{"id":912,"date":"2018-03-02T22:47:55","date_gmt":"2018-03-02T22:47:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=912"},"modified":"2019-05-08T23:37:53","modified_gmt":"2019-05-08T23:37:53","slug":"dear-bicharoco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/dear-bicharoco\/","title":{"rendered":"DEAR BICHAROCO"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\"><span class=\"wpsdc-drop-cap\">E<\/span>ras o mais feio da ninhada. Escanzelado, orelhas colossais, cabe\u00e7a desproporcional em rela\u00e7\u00e3o ao corpo e olhos remelosos. Talvez por isso, ela escolheu-te. N\u00e3o por seres feio, mas por seres fr\u00e1gil. \u201cA tua vida vai mudar, gatinha\u201d, disse a tua dona, quando te pegou ao colo. Sim, no in\u00edcio pens\u00e1vamos que eras gata. Recebeste um nome de gata e tudo: Dharma. O tempo passou e detet\u00e1mos o erro de g\u00e9nero. Rebatiz\u00e1mos-te: Lince. Com o teu dorso cinzento, malhado e branco, fazias mesmo lembrar um lince ib\u00e9rico e um dia at\u00e9 pensei em cortar parte do pelo do teu queixo, para reproduzir as barbichas pontiagudas deles. Em boa hora, a tua dona convenceu-me que a ideia era idiota.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5292.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-916 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5292-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"535\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5292-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5292-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5292-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5292-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 535px) 100vw, 535px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Eras chatinho. Empoleiravas-te no meu ombro feito papagaio quando eu estava a escrever. Quando conclu\u00edas que a minha aten\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o era suficiente, saltavas para cima do teclado e olhavas-me com olhos desafiantes: \u201cEstou aqui, sou mais importante\u201d. E eras, sem d\u00favida, meu querido bicharoco. Desde pequenino que ganhaste esse apelido. Sessenta por centro de ternura e quarenta a brincar com o teu aspeto desgrenhado.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/151120121415.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-918 alignnone\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/151120121415-768x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"318\" height=\"424\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/151120121415-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/151120121415-600x800.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/151120121415-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/151120121415.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><\/a><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-919 alignleft\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6802-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"549\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6802-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6802-600x450.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6802-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6802-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 549px) 100vw, 549px\" \/><\/p>\n<p>Quando fomos a \u00c1gueda pela primeira vez, travaste amizade com o Monkey. Ele era um excelente anfitri\u00e3o, recebeu-te de patas abertas. Houve reciprocidade. Dormias com ele, brincavas com ele e at\u00e9 exigias acompanh\u00e1-lo ao telhado. Rapidamente, decoraste o acesso e sempre que volt\u00e1vamos a \u00c1gueda, l\u00e1 ias a correr at\u00e9 aquela pequena janela do primeiro andar da moradia. Adoravas ir ao telhado durante o dia, sentir a brisa e o sol no teu focinho e de noite, ouvir os grilhos e as cigarras a cantar. Numa dessas noites, ca\u00edste. Ou ent\u00e3o saltaste, nunca vamos saber. Quando demos por tua falta, percorremos o bosque que circunda a casa durante horas, em todas as dire\u00e7\u00f5es dos pontos cardeais, de lanternas em punho e com o teu nome nos l\u00e1bios. A tua dona foi incans\u00e1vel, nunca perdeu a esperan\u00e7a. Ao amanhecer, n\u00e3o sei como, descobriu-te a centenas de metros de dist\u00e2ncia. Soci\u00e1vel como sempre, estavas a brincar com um felino desconhecido. Ela chamou-te e tu vieste, devagarinho, at\u00e9 saltar para o colo dela. O susto foi suficiente. Da\u00ed em diante, passeios no telhado s\u00f3 com supervis\u00e3o. Um de n\u00f3s tinha de ir para o terra\u00e7o e ficar a observar-te durante esses minutos de recreio. Que seca nos davas, bicharoco!<br style=\"mso-special-character: line-break;\" \/> <!-- [if !supportLineBreakNewLine]--> <!--[endif]--><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7888.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-943 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7888-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"756\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7888-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7888-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7888-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7888-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 756px) 100vw, 756px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">J\u00e1 em Viseu, onde mor\u00e1vamos, j\u00e1 tinhas ca\u00eddo duas vezes da varanda. Felizmente era um segundo andar mais baixo do que \u00e9 normal e demos sempre pelas quedas a tempo. Numa delas, esticaste-te todo para tentar apanhar uma borboleta. Tu e o teu instinto de ca\u00e7a, meu grande safado!<br \/>\nFoi o suficiente para nunca mais ires \u00e0 varanda ou sequer abrirmos uma janela contigo presente nessa divis\u00e3o da casa. O medo de te perder era demasiado grande.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Gostavas de dormir no pesco\u00e7o da tua dona. Aninhavas-te l\u00e1 e dormias horas a fio. Ela, ao ver-te t\u00e3o satisfeito, deixava-se ficar sempre na mesma posi\u00e7\u00e3o. Por vezes, ainda pequenito, gostavas de saltar para dentro da m\u00e1quina de lavar roupa. Eras mesmo um bicharoco doido. Ias sempre receber-nos \u00e0 porta. Num dos dias, eu j\u00e1 estava l\u00e1 dentro e testemunhei a \u00e2nsia com que o fazias. Podias estar completamente adormecido, mas quando ouvias a chave na porta, corrias a sete patas. Cheguei a combinar com a tua dona e filmar essas tuas corridas desvairadas \u00e0 sua chegada. Tamb\u00e9m filmei uma das tuas muitas brincadeiras: tu a ires buscar uma bola de papel que n\u00f3s arremess\u00e1vamos. Trazia-la na boca at\u00e9 n\u00f3s e fazias um gesto com o focinho a atir\u00e1-la na nossa dire\u00e7\u00e3o, para que a arremess\u00e1ssemos outra vez. Quando mencion\u00e1vamos isso a amigos, n\u00e3o acreditavam, pensavam que era o nosso amor a hiperbolizar as tuas capacidades. Quando mostr\u00e1mos o v\u00eddeo, ficaram estupefactos.<br style=\"mso-special-character: line-break;\" \/> <!-- [if !supportLineBreakNewLine]--><br style=\"mso-special-character: line-break;\" \/> <!--[endif]--><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1375.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-924 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1375-1024x577.jpg\" alt=\"\" width=\"667\" height=\"376\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1375-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1375-600x338.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1375-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1375-768x433.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 667px) 100vw, 667px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Por vezes, acumulavas energias durante o dia que insistias em gastar connosco. Insistir \u00e9 um eufemismo. Tu exigias. Exigias tantas coisas e tinhas miados pr\u00f3prios para essas exig\u00eancias.<br \/>\nA tua brincadeira favorita era obrigar-nos a correr atr\u00e1s de ti pelo apartamento. Ou ent\u00e3o jogar \u00e0s escondidas com a tua dona. Conseguias sempre encontr\u00e1-la.<br \/>\nUm dia, decidimos arranjar uma companhia para ti. Adot\u00e1mos uma gatinha toda branca e do\u00e1mos-lhe o teu primeiro nome. Recebeste-a como um cavalheiro e dividiste o teu reino com ela.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/090720131526.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-936 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/090720131526-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"686\" height=\"514\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/090720131526-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/090720131526-600x450.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/090720131526-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/090720131526-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/090720131526.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/170620131517.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-937 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/170620131517-768x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"460\" height=\"614\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/170620131517-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/170620131517-600x800.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/170620131517-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/170620131517.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7722.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-921 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7722-806x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"458\" height=\"582\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7722-806x1024.jpg 806w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7722-600x762.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7722-236x300.jpg 236w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7722-768x975.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 458px) 100vw, 458px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Foste crescendo e deste corpo \u00e0 hist\u00f3ria do Patinho Feio. Tornaste-te um lindo cisne. O pelo sedoso, o olhar lind\u00edssimo, a tua express\u00e3o sempre fotog\u00e9nica que me impeliu a tirar-te centenas de fotografias. Foi a primeira grande li\u00e7\u00e3o que me deste. A apar\u00eancia \u00e9 moldada pelo amor.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Mais tarde, numa viagem a Santar\u00e9m, encontr\u00e1mos uma gatinha preta beb\u00e9 no jardim de um museu. Em boa verdade, ela \u00e9 que nos encontrou. Veio na nossa dire\u00e7\u00e3o, subiu para o colo da tua dona e nunca mais o largou. T\u00ednhamos decidido que dois gatos era o n\u00famero ideal para o T1 onde viv\u00edamos, mas o olhar dela fez-nos perceber que certas decis\u00f5es s\u00e3o vergadas pelas circunst\u00e2ncias. Est\u00e1vamos de f\u00e9rias em Santar\u00e9m e voc\u00eas estavam l\u00e1 connosco.<br \/>\nTu recebeste logo bem a pretinha. A Dharma precisou de mais um bocadinho para se habituar. Fizeram os tr\u00eas a viagem connosco para Viseu e apresentaram-na ao seu novo lar. Chamamos-lhe Puma.<br \/>\nUma branca, uma preta e um cinzento. Que tr\u00edptico, que d\u00e9grad\u00e9 t\u00e3o giro!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5499.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-922 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5499-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"669\" height=\"446\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5499-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5499-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5499-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_5499-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 669px) 100vw, 669px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6073.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-939 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6073-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"680\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6073-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6073-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6073-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6073-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/a><br \/>\nUm dia, pregaste-nos um susto com uma gastroenterite. Ficaste dois dias internado. Foi duro visitar-te, ver-te com um focinho nitidamente chateado, e n\u00e3o te poder trazer para casa. Voltou a acontecer seis meses depois. \u201cQue gatinho sens\u00edvel!\u201d, dizia a tua dona, cheia de meiguice.<br \/>\nA tua alimenta\u00e7\u00e3o mudou. Procur\u00e1mos a ra\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel, mais nutritiva e mais palat\u00e1vel que existia e pass\u00e1mos a encomend\u00e1-la de prop\u00f3sito. E aqueles snacks que te faziam lamber os bigodes, como um pedacinho de fiambre de vez em quando, acabaram. E o teu sistema gastrointestinal franzino ganhou tantos m\u00fasculos que nunca mais tiveste problemas.<br \/>\nGanhaste, no entanto, outro v\u00edcio. Quando estavas em \u00c1gueda, ias miar para a porta da cozinha. Miavas at\u00e9 a tua dona te colocar um <em>baudrier<\/em> com uma trela e levar-te a passear no jardim. Com paci\u00eancia de santa, acompanhava-te nessas jornadas enquanto atravessavas vegeta\u00e7\u00e3o, cheiravas plantas, comias ervas e perseguias pequenos insetos. Eras tu a definir o rumo e, quase sempre, a dura\u00e7\u00e3o do passeio.<\/p>\n<p><span style=\"mso-spacerun: yes;\">\u00a0 <\/span><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_0103.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-923 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_0103-1024x577.jpg\" alt=\"\" width=\"731\" height=\"412\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_0103-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_0103-600x338.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_0103-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_0103-768x433.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Depois, veio uma nova mudan\u00e7a. Mais uma cidade, mais uma casa. Eras um bicharoco mesmo viajado. Eu fui primeiro e voc\u00eas tr\u00eas vieram comigo. A tua dona veio poucos dias depois. Antes disso, dei com voc\u00eas a dormirem no quarto mais vazio e frio da casa, que tinha apenas uma cama, um colch\u00e3o e uma velha camisola azul de l\u00e3, que era dela. Voc\u00eas os tr\u00eas estavam todos aninhados em cima da camisola, aconchegados pela frag\u00e2ncia da saudade. Tirei uma fotografia e a vossa dona chorou.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Adoraste a casa de Coimbra. Tinha um s\u00f3t\u00e3o que podias explorar \u00e0 vontade e escadas que adoravas subir e descer. Tinhas um gin\u00e1sio novo para arranhar e um compartimento s\u00f3 para as vossas casas de banho. Tinhas tamb\u00e9m um cantinho de chill out, com um tapete felpudo e muitas almofadas. Eram tantas as tardes que passavas l\u00e1.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Eras um bicharoco muito friorento. Por vezes dava contigo a dormir nos s\u00edtios mais estranhos, em busca de calor. Em cima da box ou do router da Vodafone (por vezes esticado em cima de ambos), no topo do micro-ondas ou at\u00e9 no fog\u00e3o, pouco tempo depois de ter sido usado. Quando algu\u00e9m ligava o aquecedor, tu ouvias \u00e0 dist\u00e2ncia e vinhas a correr e deixavas-te ficar, com o pelo a ondular ao sabor daquela brisa quentinha.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_2088.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-928 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_2088-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"663\" height=\"442\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_2088-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_2088-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_2088-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_2088-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 663px) 100vw, 663px\" \/><\/a> <a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1888.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-926 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1888-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"666\" height=\"499\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1888-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1888-600x450.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1888-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/DSC_1888-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 666px) 100vw, 666px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Mas o s\u00edtio onde mais gostavas de te aconchegar era no colo da tua dona. Quando ela se sentava no sof\u00e1 com uma manta, ias logo a correr, levantavas a ponta da manta com a pata e aninhavas-te nas pernas dela. Tornou-se t\u00e3o habitual que, quando ela se sentava l\u00e1, levantava de imediato a manta pois sabia que em menos de cinco segundos ias estar l\u00e1.<br \/>\nAs gatinhas come\u00e7aram a aperceber-se desse teu covil c\u00e1lido e tamb\u00e9m queriam ir para l\u00e1. Nas raras vezes em que uma delas se antecipava a ti, tu entravas e come\u00e7avas a encostar-te de forma sorrateira, sempre a mudar de posi\u00e7\u00e3o, ganhando terreno cent\u00edmetro a cent\u00edmetro, cada vez mais em cima dela, at\u00e9 ela decidir sair e ficares com o ninho s\u00f3 para ti. Que bicharoco mais matreiro!<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6824.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-933 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6824-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"809\" height=\"539\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6824-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6824-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6824-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_6824-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 809px) 100vw, 809px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Eras t\u00e3o, mas t\u00e3o matreiro. Quando te ralhava por subires \u00e0 mesa durante a refei\u00e7\u00e3o, descias para a cadeira e ficavas s\u00f3 com as orelhas e os olhos \u00e0 mostra, \u00e0 espera de uma oportunidade. N\u00e3o sem antes reclamares, claro. Tinhas um miado espec\u00edfico para reclamar. Uma esp\u00e9cie de ronronar prolongado e rabugento. Tinhas mil e um miados. Praticamente falavas. Quando querias comer miavas de uma forma. Quando eu n\u00e3o te fazia a vontade, acentuavas o miado e corrias na minha dire\u00e7\u00e3o. Quando querias que eu te abrisse a torneira do bid\u00e9, porque beber da sua ta\u00e7a era demasiado mainstream para sua excel\u00eancia felina, tinhas outro miado pr\u00f3prio. Quando estavas no meu colo e eu tinha de me levantar, reclamavas, com outro tom espec\u00edfico. Quando querias exigir aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vinhas ter connosco. Ias para o corredor e os teus bigodes at\u00e9 vibravam com as aut\u00eanticas \u00e1rias que soltavas at\u00e9 algu\u00e9m se decidir ir l\u00e1 e brincar contigo.<br style=\"mso-special-character: line-break;\" \/> <!-- [if !supportLineBreakNewLine]--><br style=\"mso-special-character: line-break;\" \/> <!--[endif]--><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_0647.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-927 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_0647-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"723\" height=\"482\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_0647-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_0647-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_0647-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_0647-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 723px) 100vw, 723px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Quando cheg\u00e1vamos a casa t\u00ednhamos sempre de abrir a porta devagarinho, porque por vezes tentavas fugir. Eras um bicharoco muito explorador! De vez em quando, deix\u00e1vamos-te sair para as escadas do pr\u00e9dio (sempre coordenado com a tua dona, que descia um ou dois andares para n\u00e3o te deixar passar da\u00ed) e a tua rea\u00e7\u00e3o era t\u00e3o hilariante quanto indiscrit\u00edvel. Entusiasmado ou agradecido (ou ambos), gatinhavas abaixado e a fazer um miado que se assemelhava a um arrulho de um pombo. E ias cheirar todos os recantos, sempre com esse c\u00e2ntico engra\u00e7ado.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Havia outro s\u00edtio onde fazias isso. A \u00fanica divis\u00e3o do apartamento que te estava interdita: O meu escrit\u00f3rio. Rapidamente decoraste o som do trinco e eu nem dava por ti a entrar. S\u00f3 te via depois, a deambular agachado por l\u00e1 e com esses miados \u00e0 pombo.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8067.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-931 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8067-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8067-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8067-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8067-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8067-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Uma vez, numa dessas nossas chegadas a casa, conseguiste passar por n\u00f3s e entraste na casa do vizinho de baixo. Um mi\u00fado com 10 ou 11 anos tentou agarrar-te. \u201cQue pelo t\u00e3o macio!\u201d, exclamou ele. Toda a gente que te fazia festinhas se rendia ao teu pelo. Parecia seda, a m\u00e3o quase deslizava sozinha. E cheiravas bem! \u201cQue gatinho mais cheiroso\u201d, dizia a tua dona, vezes sem conta.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Eu achava imensa piada ao teu nariz cor-de-rosa, ligeiramente achatado, e ao teu porte esguio e elegante. Andavas aos saltinhos, como se tivesses pezinhos de l\u00e3. Quando est\u00e1vamos deitados no quarto e ouv\u00edamos patinhas cadenciadas no soalho de madeira, tent\u00e1vamos adivinhar qual era o gatito que ia saltar para cima da cama. O teu andar flutuante denunciava-te quase sempre. Dormias connosco e tinhas h\u00e1bitos muito pr\u00f3prios de demonstrar o teu afeto. \u00c0 tua dona, davas beijinhos no pesco\u00e7o e na cara. A mim, davas pequenas mordiscadelas nas minhas m\u00e3os ou nos meus p\u00e9s. Por vezes, gostavas de te deitar em cima do nosso peito e esticar ambas as patas na dire\u00e7\u00e3o do nosso pesco\u00e7o. Nesses momentos, t\u00ednhamos de te segurar as patinhas, para nos protegermos das tuas unhas. N\u00e3o \u00e9 que fossem as mais afiadas. Mas dos tr\u00eas gatos, eras o que menos cuidado tinhas com elas. \u201cEle \u00e9 brutito\u201d, dizia tantas vezes a tua dona.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7285.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-930 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7285-683x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"419\" height=\"628\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7285-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7285-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7285-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7285-768x1152.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 419px) 100vw, 419px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">De manh\u00e3, as tuas irm\u00e3s aguardavam, pacientemente, que nos levant\u00e1ssemos para comer. Tu n\u00e3o. Tu \u00e9 que decidias quando tomar o teu pequeno-almo\u00e7o. Por volta das 07:00, 07:30, come\u00e7avas a dar-nos patadinhas na cabe\u00e7a. Come\u00e7ava sempre de uma forma levezinha, mas ia aumentando de intensidade at\u00e9 cedermos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Tinhas tantas peculiaridades dessas. Tantas, tantas. Podia escrever mil p\u00e1ginas e n\u00e3o as registava todas. \u201cTanta personalidade num ser-vivo de quatro quilos\u201d, costumava dizer a tua dona. Ela dizia tantas coisas fofas sobre ti. Seguramente incompreens\u00edveis para qualquer pessoa com cora\u00e7\u00e3o de granito. Mas esses cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o entram nesta casa, n\u00e3o \u00e9 bicharoco?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8071.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-938 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8071-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"674\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8071-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8071-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8071-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8071-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8071.jpg 1326w\" sizes=\"auto, (max-width: 674px) 100vw, 674px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7238.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-929 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7238-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"686\" height=\"457\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7238-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7238-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7238-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_7238-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 686px) 100vw, 686px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Eu tamb\u00e9m. Por mais que me tivesse afei\u00e7oado a esse teu ep\u00edteto, por vezes dirigia-me a ti de outras formas. Lincezito, bichinho, cinzentinho. Tinhas esse dom, de nos despertares diminutivos a torto e a direito, tal era o teu encanto.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">No entanto, a tua alcunha principal tornou-se t\u00e3o caracter\u00edstica que, por vezes, at\u00e9 se estendia aos tr\u00eas. \u201cPassar o ser\u00e3o no sof\u00e1 com os bicharocos\u201d, tornou-se uma express\u00e3o comum entre os teus donos. Adoramos sair, viajar, praticar desporto e estar em contacto com a natureza. Mas os planos caseiros ganharam uma cor especial com voc\u00eas. Tornava-se igualmente id\u00edlico. Dias de chuva, sol, calor ou frio, tarde ou noite, era espl\u00eandido ficar \u201cno sof\u00e1 com bicharocos\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Vou-te contar um segredo que nunca disse a ningu\u00e9m, nem sequer \u00e0 tua dona. Por vezes via-te a dormir no sof\u00e1 ou na cama, ia l\u00e1 e metia-te o cobertor por cima, por vezes at\u00e9 te enrolava nas tuas mantinhas, como uma m\u00famia. E dava-te um beijo na bochecha peluda. Tu, como sempre, com confian\u00e7a incondicional, deixavas-te ficar, imperturb\u00e1vel na tua express\u00e3o regalada. Sabes, sentir-te seguro, quentinho, protegido, fazer-te sentir assim, dava-me um conforto interno intenso que nunca soube exprimir. Nem verbalmente, nem por escrito. Mas adorava essa sensa\u00e7\u00e3o, de saber que independentemente de todas as intemp\u00e9ries, tu estavas aqui, aconchegado no teu lar.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_20170514_171022_892.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-932 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_20170514_171022_892-1024x577.jpg\" alt=\"\" width=\"795\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_20170514_171022_892-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_20170514_171022_892-600x338.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_20170514_171022_892-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_20170514_171022_892-768x433.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 795px) 100vw, 795px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Gosto dos tr\u00eas, mas estaria a mentir se n\u00e3o admitisse que tu eras especial. Os teus donos adotaram-te quase na mesma altura em que come\u00e7aram a viver juntos. Tu viveste e testemunhaste todo esse per\u00edodo da nossa rela\u00e7\u00e3o. Cresceste connosco e n\u00f3s crescemos contigo. Enquanto donos, enquanto casal, enquanto seres humanos.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Foram 66 meses de amor, que se interromperam, subitamente, numa manh\u00e3 fria de Fevereiro. Partiste cedo, bicharoco. 38 anos, na nossa idade. Um jovem em pleno fulgor da vida, qual estrela de rock ou cinema a perpetuar a sua juventude pela eternidade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Partiste e deixas-te um vazio nos nossos quotidianos, cuja dor tento, talvez em v\u00e3o, exorcizar neste teclado. Tenho esta mania, sabes? J\u00e1 me morreram muitos familiares queridos e eu sempre lhes escrevi. Essas palavras ficaram sempre entre eu e eles. Sempre optei por fazer esse luto de forma mais \u00edntima e privada, como sempre senti que ele devia ser feito. Mas, desta vez, resolvi escrever-te e soltar essa carta ao universo. N\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel, nem tem de ser. Porque gostamos n\u00f3s humanos de comparar o incompar\u00e1vel? Tu n\u00e3o, bicharoco. N\u00e3o tinhas ponta de cinismo, inflexibilidade ou maldade e certamente compreenderias o motivo, o mais simples, natural, et\u00e9reo motivo do mundo: Porque me apeteceu.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Talvez esta partilha me alivie um pouco a m\u00e1goa de chegar a casa e n\u00e3o te ver c\u00e1.<br \/>\nDe saber que perdemos um pedacinho da nossa felicidade quotidiana.<br \/>\nDe n\u00e3o te voltar a ver a dormir.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Foste para o teu derradeiro sono embrulhado na camisola azul de l\u00e3 da tua dona. Que esse odor que te era t\u00e3o familiar te ampare para sempre.<br \/>\nE que em breve, eu consiga olhar para as tuas mil e uma fotos e v\u00eddeos e apenas sorrir.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Adeus, querido bicharoco!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo especial decidiu partir. N\u00e3o explicou porqu\u00ea. H\u00e1 des\u00edgnios que n\u00e3o se explicam. Partiu, simplesmente. Restam os espa\u00e7os vazios, as mem\u00f3rias, as fotografias. 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