{"id":824,"date":"2017-11-09T21:33:36","date_gmt":"2017-11-09T21:33:36","guid":{"rendered":"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=824"},"modified":"2020-06-25T09:32:46","modified_gmt":"2020-06-25T09:32:46","slug":"o-velho-e-o-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/o-velho-e-o-fogo\/","title":{"rendered":"O VELHO E O FOGO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span class=\"wpsdc-drop-cap\">T<\/span>udo come\u00e7ou com um cartaz rasgado, que ondulava ao sabor do vento e se agarrava com derradeira r\u00e9stia de for\u00e7a a um poste de ilumina\u00e7\u00e3o, algures na Rua Lu\u00eds de Cam\u00f5es. Naquela tarde aguedense de 1936, quis o destino que ele passasse por ali, que debru\u00e7asse o olhar sobre o cartaz e que ficasse cativo do apelo l\u00e1 inscrito. At\u00e9 hoje.<br \/>\nSetenta e tr\u00eas anos depois, Jos\u00e9 Laureano continua cativo do que leu, da frase que nortearia toda a sua vida, de um des\u00edgnio do qual n\u00e3o consegue, nem se quer soltar.<br \/>\nFaz 96 anos em Setembro pr\u00f3ximo. Mas n\u00e3o h\u00e1 idade ou enfermidade que esvae\u00e7a o orgulho que recheia cada letra, cada palavra, quando diz: \u201cSou bombeiro!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ainda n\u00e3o tinha feito um ano desde a inaugura\u00e7\u00e3o da Corpora\u00e7\u00e3o dos Bombeiros Volunt\u00e1rios de \u00c1gueda (15\\12\\1935), quando Jos\u00e9 Laureano reparou no pedido de alistamento. Com 20 anos, acabado de sair da tropa e impelido pelo fulgor do nascer da idade adulta, estava impaciente por dar um rumo \u00e0 vida. A recorda\u00e7\u00e3o ainda acesa de uma trag\u00e9dia que tinha assolado a ent\u00e3o vila de \u00c1gueda consolidaria o resto da sua motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na noite de 2 de Dezembro de 1934 assistira, angustiado, a um enorme inc\u00eandio que devastara a casa de um familiar, o garagista Joaquim Can\u00e1rio. \u201cO tio da minha falecida mulher\u201d, recorda. As chamas, com origem no motor de um autom\u00f3vel, rapidamente se propagaram a todo o edif\u00edcio, que ardeu totalmente. Independentemente do esfor\u00e7o dos populares, \u201cque acorreram de baldes na m\u00e3o\u201d, e dos bombeiros de Aveiro (e outras localidades do distrito), que \u201ccombateram com valentia durante duas ou tr\u00eas horas\u201d. Apenas se conseguiu impedir o alastrar das chamas aos edif\u00edcios cont\u00edguos, na antiga Rua de Baixo (actual Rua Vasco da Gama). \u201cEra um fogo infernal, via-se ao longe. As labaredas eram enormes\u201d, relembra Laureano.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apelidado de \u201cinc\u00eandio pavoroso\u201d pelas manchetes do Soberania do Povo (edi\u00e7\u00e3o 07\\12\\1934), a trag\u00e9dia acabou por ter um efeito consciencializador na popula\u00e7\u00e3o e nas institui\u00e7\u00f5es, acentuando a prem\u00eancia de uma corpora\u00e7\u00e3o de bombeiros aguedenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O repto j\u00e1 tinha sido lan\u00e7ado, desde os confins de um long\u00ednquo 1904, por Eug\u00e9nio Ribeiro. A ideia acabaria por marinar somente em inten\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cpor motivos de ordem pol\u00edtico-partid\u00e1ria\u201d, acusaria Eug\u00e9nio Ribeiro &#8211; at\u00e9 finalmente se materializar em actos, exactamente tr\u00eas d\u00e9cadas depois, com a funda\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Bombeiros Volunt\u00e1rios de \u00c1gueda (04\\12\\1934).<br \/>\nO \u201cInc\u00eandio do Can\u00e1rio\u201d, como os aguedenses o imortalizariam, acabou por ser o elemento catalisador. \u201cE v\u00e1, v\u00e1, para a frente enquanto est\u00e3o quentes os escombros da casa incendiada da Rua de Baixo\u201d, aconselhava o referido seman\u00e1rio. Uma semana depois era eleito o corpo directivo da associa\u00e7\u00e3o. Eug\u00e9nio Ribeiro, o impulsionador da iniciativa, assumia as r\u00e9deas da direc\u00e7\u00e3o. Marchavam em direc\u00e7\u00e3o a \u00c1gueda, finalmente, os soldados da paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A vis\u00e3o das labaredas &#8211; e do seu efeito devastador &#8211; mexeu com Laureano. O cartaz despertou-lhe a mem\u00f3ria adormecida dos gritos de desespero da popula\u00e7\u00e3o, da solidariedade entre estranhos, da dan\u00e7a das fagulhas no firmamento nocturno, que pareciam desafiar o homem perante o poder daquele que muitos consideram o mais destrutivo e impiedoso elemento natural. E, acima de tudo, do altru\u00edsmo daqueles homens de capacete e mangueira que ousavam enfrentar o fogo no seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ele estava longe de imaginar que tudo isso seria o seu quotidiano. N\u00e3o fazia ideia que iria viver a hist\u00f3ria de uma institui\u00e7\u00e3o; que, para muitos, o seu nome se tornaria indissoci\u00e1vel da institui\u00e7\u00e3o; que iria contemplar o olhar g\u00e9lido da morte v\u00e1rias vezes; que iria salvar uma vida humana; que iria passar mil e uma perip\u00e9cias num carro que apelidava de irm\u00e3o; que iria ganhar o respeito e a admira\u00e7\u00e3o dos seus pares; que iria enfrentar a ira de um boi no fundo de um po\u00e7o; que iria fazer amizades para toda a vida; que iria chorar a perda de colegas tombados no cumprimento do dever; que iria integrar o Quadro de Honra dos Bombeiros; que iria receber um Crach\u00e1 de Ouro (o \u00fanico bombeiro aguedense, ainda vivo, a ostentar essa distin\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o. Naquele momento, limitou-se a procurar o n\u00famero 53 da Rua Ferraz Macedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">RETORNO \u00c0S ORIGENS\u00a0<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cAqui existia uma bela nespereira\u201d. As palavras de Laureano direccionam o meu olhar para a prateleira ao fundo do balc\u00e3o do bar, onde, ironicamente, se encontram diversos licores de frutos. Estamos no Caf\u00e9 Palhota, local que outrora albergou, durante 25 anos, aquele que foi o primeiro quartel dos bombeiros de \u00c1gueda. \u201cLembro-me do sabor daquelas n\u00easperas como se fosse hoje\u201d, complementa, com olhar saudoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Recorda, com vivida lucidez, o dia em que aqui se alistou. A instru\u00e7\u00e3o, os simulacros efectuados nestas paredes ou na torre da igreja &#8211; usa o meu gravador e a borracha para exemplificar \u201cos exerc\u00edcios com escada de gancho\u201d &#8211; a estrutura de metal que ainda existe no exterior, \u201conde pendur\u00e1vamos as mangueiras a secar ap\u00f3s as lavarmos no rio, no Cais das Laranjeiras, sempre que v\u00ednhamos dos inc\u00eandios\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><a href=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_0566.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-835 size-large aligncenter\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_0566-1024x617.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"617\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_0566-1024x617.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_0566-600x361.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_0566-300x181.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/IMG_0566-768x463.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/strong><br \/>\nFico a saber que junto \u00e0 entrada existia um po\u00e7o em tijolo, de forma circular e com sete metros de profundidade, onde eram abastecidas viaturas e \u201cse criavam boas enguias\u201d. Que isto tamb\u00e9m j\u00e1 foi uma velha estrebaria, onde eram criados cavalos. \u201cAinda cheguei a ver alguns por a\u00ed, quando viemos para c\u00e1\u201d, garante. E que durante muitos anos, muitas marcas do passado permaneceram neste edif\u00edcio. Algumas at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cNeste estrado de madeira, que cobre a pia de granito onde os cavalos comiam a ra\u00e7\u00e3o, era onde estavam os nossos capacetes. Por baixo, ficavam os botins\u201d. As palavras s\u00e3o de Alberto Pina, 78 anos, antigo colega de Laureano e tamb\u00e9m membro do quadro de honra dos bombeiros.<br \/>\nAcompanha-nos tamb\u00e9m nesta viagem ao passado. Tal como o seu velho amigo, acedeu em destrancar o seu ba\u00fa de recorda\u00e7\u00f5es e deix\u00e1-lo \u00e0 merc\u00ea da minha curiosidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com a permiss\u00e3o dos propriet\u00e1rios do caf\u00e9, faz-me uma visita guiada ao \u201cquartel\u201d. \u201cAqui era um telheiro onde ficava a ambul\u00e2ncia\u201d. Pina vai remodelando as divis\u00f5es com a tinta da nostalgia. Sa\u00edmos da cozinha e dirigimo-nos para o quarto de arrumos. \u201cOh! A casa do quarteleiro\u201d, exclama! Onde est\u00e1 uma velha bicicleta e alguns caixotes, os seus olhos desvendam uma antiga cozinha e o quarto da filha do quarteleiro, cuja porta j\u00e1 n\u00e3o existe. Percorremos o corredor, onde o sol serpenteia por entre telhas rachadas ou pelas que sucumbiram ao tempo e cujo barro foi substitu\u00eddo pelo vidro. \u201cMas olhe que este telhado ainda tem bastantes traves e telhas da nossa altura. \u00c9 incr\u00edvel como resistiram\u201d. De igual forma descortina, no armaz\u00e9m das bebidas, um grosso pilar de madeira que ele pr\u00f3prio ajudou a erguer. \u201cEsta escora j\u00e1 existe quase h\u00e1 meio s\u00e9culo. O carvalho antigo resiste a tudo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c0 direita, uns degraus de madeira prendem o olhar de ambos. \u201cL\u00e1 em cima ficavam os gabinetes de comando e da direc\u00e7\u00e3o\u201d, relembra Pina. Laureano sorri. Olham um para o outro, com cumplicidade, e o sorriso estende-se aos dois. Nos recantos deste simp\u00e1tico estabelecimento familiar v\u00e3o pairar para sempre mem\u00f3rias e hist\u00f3rias entre bombeiros veteranos. \u201cEu at\u00e9 tinha medo de ir l\u00e1 acima. A instala\u00e7\u00e3o el\u00e9ctrica era um perigo\u201d, partilha Laureano. \u201cUma noite, as escadas ficaram \u00e0s escuras e o meu amigo chefe Gil foi mexer nas l\u00e2mpadas. Apanhou um choque danado e ficou l\u00e1 agarrado. Tive de lhe dar um pontap\u00e9. Rolou pelas escadas abaixo. Queixou-se, mas agradeceu-me\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas a mais sentida reminisc\u00eancia estava reservada para o sal\u00e3o de jogos. Onde agora se ergue a mesa de bilhar, pernoitava o Fargo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">ENCONTRO DE IRM\u00c3OS<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ambos entraram na corpora\u00e7\u00e3o na mesma altura. E ambos est\u00e3o retirados do activo, participando s\u00f3 em ac\u00e7\u00f5es cerimoniais. \u201cEst\u00e1s-te a acabar. \u00c9s tu e eu\u201d, desabafa Laureano, enquanto passa a m\u00e3o pela carro\u00e7aria vermelha do Fargo, antes de se sentar para a sess\u00e3o fotogr\u00e1fica. Ningu\u00e9m diria, perante a chapa ainda reluzente, que aquela foi a primeira viatura de socorro dos bombeiros aguedenses (12 lugares), adquirida em 1935, com chassis encomendado directamente da Chrysler por uns \u201cm\u00f3dicos\u201d 19 mil e novecentos escudos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por vezes dava problemas, mas Laureano, com paci\u00eancia de irm\u00e3o mais velho, solucionava-os como ningu\u00e9m. \u201cQuando aquecia, costumava parar. Eu trope\u00e7ava por cima deles todos, abria o cap\u00f4 e molhava a bomba da gasolina\u201d.\u00a0 Laureano arrefecia-a com desperd\u00edcios embebidos em \u00e1gua, que apanhava nas po\u00e7as do caminho, com uma velha lata de tinta. \u201cFicava logo em ordem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Numa madrugada em \u00c0-dos-Ferreiros, ficaram sem bateria. Laureano agarrou num alicate, cortou o arame de uma vinha e fez liga\u00e7\u00e3o directa com um autocarro. \u201cN\u00e3o os deixei acender a luz. Fomos por ali abaixo \u00e0s escuras, para poupar bateria\u201d. \u201cFa\u00e7am figas!\u201d, gritava, n\u00e3o sabendo se com isso atenuava ou acentuava o medo dos colegas da viatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O seu lugar era junto \u00e0 sineta, ao lado do condutor. Foi para l\u00e1 que se dirigiu, quase instintivamente. E ali permanece, imerso num momento s\u00f3 seu. A pose austera, a farda impecavelmente engomada, a placa com a inscri\u00e7\u00e3o sub-chefe, o crach\u00e1 de ouro ao peito. O olhar perde-se na dist\u00e2ncia. Quem sabe se desorientado pelo orgulho, se norteado pela saudade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quebra o sil\u00eancio: \u201cEste carro era um aut\u00eantico irm\u00e3o que eu tinha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5055-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-832 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5055-2-1024x685.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"685\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5055-2-1024x685.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5055-2-600x402.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5055-2-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5055-2-768x514.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">DE VOLTA AO &#8220;QUARTEL&#8221;<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O estalar da casca do amendoim precede a resposta: \u201cA polival\u00eancia\u201d. Na opini\u00e3o de Alberto Pina, essa \u00e9 a grande diferen\u00e7a entre o passado e o presente. \u201cT\u00ednhamos de saber fazer de tudo\u201d, assegura, salientando que \u201cn\u00e3o havia a t\u00e9cnica, a especializa\u00e7\u00e3o\u201d dos dias de hoje. \u201cE este era o homem mais polivalente que j\u00e1 conheci\u201d, afirma, com uma palmada nas costas de Laureano.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">J\u00e1 tinha ouvido o mesmo da boca do chefe Rui Alves, 57 anos, nos bombeiros h\u00e1 29. \u201cEra de uma ra\u00e7a! Fazia de tudo. E enfrentava os obst\u00e1culos com as ideias mais incr\u00edveis\u201d. Na altura frisou os quil\u00f3metros que faziam a p\u00e9, nas manobras de contra-fogo (hoje ilegais) atravessando montes e vales, abrindo caminho com foices e ro\u00e7adoras, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 frente do fogo, com 20 litros de \u00e1gua \u00e0s costas, num atomizador. \u201cQuando cheg\u00e1vamos ao s\u00edtio calculado, desbrav\u00e1vamos o terreno com as enxadas e as p\u00e1s e ate\u00e1vamos fogo, para direccionar o inc\u00eandio para esse corte, onde enfraquecia\u201d. \u201cDa equipa dos sete ou oito que faziam essa tarefa, julgo que o Laureano \u00e9 dos \u00fanicos, sen\u00e3o o \u00fanico, ainda vivo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pina sublinha o manejar da moto-bomba, outra aptid\u00e3o peculiar de Laureano.<br \/>\nAntigamente, a viatura de socorro apenas transportava homens e determina\u00e7\u00e3o. A \u00e1gua, era preciso encontr\u00e1-la, na zona do inc\u00eandio, fosse num po\u00e7o, lagoa ou rio. S\u00f3 depois \u00e9 que se podiam combater as chamas. \u201cMal cheg\u00e1vamos ao fogo, grit\u00e1vamos \u2013 onde \u00e9 que h\u00e1 \u00e1gua?\u201d, relembra Laureano &#8211; direccionando a cabe\u00e7a para ambos os lados, como se a busca ainda perdurasse. Dirigiam-se ao local com a moto-bomba, o mecanismo de extrac\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual conectavam as mangueiras (ou \u201cmanga\u201d na sua g\u00edria). \u201cNem que fosse a dois quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia, tinha de ir buscar \u00e1gua\u201d, frisa Laureano. O Alberto Pina deve ter descortinado um ar de surpresa na minha face, pois acrescentou de seguida: \u201cT\u00ednhamos \u2018mangas\u2019 que iam do Rio \u00c1gueda \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o dos Comboios\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Meter as moto-bombas a trabalhar era com o Laureano. Fartava-se de gozar com os colegas que n\u00e3o conseguiam. Falava com ela: \u201cPorque n\u00e3o ferras tu minha menina?\u201d. Fazia-lhe festinhas. De seguida puxava a corda e ela come\u00e7ava a trabalhar. \u201cDei com o truque desde cedo, mas nunca disse a ningu\u00e9m\u201d, confessa, entre gargalhadas, revelando que \u201ctinha a ver com a injec\u00e7\u00e3o da gasolina\u2026e um certo bot\u00e3ozinho\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-828 alignnone\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7242-2-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"436\" height=\"653\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7242-2-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7242-2-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7242-2-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7242-2-768x1152.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 436px) 100vw, 436px\" \/><strong><a href=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1385.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-834 alignright\" src=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1385-782x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"504\" height=\"660\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1385-782x1024.jpg 782w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1385-600x786.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1385-229x300.jpg 229w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1385-768x1006.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 504px) 100vw, 504px\" \/><\/a><\/strong><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #808080;\"><strong>A RIVALIDADE E OS ROJ\u00d5ES<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cPergunte-lhe sobre os roj\u00f5es.\u201d Perdi a conta aos bombeiros que me fizeram alus\u00f5es \u00e0 famigerada hist\u00f3ria dos roj\u00f5es. Rui Alves assistiu ao epis\u00f3dio e, melhor do que o pr\u00f3prio autor \u2013 por n\u00e3o estar agrilhoado aos condicionantes ferros da mod\u00e9stia \u2013 contou a hist\u00f3ria, que tra\u00e7a bem o car\u00e1cter e o companheirismo de Jos\u00e9 Laureano. \u201cAlgures na d\u00e9cada de 70, na serra de S\u00e3o Jo\u00e3o do Monte e j\u00e1 na fase de rescaldo de um inc\u00eandio, fomos a casa de uma professora local, comer qualquer coisa. No final da refei\u00e7\u00e3o, roj\u00f5es, o Laureano come\u00e7ou a chorar. Solu\u00e7ava, as l\u00e1grimas escorriam-lhe pela cara. \u2018Comi t\u00e3o bem aqui e tenho os meus pobres colegas l\u00e1 em baixo, mortos de fome\u2019, disse ele. A senhora nem hesitou. Embrulhou tudo na toalha da mesa. E l\u00e1 lev\u00e1mos o farnel para os nossos colegas. Ficaram todos contentes, a comer aquela comida t\u00e3o saborosa, no meio da mata\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">De volta ao balc\u00e3o da Palhota, \u00e9 Pina quem revive outro tema caricato. Algures no tempo, dirigiam-se para um inc\u00eandio numa serra\u00e7\u00e3o em Eirol. Junto aos sem\u00e1foros, avistaram outra corpora\u00e7\u00e3o. \u201cOlha os de Aveiro\u201d. Laureano meteu-se em p\u00e9 e vociferou ao motorista: \u201cAperta, aperta, aperta\u201d. O motor roncava, o carro acelerava cada vez mais. \u201cMorremos todos mas n\u00e3o faz mal\u201d, gritava Laureano, euf\u00f3rico. \u201cVamos cair\u201d, diziam alguns. \u201cAperta!\u201d, respondia Laureano. Ao chegar \u00e0 recta de terra batida que ligava Requeixo \u00e0 taipa, bate nas costas do motorista e informava-o que j\u00e1 podia tirar o p\u00e9 do acelerador. \u201cJ\u00e1 est\u00e1. V\u00e3o ser eles a comer o nosso p\u00f3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Era comum esta competitividade entre corpora\u00e7\u00f5es. Mas era salutar, baseava-se na vontade de trabalhar, mostrar servi\u00e7o e prestigiar a casa cuja bandeira defendiam. \u201cO Laureano era muito aguerrido. Obrigava todos a trabalhar, queria sempre fazer melhor, que fossemos os primeiros\u201d, recordou Rui Alves.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Uma outra vez, num inc\u00eandio numa f\u00e1brica de resina, junto \u00e0 linha da automotora, Laureano chegou ao local e gritou \u201calto\u201d. Espreitou, analisou e cavou. Passou a mangueira por baixo dos carris. A corpora\u00e7\u00e3o de Aveiro n\u00e3o perdeu tempo e meteu a mangueira sobre a linha. \u201cO comboio das 08:30 cortou-lhes a \u2018manga\u2019. Mais um gozo\u201d, diz Laureano.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cE da outra vez, naquele inc\u00eandio em Aveiro, no quartel da Infantaria 19, em que os de Anadia andavam \u00e0 nora, \u00e0 procura de \u00e1gua, e tu foste meter a moto-bomba no lago dos patos?\u201d, evoca Pina. Irrompem as gargalhadas, apenas afogadas pelo tinto da casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">NAS PROFUNDEZAS DA VIDA E DA MORTE<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Um tema recorrente nas hist\u00f3rias que conta aos netos, \u00e9 o dos resgates nos po\u00e7os. Perdeu a conta aos momentos dessa imers\u00e3o solit\u00e1ria na escurid\u00e3o, em busca de vida ou morte. S\u00f3 ele e as entranhas da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Relembra uma chamada ao Brejo, onde dois trabalhadores tinham ficado soterrados a escavar um po\u00e7o.<br \/>\nLaureano desceu, com o cheiro a terra h\u00famida a intensificar-se nas suas narinas e o lamento aflitivo da popula\u00e7\u00e3o a desvanecer-se nos seus ouvidos. Nada encontrou no fundo. Quando come\u00e7ou a escavar, sentiu a amea\u00e7a de novo desabamento. \u201cA malta remediou um taipal com t\u00e1buas velhas e outros peda\u00e7os de madeira de um curral\u201d. J\u00e1 mais protegido, l\u00e1 conseguiu encontrar os corpos. \u201cAmarrei os cad\u00e1veres e subi, abra\u00e7ado a eles, de frente para um\u201d. E Laureano subiu, face a um olhar apagado, com peda\u00e7os de terra sempre a cair. Na superf\u00edcie, deitou-se no ch\u00e3o, a rezar e a chorar. \u201cNunca mais vou esquecer aqueles olhos\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1378-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-841 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1378-2-1024x681.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"681\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1378-2-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1378-2-600x399.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1378-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1378-2-768x511.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cMas tamb\u00e9m h\u00e1 lembran\u00e7as felizes\u201d, atira, logo a seguir, recordando \u201co mais longo abra\u00e7o\u201d da sua vida. A mesma situa\u00e7\u00e3o, mas apenas com uma v\u00edtima, na Piedade. No fundo do po\u00e7o, Laureano ia perfurando o aterro com o cabo do machado, \u00e0 procura de um corpo. J\u00e1 passava algum tempo, as esperan\u00e7as eram poucas. Sentiu algo. Escavou. E ouviu uma voz, ainda coberta com terra: \u201cEst\u00e1s a caminhar por cima de mim\u201d. J\u00e1 na superf\u00edcie, a v\u00edtima resgatada demonstrou o seu apre\u00e7o com um forte e longo abra\u00e7o. \u201cLarguem-me que estou abra\u00e7ado a um amigo\u201d, dizia ele. \u201cFoi para a\u00ed uns 10 minutos\u201d, diz Laureano.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cE o boi?\u201d, refere Pina. \u201cP\u00e1, do que te foste lembrar\u2026\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Aconteceu perto da cl\u00ednica de Oi\u00e3, \u201cnum po\u00e7o seco que l\u00e1 havia\u201d. Um boi tinha ca\u00eddo e n\u00e3o dava sinal de vida. Amarraram as mangueiras e Laureano desceu por elas, a punho. \u00c0 medida que se aproximava do fundo, come\u00e7ou a percepcionar a silhueta do animal, tenuemente recortada na escurid\u00e3o. \u201cUm animal portentoso, metia medo\u201d. Ouviu algo. \u201cEle est\u00e1 a mugir. Est\u00e1 vivo\u201d, gritou Laureano para a superf\u00edcie. De l\u00e1, veio um aviso: \u201cTenha Cuidado! N\u00e3o toque na barriga do boi\u201d, alertou o dono.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas quando as palavras desceram, j\u00e1 Laureano estava demasiado pr\u00f3ximo. S\u00f3 teve tempo de sentir o quente arfar do animal no seu rosto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dizem que perante a fatalidade, a mem\u00f3ria recua \u00e0 inf\u00e2ncia. Naquele momento, a de Laureano viajou at\u00e9 Ponte de Lima.<br \/>\n\u201cSegura aqui a pata\u201d. Quase conseguia ouvir as roucas palavras do velhote, dono da casa de ferraduras da sua terra natal, onde em pequeno passava muitas tardes, a brincar e a ajudar com os cavalos. Essa experi\u00eancia revelar-se-ia fundamental na sua carreira militar. Numa das tardes no esquadr\u00e3o da Cavalaria oito, em Aveiro, surgiu um cavalo branco, altivo, selvagem, indom\u00e1vel, \u201cdiab\u00f3lico\u201d &#8211; para alguns. \u201cAquele ronco parecia o brando do dem\u00f3nio\u201d. Laureano n\u00e3o hesitou. Aproximou-se devagar, passou-lhe a m\u00e3o pelo focinho e, com v\u00e1rios afagos, colocou-lhe a \u2018cabe\u00e7ada\u2019 e o \u2018arreio\u2019. O espanto atingiu todos, excepto Laureano. Desde pequenino que sempre soubera o segredo: \u201cSubtileza, meiguice\u201d. \u201cA for\u00e7a e a viol\u00eancia s\u00f3 os tornavam ainda mais ariscos\u201d. A fa\u00e7anha valeu-lhe um posto no picadeiro e o respeito dos oficiais. \u201cNunca aqui agarr\u00e1mos um soldado como tu\u201d, confessara-lhe o seu tenente, durant\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A lambidela na cara desperta Laureano da reminisc\u00eancia. N\u00e3o o esperava desta vez, mas a sua aptid\u00e3o com os animais voltou a n\u00e3o falhar. \u201cS\u00f3 faltou o boi ronronar\u201d. E, pacientemente, Laureano l\u00e1 amarrou as mangueiras ao corpo daquele colossal felino cornudo, triunfalmente i\u00e7ado pelos companheiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><span style=\"color: #808080;\"><br \/>\nO ANO NEGRO DE 1986<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Laureano contava 73 anos, quando o acordaram naquela fat\u00eddica manh\u00e3 de 14 de Junho de 1986, e o informaram de uma trag\u00e9dia com os bombeiros de \u00c1gueda. J\u00e1 n\u00e3o estava no activo e j\u00e1 come\u00e7ava a padecer de alguns dos problemas de sa\u00fade que agora o martirizam. Mas, mais uma vez, n\u00e3o pensou duas vezes. \u201cHavia fagulhas no ar. Que fogo, meu Deus!\u201d, pensava, enquanto corria para o quartel.<br \/>\nHavia mortos confirmados e sete desaparecidos na corpora\u00e7\u00e3o de \u00c1gueda. Laureano arrancou num carro rumo a S\u00e3o Jo\u00e3o do Monte. A estrada parecia serpentear por um aut\u00eantico cen\u00e1rio de devasta\u00e7\u00e3o. Onde n\u00e3o havia fogo, havia cinza. Travou bruscamente, na zona do Ramalhal. L\u00e1 estavam os sete, junto ao Land Rover \u201cdep\u00f3sito amarelo\u201d, que tinha avariado de madrugada. Laureano agarrou-se a eles, a chorar. Um dos jovens bombeiros era o actual chefe Sabino. \u201cEle abra\u00e7ou-se \u00e0 malta. S\u00f3 gritava: Os nossos colegas morreram mas voc\u00eas est\u00e3o vivos\u201d, recorda o oficial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-830 size-large\" style=\"text-align: justify;\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1393-2-1024x681.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"681\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1393-2-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1393-2-600x399.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1393-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_1393-2-768x511.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cNaquela altura n\u00e3o havia telem\u00f3veis, as comunica\u00e7\u00f5es n\u00e3o estavam a funcionar, foi um pandem\u00f3nio\u201d, recorda Pina. \u201cAquilo foi um aut\u00eantico tuf\u00e3o de fogo! Em 50 anos de bombeiro nunca vi coisa igual\u201d, assegura.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nessa noite estava de servi\u00e7o no bar do quartel, mas o apelo das chamas foi mais forte. Arrancou com o colega \u201ccan\u00e1rio\u201d, na \u00fanica viatura que restava no quartel, uma camioneta de carga com um tambor de 800 litros de \u00e1gua. N\u00e3o era uma viatura minimamente adequada para um inc\u00eandio daquelas dimens\u00f5es, Pina sabia-o. Mas ainda conseguiu acudir a um homem que, em desespero, \u201ctentava apagar o fogo na sua casa com pipas de vinho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Naquela noite arderam cerca de sete mil hectares de floresta, em zonas lim\u00edtrofes ao Caramulo, naquele que \u00e9 considerado o mais infernal inc\u00eandio de que h\u00e1 mem\u00f3ria na regi\u00e3o. E 13 soldados da paz &#8211; nove de \u00c1gueda e quatro de Anadia \u2013 imolaram os seus destinos em prol de um dever que s\u00f3 um bombeiro verdadeiramente sente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<a href=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7246-copy-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-836 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7246-copy-2-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"683\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7246-copy-2-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7246-copy-2-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7246-copy-2-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/MG_7246-copy-2-768x1152.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">O NOME PERDURA<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nos ser\u00f5es em volta das hist\u00f3rias, um dos bisnetos nutria particular aten\u00e7\u00e3o das palavras de Jos\u00e9 Laureano. Sentia-se fascinado com aqueles relatos de coragem e arrojo. O fasc\u00ednio maturou. Aos 18 anos decidiu-se. Hoje, tr\u00eas anos depois de se ter alistado, Bruno Laureano junta-se ao bisav\u00f4 na sess\u00e3o fotogr\u00e1fica, no quartel dos bombeiros. Nas suas m\u00e3os, o capacete N\u00ba118 profetiza a continuidade de um apelido que marcou toda uma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cBoas botas. Antigamente t\u00ednhamos era o cara#$%&amp; \u00e9 que t\u00ednhamos\u201d, resmunga Jos\u00e9 Laureano, ao ver o bisneto encavalita-se no beliche.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Bruno j\u00e1 perdeu a conta \u00e0s conversas intermin\u00e1veis que ambos tiveram, debatendo a abissal diferen\u00e7a de meios entre presente e passado. \u201c\u00c9 uma guerra caricata\u201d, diz Bruno, a sorrir. \u201cTodos sabemos que antigamente as interven\u00e7\u00f5es dependiam mais do hero\u00edsmo do que de outra coisa. N\u00e3o havia meios. Eram 12 num carro\u201d. Hoje os tempos s\u00e3o outros, com a cidade a ser servida por \u201cum quartel moderno e bem qualificado\u201d.<br \/>\nEm final de 2008, 163 bombeiros constitu\u00edam o quadro activo do quartel, servidos por 45 viaturas de socorro. Nesse ano foram realizados quatro semin\u00e1rios no distrito, tr\u00eas cursos em \u00c1gueda, e incont\u00e1veis forma\u00e7\u00f5es internas. Mas Bruno n\u00e3o tem d\u00favidas que, independentemente de gera\u00e7\u00e3o ou condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 o mesmo altru\u00edsmo que corre nas veias de um bombeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O seu cargo principal prende-o na central. Mas nunca deixa de correr para os fogos, sempre que pode. Noites de sono, jantares, anivers\u00e1rios, j\u00e1 perdeu a conta \u00e0s interrup\u00e7\u00f5es. Deixaram de ser interrup\u00e7\u00f5es. A sirene e o seu fat\u00eddico c\u00e2ntico de sereia j\u00e1 s\u00e3o parte de si.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Da sua (ainda) curta carreira, j\u00e1 guarda um momento que o acompanhar\u00e1 para sempre. A assist\u00eancia a um parto de emerg\u00eancia, nas traseiras da \u201csua\u201d carrinha do INEM. \u201cTemos de fazer o parto aqui\u201d. Quando Bruno ouviu as palavras do m\u00e9dico, tremeu. \u201cEram duas vidas em risco\u201d. Mas n\u00e3o demorou a suspirar de al\u00edvio. \u201cOuvir aquele primeiro choro \u00e9 algo \u00fanico\u201d, recorda. \u00c0s 23h00 daquela noite, em frente a uma padaria qualquer de Recard\u00e3es, certamente que foram muitos os que passaram e, confrontados com o aparato, deduziram que mais uma pessoa sucumbia ali. \u201cDesta vez era o contr\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"http:\/\/cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5046-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-831 size-large\" src=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5046-2-1024x685.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"685\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5046-2-1024x685.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5046-2-600x402.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5046-2-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/DSC_5046-2-768x514.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong><br \/>\n<span style=\"color: #808080;\">A HIST\u00d3RIA PERDURAR\u00c1<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As hist\u00f3rias sucedem-se, escorrendo com o tinto e com o entusiasmo de velhos camaradas.<br \/>\nNeste balc\u00e3o, j\u00e1 ento\u00e1mos em voz alta o hino dos bombeiros, relembr\u00e1mos palavras de Eug\u00e9nio Ribeiro, viaj\u00e1mos ao passado. J\u00e1 se descortinaram inconfid\u00eancias, partilharam epis\u00f3dios inenarr\u00e1veis, verteram emo\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO vinho tr\u00e1s a verdade. Mas tamb\u00e9m a saudade. Dos tempos em que era poss\u00edvel ver um bombeiro a correr, descal\u00e7o e de cuecas pela Venda Nova fora, para se sentar a chorar na cal\u00e7ada \u2013 mesmo aqui em frente &#8211; porque o carro j\u00e1 tinha partido e ele n\u00e3o ia ao fogo. \u201cDo que sentia c\u00e1 dentro, cada vez que voltava de um fogo, descia do carro e dizia: Mais uma miss\u00e3o cumprida\u201d, diz Pina. \u201cEu queria era \u00e1gua!\u201d, esbraceja Laureano.<br \/>\nH\u00e1 coisas que n\u00e3o mudam. Outras sim. Mudaram para sempre o som da sirene no meu imagin\u00e1rio, quando estou nesta cidade. Sei que h\u00e1 um jovem fren\u00e9tico a correr em direc\u00e7\u00e3o \u00e0s chamas. E h\u00e1 um velhote com olhar nost\u00e1lgico, a sofrer por j\u00e1 n\u00e3o ir ao seu encontro, pelo corpo n\u00e3o anuir \u00e0 vontade, ainda bem acesa.<br \/>\nH\u00e1 fogos que a \u00e1gua n\u00e3o pode apagar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>Fotografias: Tiago Oliveira e Filipe Silva<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A miss\u00e3o era especial. Escrever uma reportagem sobre os 75 anos de um quartel de bombeiros.<br \/>\nNem coloquei a hip\u00f3tese de usar uma estrutura convencional, \u00e1rida, cronol\u00f3gica. O meu o\u00e1sis seria o de sempre: um \u00e2ngulo diferente. Parti em busca dele e senti-me finalmente saciado quando descobri um antigo bombeiro com 96 anos, que praticamente acompanhou a vida do quartel. Reuni com ele v\u00e1rios dias e ouvi relatos fascinantes.<br \/>\nN\u00e3o demorou muito at\u00e9 sentir que esse seria o caminho. Sentei-me na secret\u00e1ria e as palavras foram saindo, uma a uma. A noite prolongou-se at\u00e9 o sol entrar pela janela. Foi nesse momento que constatei que tinha contado a hist\u00f3ria atrav\u00e9s das viv\u00eancias dele. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":826,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-824","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cronicas-de-redaccao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.9 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O VELHO E O FOGO<\/title>\n<meta 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