{"id":950,"date":"2018-03-21T22:52:39","date_gmt":"2018-03-21T22:52:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=950"},"modified":"2019-05-08T23:37:43","modified_gmt":"2019-05-08T23:37:43","slug":"miguel-e-a-janela-de-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/miguel-e-a-janela-de-livros\/","title":{"rendered":"MIGUEL E A JANELA DE LIVROS"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"wpsdc-drop-cap\">R<\/span>etiro-o da prateleira e passo a m\u00e3o pelo couro enrugado da capa, como se as suas rugas me pudessem denunciar as suas viv\u00eancias. Cem anos. Este livro tem 100 anos. A quem ter\u00e1 pertencido? Ter\u00e1 sido uma oferta? A quantas gera\u00e7\u00f5es ter\u00e1 sobrevivido? Abro devagarinho a velha edi\u00e7\u00e3o de \u201cO Primo Bas\u00edlio\u201d (E\u00e7a de Queir\u00f3s), mas a \u00fanica resposta \u00e9 um ligeiro estalar das p\u00e1ginas, com a sua pele cor de am\u00eandoa. Pele. Sorrio, enquanto recordo as manh\u00e3s e tardes a visitar alfarrabistas no Porto e uma passagem que escrevi na reportagem. \u201cO velho bibli\u00f3filo que folheia p\u00e1ginas como quem acaricia a pele de uma mulher\u201d. N\u00e3o h\u00e1 qualquer vinco ou aspereza nestas p\u00e1ginas. \u00c9 dif\u00edcil acreditar que tens 100 anos. Quantas velas arderam na tua companhia? Com quantos olhares travaste amizade? Que sensa\u00e7\u00f5es despertaste? As rugas da tua capa, que t\u00e3o dedicadamente te protegeu de todas as tempestades do tempo, n\u00e3o me respondem. Devolvo-te \u00e0 estante e olho em redor. \u00c9s \u00fanico e, no entanto, h\u00e1 aqui milhares como tu. Tantas prateleiras, tantas perguntas, tantas rugas caladas, tantos anos. E t\u00e3o poucos dias. Daqui a 11, as portas deste s\u00edtio fecham-se para sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Tomo I<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi no Ver\u00e3o de 1995 que Miguel de Carvalho tomou a decis\u00e3o. Estava farto de ser engenheiro geol\u00f3gico. Decidiu largar a profiss\u00e3o, a seguran\u00e7a do fim-do-m\u00eas, o quotidiano aborrecido. Sentou-se, bebeu uma cerveja e rescreveu as suas prioridades. A geologia ia passar a ser um <em>hobby<\/em>. Os livros, at\u00e9 a\u00ed circunscritos aos fins-de-semana, iam passar a ser a sua vida.<br \/>\nEntusiasmado, percorreu essa estrada menos percorrida rumo a Coimbra e transformou um antigo escrit\u00f3rio numa livraria. O neg\u00f3cio cresceu, os livros acumulavam-se. Em 1998, carrega-os \u00e0s costas. Outra rua, outro primeiro-andar, mas com quatro salas. Dezasseis paredes para rechear com livros. Des\u00edgnio ou consequ\u00eancia que Miguel n\u00e3o demora muito a atingir. Pelo meio, tira um mestrado em Cartografia Geol\u00f3gica.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8746.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-955 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8746-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8746-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8746-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8746-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8746-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Tomo II<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A atividade corria bem, mas Miguel ambicionava mais. \u201cSonhava criar um espa\u00e7o de tert\u00falia, onde as pessoas pudessem n\u00e3o apenas ver livros, mas reunirem-se, encontrarem-se em torno dos livros\u201d. Havia um espa\u00e7o que considerava perfeito para esse des\u00edgnio, um edif\u00edcio do s\u00e9culo XIX com tr\u00eas andares, na baixa da cidade. \u201cNamorei-o durante tanto tampo\u201d, recorda Miguel, com nostalgia. Um namoro plat\u00f3nico, pois o edif\u00edcio esteve sempre comprometido, primeiro com o Jazz ao Centro e depois com O Principezinho, uma loja que fazia trabalhos gr\u00e1ficos com papel reciclado.<br \/>\nO desencontro durou 13 longos anos. Um dia, ao passar nessa rua de sempre, encontrou-o vazio e com um papel na montra com um n\u00famero de telefone. \u201cLiguei, conversei e pronto\u201d.<\/p>\n<p>Na inaugura\u00e7\u00e3o, houve um concerto de guitarra portuguesa. Os m\u00fasicos, os irm\u00e3os Aroso, recusavam-se a actuar em Coimbra por \u201cmotivos pessoais\u201d. \u201cAbriram uma exce\u00e7\u00e3o por amizade\u201d, confidencia Miguel. Seguiram-se muitos outros eventos. Pe\u00e7as de teatro, ciclos e festivais de poesia, lan\u00e7amentos de livros, exposi\u00e7\u00f5es de pintura e muitas, incont\u00e1veis tert\u00falias animadas que por vezes se prolongavam pela madrugada. Algumas surgiam de forma espont\u00e2nea, especialmente nas noites de ver\u00e3o. \u201cO edif\u00edcio \u00e9 fresco e particularmente apraz\u00edvel nessa altura\u201d.<\/p>\n<p>Miguel encheu a livraria de multiculturalidade. Antiguidades, pe\u00e7as de arte, m\u00e1scaras ind\u00edgenas, artefactos arqueol\u00f3gicos. Visitar a livraria Miguel de Carvalho \u00e9 uma aventura. Sentir o ranger do soalho de madeira antiga e impecavelmente envernizada, explorar as suas prateleiras infinitas, respirar o cheiro a sapi\u00eancia dos manuscritos, apreciar cada detalhe das pe\u00e7as ex\u00f3ticas, tudo isso desperta-nos uma esp\u00e9cie de fasc\u00ednio aventureiro. Faz lembrar um armaz\u00e9m dos anos 40, onde um arque\u00f3logo guarda os tesouros que obt\u00e9m nas suas expedi\u00e7\u00f5es. O paralelismo n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o rebuscado. Miguel parte muitas vezes em busca de tesouros. Guarda-os todos c\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8730.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-953 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8730-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"802\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8730-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8730-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8730-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8730-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 802px) 100vw, 802px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong><em>Tomo III<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Anoiteceres enublados e chaves pesadas que destrancam mans\u00f5es antigas e decr\u00e9pitas com bibliotecas misteriosas l\u00e1 dentro. \u201cEsque\u00e7a l\u00e1 isso\u201d. Miguel desmistifica-me de imediato. \u201cS\u00f3 compro livros em bom estado de conserva\u00e7\u00e3o e nesse tipo de s\u00edtios eles estariam todos estragados\u201d. Diverte-se a contemplar a oscila\u00e7\u00e3o da centelha no meu olhar e ateia-a de seguida: \u201cMas j\u00e1 visitei solares seculares, com g\u00e1rgulas nos telhados, figuras antropom\u00f3rficas esculpidas nos tetos e s\u00f3t\u00e3os trancados h\u00e1 d\u00e9cadas.\u201d N\u00e3o \u00e9 incomum Miguel ser a primeira pessoa a entrar num compartimento selado h\u00e1 dezenas de anos. Muitas vezes s\u00e3o heran\u00e7as que ficam congeladas no tempo. Miguel partilha a emo\u00e7\u00e3o que sente nesses momentos, a sedutora incerteza antes de rodar o trinco, o alvoro\u00e7o da busca, o entusiamo do achado. Essas expedi\u00e7\u00f5es em busca de tesouros apaixonam-no. E s\u00e3o tantos os que j\u00e1 encontrou.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-954 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8731-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8731-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8731-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8731-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8731-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Tomo IV<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s chamamos-lhes princeps, na g\u00edria alfarrabista\u201d, informa Miguel. \u00c9 essa a designa\u00e7\u00e3o das primeiras edi\u00e7\u00f5es, \u201cas raridades\u201d.<br \/>\nMiguel j\u00e1 perdeu a conta \u00e0s que descobriu nos seus 23 anos enquanto livreiro.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00f5es princeps de \u201cO Crime do Padre Amaro\u201d (1875), de E\u00e7a de Queir\u00f3s, \u201cAmor de Perdi\u00e7\u00e3o\u201d (1862), de Camilo Castelo Branco ou \u201cMensagem\u201d (1934), de Fernando Pessoa, assinado pelo pr\u00f3prio, um ano antes de morrer. Publica\u00e7\u00f5es raras, como as vinte p\u00e1ginas sat\u00edricas de \u201cK4, O Quadrado Azul\u201d (1917), de Almada Negreiros ou o primeiro e \u00fanico n\u00famero da revista \u201cPortugal Futurista\u201d (1917), com textos de Fernando Pessoa e do seu heter\u00f3nimo \u00c1lvaro de Campos, M\u00e1rio S\u00e1-Carneiro e Almada Negreiros e cuja esmagadora tiragem foi apreendida pela pol\u00edcia devido ao conte\u00fado subversivo. A publica\u00e7\u00e3o cont\u00e9m ainda quatro reprodu\u00e7\u00f5es de pinturas de Santa-Rita Pintor que sobreviveram ao seu derradeiro desejo das suas obras serem queimadas ap\u00f3s a sua morte.<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8876.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-957 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8876-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8876-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8876-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8876-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8876-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nesta livraria tamb\u00e9m j\u00e1 esteve um dos \u00fanicos tr\u00eas exemplares de \u201cA Infanta Capelista\u201d (1872), de Camilo Castelo Branco (Pedro II, Imperador do Brasil, pediu a Camilo para n\u00e3o publicar a obra por retratar a vida de um membro da fam\u00edlia imperial brasileira), ou a edi\u00e7\u00e3o princeps de \u201cBicos de Gaz\u201d (1854), do mesmo autor. \u201cN\u00e3o se via um exemplar deste livro desde os anos 60\u201d, afirma Miguel.<\/p>\n<p>Por vezes, encontram-se livros por identificar, que mais tarde se revelam aut\u00eanticas joias. Miguel relembra uma tarde, nas Caldas da Rainha, quando encontrou um manuscrito medieval entre o esp\u00f3lio de um colecionador. \u201cNos s\u00e9culos XV e XVI era muito comum usarem um pergaminho antigo aleat\u00f3rio para encadernar manuscritos\u201d, explica Miguel. Uma pr\u00e1tica que dificulta a identifica\u00e7\u00e3o genu\u00edna das obras. Era o caso, mas Miguel comprou-a na mesma. \u201cH\u00e1 livros que falam connosco, d\u00e3o-nos pequenos sinais, indescrit\u00edveis, que h\u00e1 l\u00e1 algo de especial, que merece uma pesquisa aprofundada\u201d. Miguel seguiu a sua intui\u00e7\u00e3o e, com a colabora\u00e7\u00e3o de um pale\u00f3grafo, debru\u00e7ou-se sobre o que tinha em m\u00e3os. Descobriu ser uma das \u201cSiete Partidas\u201d, um documento jur\u00eddico redigido pelo Rei Afonso X de Castela no s\u00e9culo XIII, uma das obras jur\u00eddicas mais importantes da idade m\u00e9dia. Inicialmente tinha sido intitulado \u201cLibro de las Leyes\u201d, mas ganhou a presente domina\u00e7\u00e3o devido \u00e0s sete sec\u00e7\u00f5es que o compunham. Miguel tinha uma delas nas suas m\u00e3os. \u201cVeio at\u00e9 um especialista americano em paleografia de prop\u00f3sito para o autentificar\u201d, relembra.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9141.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-960 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9141-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9141-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9141-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9141-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9141-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Numa outra situa\u00e7\u00e3o, desta vez em Coimbra, voltou a ouvir a intui\u00e7\u00e3o enquanto perscrutava uma biblioteca particular. Mais uma negocia\u00e7\u00e3o, mais um manuscrito enigm\u00e1tico. Descobriu ser um cancioneiro manuscrito do s\u00e9culo XVI, com composi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas in\u00e9ditas de Cam\u00f5es e Gil Vicente. \u201cFoi comprado por um professor universit\u00e1rio e vai ser publicado pela Universidade de Coimbra\u201d, refere.<\/p>\n<p>Qual a sec\u00e7\u00e3o da livraria onde se guardam essas preciosidades? Miguel sorri com a quest\u00e3o. \u201cEsses livros n\u00e3o costumam ficar muito tempo por c\u00e1. Geralmente, basta um telefonema e est\u00e3o vendidos\u201d. Rebate a minha curiosidade em rela\u00e7\u00e3o a valores. \u201c\u00c9 sempre muito subjetivo\u201d, elucida. \u201c100 pode ser muito, 10 mil pode ser pouco\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Tomo V<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8211; Miguel, tens Mendes Correia?<\/p>\n<p>A voz emerge do r\u00e9s-do-ch\u00e3o. Miguel reconhece-a.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cDa Ra\u00e7a e do Esp\u00edrito\u201d?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho.<\/p>\n<p>Miguel levanta-se e dirige-se a um corredor ex\u00edguo ladeado por livros, de onde retira, de forma imediata, um exemplar. Tem 40 mil volumes c\u00e1 dentro, mas sabe sempre onde est\u00e1 o que procura. Entrega a obra de 1940 do antrop\u00f3logo portugu\u00eas ao Louren\u00e7o, que a fica a admirar, compenetrado.<br \/>\n\u201cJ\u00e1 vem c\u00e1 h\u00e1 muitos anos\u201d, refere. \u201cCada cliente tem o seu mundo, que eu vou conhecendo\u201d. Miguel tem muitos clientes assim. Quando explora uma biblioteca, faz logo uma sele\u00e7\u00e3o. \u201cEstes s\u00e3o para X, aqueles para Y\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8922.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-958 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8922-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8922-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8922-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8922-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8922-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Desde cedo, come\u00e7ou a aperceber-se que os seus clientes n\u00e3o vinham apenas em busca de livros. \u201cQueriam tamb\u00e9m partilhar as suas vis\u00f5es, as suas experi\u00eancias, as suas hist\u00f3rias, os seus problemas\u201d. Muitas vezes, a livraria Miguel Carvalho transforma-se em consult\u00f3rio emocional, sentimental, matrimonial. Miguel nunca nega uma palavra, um ombro, uma sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>Relembra o dia em que entrou uma senhora que queria oferecer um livro a algu\u00e9m que sabia ser seu cliente ass\u00edduo. \u201c Pretendia um livro que ele desejasse, particularmente\u201d. E Miguel conhecia bem os seus desejos liter\u00e1rios. Fez algumas sugest\u00f5es e a senhora acatou uma. Saiu com o livro nas m\u00e3os e um sorriso nos l\u00e1bios. Mais tarde, soube que o gesto tinha despoletado uma rela\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica entre ambos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 teve de lidar com situa\u00e7\u00f5es caricatas. Miguel tem muitos clientes que s\u00e3o consumidores compulsivos de livros, o que por vezes gera alguns atritos dom\u00e9sticos. \u201cPor quest\u00f5es financeiras ou at\u00e9 por mera falta de espa\u00e7o\u201d. Recorda, vividamente, o dia em que um desses clientes lhe comprou duas sacas cheias de livros, mas pediu se as podia deixar na livraria e se o Miguel as podia levar \u00e0 sua casa, num dia e hor\u00e1rio estrategicamente delineado para coincidir com a aus\u00eancia da esposa. Miguel assim fez. Tocou \u00e0 campainha, entregou os sacos ao cliente e deixou-o imerso na pr\u00f3xima etapa do seu dilema. Onde encaixar os livros em casa de forma \u00e0 esposa n\u00e3o dar conta que tinham sido recentemente adquiridos.<br \/>\nO alfarrabista ergue o rosto e sorri, abstra\u00eddo noutras recorda\u00e7\u00f5es n\u00e3o partilhadas. Nesta casa, h\u00e1 centena e meia de clientes que j\u00e1 ultrapassaram a fronteira e t\u00eam carimbada a palavra amigo no passaporte que os tr\u00e1s c\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Venho busc\u00e1-lo no final do m\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Combinado! At\u00e9 amanh\u00e3, Louren\u00e7o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8780.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-956 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8780-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8780-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8780-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8780-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_8780-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Tomo VI<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em 2014, Miguel deixa de apenas comercializar livros. Passa a edit\u00e1-los. Lan\u00e7a a editora DEBOUT SUR L&#8221;OEUF, cuja ep\u00edteto \u00e9 inspirado num verso de Andr\u00e9 Breton, poeta surrealista franc\u00eas do s\u00e9culo XX. Edita dezenas de obras, sempre relacionadas, direta ou indiretamente, com a poesia. \u201cMais uma vez, fruto das rela\u00e7\u00f5es que se v\u00e3o criando aqui, dos autores que passam por c\u00e1 e cuja obra vou conhecendo\u201d, refere Miguel. Desempenha essa fun\u00e7\u00e3o com a mesma meticulosidade apaixonada com que gere a livraria. Percorre armaz\u00e9ns em busca do melhor papel para cada livro, vai \u00e0 tipografia assistir aos partos e examina o primeiro esp\u00e9cimen em busca de imperfei\u00e7\u00f5es. \u201cSou um oper\u00e1rio do papel\u201d.<br \/>\nA paix\u00e3o pela geologia continua acesa. Miguel est\u00e1 presentemente a tirar um doutoramento em cartografia e paleontologia.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9104.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-959 aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9104-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"801\" height=\"534\" srcset=\"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9104-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9104-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9104-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/IMG_9104-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 801px) 100vw, 801px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em><strong>Tomo VII<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A mala do Volvo est\u00e1 quase cheia. \u201cAinda cabe mais um\u201d. Miguel sobe ao primeiro andar e desce com um saco de hipermercado cheio de livros. N\u00e3o \u00e9 mais uma expedi\u00e7\u00e3o em busca e recolha de tesouros. \u00c9 uma translada\u00e7\u00e3o. \u201cUm ter\u00e7o do meu esp\u00f3lio j\u00e1 seguiu\u201d, afirma. Olha para tr\u00e1s, observa a montra da sua livraria durante alguns segundos e baixa o rosto, num gesto com pron\u00fancio de despedida. \u201cApaixonei-me aqui em Coimbra por uma senhora\u201d. Esbo\u00e7a um ligeiro sorriso. \u201cChamava-se cultura\u201d. O sorriso esbate-se. \u201cMas apareceu um cancro nesta Baixa, levou-me essa senhora e fiquei vi\u00favo\u201d.<br \/>\nMiguel revela-se desiludido com a pol\u00edtica cultural da cidade. \u201cA Baixa de Coimbra est\u00e1 a definhar e o com\u00e9rcio tradicional est\u00e1 a degradar-se cada vez mais. A minha \u00e9 apenas mais uma casa a fechar\u201d.<br \/>\nO destino do carro atolado de livros \u00e9 a Figueira da Foz, onde Miguel vai abrir outra porta, embora com um hor\u00e1rio reduzido de abertura. Vai tamb\u00e9m abrir uma janela, essa sim, permanente. \u201cVou centrar a minha atividade no neg\u00f3cio online\u201d. Uma livraria eletr\u00f3nica (www.livro-antigo.com), aberta para o mundo e dinamizada nas redes sociais. \u201cAinda hoje um senhor viu na minha janela online dois livros de poesia que j\u00e1 est\u00e3o no correio, a caminho de uma aldeia perto de Pinhel\u201d.<br \/>\nMiguel vai tamb\u00e9m investir mais tempo nas expedi\u00e7\u00f5es de Norte a Sul em busca dos tesouros. Uma atividade pela qual nunca perde o entusiasmo.<br \/>\nDesce o vidro do autom\u00f3vel, projeta a cabe\u00e7a para fora, indiferente aos pingos de chuva que se abatem sobre esta Baixa cinzenta e dirige o olhar \u00e0 livraria. \u201cHavia aqui muita vida\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 intemporal, o meu fasc\u00ednio por Alfarrabistas. Tenho boas recorda\u00e7\u00f5es de tardes inteiras em Londres, Barcelona ou Porto a explorar os seus corredores labir\u00ednticos, as suas prateleiras imensur\u00e1veis, os seus s\u00f3t\u00e3os ou caves amontoadas com palavras antigas. Algumas dessas visitas inspiraram reportagens, que hoje testemunham casas que j\u00e1 n\u00e3o existem. Recentemente, descobri um em Coimbra. Descobri-o tarde demais. \u00c9 mais uma casa que deixar\u00e1 de existir. 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