.jpg\" alt=\"INS_6607\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6607-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6607-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_6607-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-519 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/8-1024x683.jpg\" alt=\"8\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/8-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/8-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/8-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O relinchar do futuro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m d\u00e1 dois toques na porta e pergunta o hor\u00e1rio do pr\u00f3ximo comboio. Zita sacia a quest\u00e3o, sorri e partilha connosco: \u201cH\u00e1 tanta gente ainda dependente deste comboio\u201d. D\u00e1 como exemplo \u201cas muitas pessoas que n\u00e3o possuem outros meios de se deslocarem dentro das localidades\u201d, ou \u201cos estudantes que utilizam diariamente a linha\u201d, por causa do polo universit\u00e1rio em \u00c1gueda. \u201cAo fim do dia as carruagens v\u00eam sempre carregadas deles\u201d. Zita sente particularmente essa import\u00e2ncia na pele quando h\u00e1 greves. \u201cMuitas vezes v\u00eam c\u00e1 bater-me \u00e0 porta, a perguntar se h\u00e1 comboio. Querem ir para aqui e acol\u00e1 e depois perguntam-me como \u00e9 que v\u00e3o fazer\u201d, afirma, abrindo os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Mas a linha deve sobreviver \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o e Zita est\u00e1 ciente disso. \u201cCompreendo o avan\u00e7o do progresso, mas tenho pena da extin\u00e7\u00e3o destas profiss\u00f5es que foram o ganha-p\u00e3o de muita gente\u201d. Na sua voz \u00e9 percet\u00edvel alguma incerteza em rela\u00e7\u00e3o ao futuro.<br \/>\nA REFER \u00e9 pragm\u00e1tica na resposta: \u201cTal como noutros processos de cessa\u00e7\u00e3o de posto de trabalho a REFER, atrav\u00e9s de instrumentos de mobilidade interna e reconvers\u00e3o, tem promovido a integra\u00e7\u00e3o das colaboradoras noutras fun\u00e7\u00f5es de acordo com as necessidades da empresa\u201d.<\/p>\n<p>Zita permanece pensativa durante poucos segundos e assegura: \u201cSe fosse hoje a iniciar esta profiss\u00e3o, n\u00e3o sei se a queria. Na altura foi o que apareceu, adaptei-me a aprendi a gostar dela. N\u00e3o me vejo a fazer outra coisa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-530 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7042-1024x683.jpg\" alt=\"INS_7042\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7042-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7042-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7042-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-large wp-image-529 aligncenter\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7040-1024x683.jpg\" alt=\"INS_7040\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7040-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7040-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7040-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/INS_7040.jpg 1813w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O carinho que nutre pelo of\u00edcio \u00e9 not\u00f3rio, mesmo quando Zita \u00e9 confrontada com ele fora do hor\u00e1rio de servi\u00e7o. Quando p\u00e1ra de carro numa passagem de n\u00edvel com guarda, n\u00e3o a incomodam eventuais atrasos. \u201cGosto de ficar a ver, apreciar os movimentos dela, acho engra\u00e7ado\u201d.<br \/>\nE sente que est\u00e1 longe de ser incomum a afei\u00e7\u00e3o que as pessoas sentem por esse meio de transporte. Tem dois netos que adoram visit\u00e1-la, para ver os comboios. O mais novo tem dois anos e meio, uma idade demasiado curiosa para o poder ter l\u00e1. \u201cQuer mexer em tudo, nos bot\u00f5es, vai para o telefone, n\u00e3o d\u00e1\u201d, afirma, a sorrir. O mais velho tem cinco e faz quest\u00e3o de a ajudar nas tarefas. \u201cGosta de ser ele a fechar a corrente\u201d. E depois h\u00e1 aquelas pessoas que aparecem por l\u00e1 mais do que uma vez por dia, apenas para ver o comboio passar.<br \/>\nZita Dias acha piada ao facto de muitos tro\u00e7os desactivados serem convertidos em ciclovias. \u201cSei que h\u00e1 uma em Sever do Vouga. Quero l\u00e1 ir um dia, com o meu neto mais velho, e andar de bicicleta onde um dia j\u00e1 passou o comboio. Acho que vai ser uma sensa\u00e7\u00e3o de alegria e tristeza ao mesmo tempo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante d\u00e9cadas, habitu\u00e1mo-nos a ver a guarda da passagem de n\u00edvel a sair dos seus cub\u00edculos de tijolo e telha e a atravessar a estrada com uma corrente na m\u00e3o ou a manejar a cancela que delimita a passagem. Eram elas que controlavam o tr\u00e1fego de carros e pe\u00f5es durante a passagem dos comboios. J\u00e1 a passagem do tempo \u00e9 incontrol\u00e1vel e a Refer tem vindo a suprimir e reconverter as passagens de n\u00edvel com meios automatizados. Junto \u00e0 linha do Vouga, a \u00fanica linha de via estreita ainda em funcionamento no pa\u00eds, encontr\u00e1mos uma destas profissionais, que aceitou partilhar connosco o seu cub\u00edculo e o seu quotidiano. Testemunh\u00e1mos os h\u00e1bitos, motiva\u00e7\u00f5es, m\u00e9todos e receios de uma profiss\u00e3o em vias de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":512,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-511","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronica-inedita"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.9 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A GUARDI\u00c3 DE CAVALOS DE FERRO<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Reportagem sobre o quotidiano de uma guarda de passagem de n\u00edvel. 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