{"id":965,"date":"2018-04-11T20:48:01","date_gmt":"2018-04-11T20:48:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/?p=965"},"modified":"2018-04-11T20:52:54","modified_gmt":"2018-04-11T20:52:54","slug":"a-jukebox-dos-caminhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cronicasdamadrugada.com\/wpc\/a-jukebox-dos-caminhos\/","title":{"rendered":"A JUKEBOX DOS CAMINHOS"},"content":{"rendered":"<p>O banco ao lado do seu estava vago h\u00e1 mais de uma hora. Os seus pensamentos tamb\u00e9m, ou pelo menos assim percecionaria quem o observasse do outro lado do bar. Calado e retra\u00eddo sobre o balc\u00e3o, com o olhar perdido na neblina de fumo que sa\u00eda da ch\u00e1vena. Perdido como um caminhante nos planaltos verdes do norte, desnorteado pelo nevoeiro matinal. Errante como um vagabundo. Decifr\u00e1vel como um poema indiscreto.<br \/>\nAssim pensariam.<\/p>\n<p>Na realidade n\u00e3o estava vago, nem perdido, nem desnorteado. Errante, sim. O seu pensamento errava por milhares de terras, lugares, cantos, outrora desconhecidos, sem que no entanto ele percebesse como, pois percorrera-os toda a sua vida.<\/p>\n<p>Aquela conversa surtira um efeito curioso. Talvez tivesse sido demasiado longa, demasiado unilateral para ser apelidada de conversa. Uma epopeia orat\u00f3ria? Demasiado rebuscado. Uma viagem, uma boleia? Uma visita guiada? Sim, uma visita guiada. Aquela visita guiada levara-o a ver serem i\u00e7ados pequenos pontos de interroga\u00e7\u00e3o sob todos os terrenos que conhecia.<\/p>\n<p>Sempre fora governado. E sentira-se bem assim. Protegido. Essa sensa\u00e7\u00e3o, essa convic\u00e7\u00e3o era espessa como grossas vestes de l\u00e3, que sempre o tinham agasalhado, confortado. Esta noite, pela primeira vez, sentira que afinal o tecido dessas vestes era leve como cetim, como adere\u00e7os de um velho e antigo, muito antigo teatro.<br \/>\nA visita guiada levara-o a esse teatro, aos seus bastidores. \u00c0 vasta profundidade dos seus bastidores, imensur\u00e1vel quando comparada com a da plateia. E tudo ganhou nova luz.<\/p>\n<p>Na exiguidade daquela plateia conseguia vislumbrar as ruas que percorria diariamente, os sinais de tr\u00e2nsito que as condicionavam, os pequenos h\u00e1bitos instalados que alimentava, quase mecanicamente, sem na verdade entender porqu\u00ea. O que pediam de si enquanto cidad\u00e3o, o que anu\u00eda enquanto cidad\u00e3o. O qu\u00e3o perp\u00e9tuo era o alojamento das lascas dos remos na mesma carne, nas mesmas m\u00e3os. O quanto oca era a esperan\u00e7a de novos rumos e a car\u00edcia tetrad\u00e1ctila que a massajava. O quanto enrugado era o car\u00e1cter esclavagista da ilus\u00e3o de liberdade. E o quanto era \u00e1spero, afinal, o subtil toque do conformismo.<\/p>\n<p>Sentia-se dividido nessa err\u00e2ncia. Como uma bifurca\u00e7\u00e3o percorrida em simult\u00e2neo, com sentimentos de liberta\u00e7\u00e3o num dos caminhos e de revolta no outro. Nesse \u00faltimo, mais do que revoltado, sentia-se deprimido a cada passo, pela recta que se espregui\u00e7ava at\u00e9 bem longe no horizonte e pela percep\u00e7\u00e3o da profundidade tentacular da m\u00e1quina que a trilhara.<\/p>\n<p>Estremeceu com o sabor frio do caf\u00e9. Levantou-se, p\u00f4s a m\u00e3o no bolso e retirou algumas moedas, que pousou no balc\u00e3o. Uma delas caiu, fez um barulho seco ao embater no ch\u00e3o de madeira e rolou at\u00e9 \u00e0 jukebox. Mesmo sabendo que a m\u00e1quina estava h\u00e1 muito avariada e o seu prop\u00f3sito era meramente decorativo, achou caricata a situa\u00e7\u00e3o. Tinha algo de verdade.<\/p>\n<p>J\u00e1 perdera a conta \u00e0s vezes que a m\u00fasica tinha sido o seu or\u00e1culo. Porque n\u00e3o hoje?<\/p>\n<p>Tirou o iPod do bolso do casaco e decidiu que ouviria a m\u00fasica correspondente ao valor da moeda. A n\u00famero 20, portanto. N\u00e3o gostou. Resolveu fazer batota. Afinal, era dono do pr\u00f3prio destino.<\/p>\n<p>O som cavalgou pelos seus phones e ele encontrou o sorriso que o arrastaria dali para fora. A b\u00fassola que lhe nortearia as ruas, da cidade e do pensamento.<\/p>\n<p>Estava escuro, frio e vento c\u00e1 fora. Sabia que n\u00e3o estava bem agasalhado mas n\u00e3o se importou.<br \/>\nEsfregou as m\u00e3os, riu-se e disse &#8211; Bom dia caminho!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qF3D2oiy6YA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">iPod<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me lembro da cidade, lembro-me de um pub alojado numa esquina, enfumarado e iluminado a meia-luz. 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