Vi-a partir da aldeia de Regoufe e subir a montanha com o seu rebanho, pouco depois da hora de almoço. Encontrei-a agora junto ao cruzeiro da aldeia deserta de Drave. Chama-se Fátima, tem 50 anos (a ação deste texto decorre em 2015, hoje tem 55) e foi pastora toda a vida.
São 17:30, vai descansar aqui um pouco, antes de reunir as cabras e regressar. Converso com ela, faço-lhe perguntas sobre Drave.

“Era um sítio onde reinava a alegria. No fim da ceifa, havia sempre baile. Alguém levava uma grafonola e, por mais cansados que estivessem, havia sempre força para dançar”. Explica-me que os bailes eram o evento social mais ansiado pelos jovens de outrora. “Os rapazes andavam uma, duas ou mais horas por caminhos de montanha até chegar a povoações vizinhas, só para conhecer as raparigas bonitas que vinham de fora para as festividades”.

 

 

Fico também a saber que no planalto aqui ao lado se cultivava milho e centeio e que estas ruínas, como suspeitava, eram os currais onde guardavam as vacas e outros animais. “As pulgas eram aos milhões. Assim não chegavam à aldeia”.

Está acompanhada pela Lira e pelo Max. A primeira é uma perdigueira que foi abandonada por caçadores no Inverno de 2013. “Era muito desconfiada, fugia muito, até que deixei a porta da cozinha aberta. Passadas duas horas, entrou. E ficou”. O Max, um rafeiro simpático de pelo amarelo, é já “um velho companheiro”.

“Tenho de ir recolher as cabras”, diz-me. Pergunto se a posso acompanhar. “Sim, claro”.
Atravessamos Drave e enveredamos por um trilho que arranca a noroeste da aldeia. “Sei bem onde elas estão, as malandras”.

 

 

Caminhamos e conversamos sobre tudo e mais alguma coisa. Esta pastora é uma caixinha de surpresas. Fala-me em documentários sobre a Mongólia, o Caso Monte Branco, casas brasonadas, as origens gregas dos anfiteatros, no tempo da filosofia, “a ciência dos malandros”.

Após 20 minutos, chegamos a um lugar chamado Vale de Palhais. “Adoro este sítio. É lindo e tranquilo. No Inverno vimos muito para aqui, não dá vento, é mais abrigado”. Após algumas onomatopeias da dona, cerca de 30 cabras emergem subitamente da vegetação em redor de idílicas piscinas naturais em tons verde-esmeralda. Ela já sabia onde as encontrar. “À hora de vir embora é que lhes dá o apetite”.

 

 

Deitado num manto de flores roxas, o Max tem os olhos postos no fundo do vale. Embora bonita, esta zona é perigosa. São frequentes os ataques de lobos. No último, Fátima perdeu 10 cabras de uma assentada. Tenta sempre regressar antes dos primeiros sinais do anoitecer. “Mais 15 minutos e vamos”.
Mais tarde, irei descobrir que a povoação principal da zona, Regoufe, foi batizada pelos Visigodos e traduz-se: “Rei dos lobos”.

 

 

Palhais é outra aldeia deserta. Fica do outro lado deste vale. “Era um sítio pequeno, tem meia-dúzia de casas abandonadas”. “Há quanto tempo?”, pergunto. “Ui, há séculos. É muito antigo, é dos inícios dos inícios”. A resposta dela faz-me sorrir, mexe com o meu imaginário. Remete-me de imediato à série Game of Thrones e aos “primeiros homens”. Ela deve ter lido esse entusiasmo no meu rosto e alerta de imediato: “Aquilo é horrível, não vá lá”. “Ok”, digo com um sorriso, enquanto deambulo a tirar fotografias.

Instantes depois, noto que ela está imóvel, com uma expressão mais séria e nitidamente à minha espera. “Não vou sem você, antes que decida lá ir”. A sua voz foi como uma mão-cheia de tempero derramado nesse sabor a terra maldita que estava a aguçar cada vez mais o apetite da minha curiosidade. Quase conseguia ver a fritadeira a salpicar, o refogado cada vez mais apurado, o fumo a ascender e a mergulhar nas minhas narinas. Conheço-me, sei que não é muito difícil a curiosidade transformar-se em fascínio. E eu começava a sentir essa metamorfose.

Voltei a olhar para a Fátima. A sua pose denunciava irredutibilidade. Para além disso, já são 19 horas, já não deve faltar muito para escurecer. Resolvi seguir a sua vontade e voltar as costas àquele trilho que se perde à distância numa curva do vale. “Talvez amanhã”, pensei.

 

 

No caminho de volta a Drave, decido partilhar com a Fátima o meu plano (ler texto I). Fica nitidamente surpreendida. “E vai dormir onde?”. Digo-lhe que trouxe uma tenda e estou a pensar acampar no planalto de centeio, perto do cruzeiro. Fátima olha para mim mais uma vez, olhos nos olhos, como se me estivesse a perscrutar a alma. Até que sorri e diz: “Acho que não vai ser preciso”. A resposta deixa-me intrigado, mas ela não me esclarece até chegar à aldeia.

Leva-me às traseiras de uma casa de xisto com dois andares, ensina-me como destrancar a porta de madeira e diz: “Pode dormir aqui, esta casa é dos escuteiros, eu sou amiga de um dos responsáveis, eu falo com ele e tenho a certeza que ele não se vai importar”.

 

 

Fico empolgado com a ideia, mas também reticente. Uma coisa era pernoitar na aldeia, outra é fazê-lo numa das casas. Sentia-me clandestino. “Não dá para lhe ligar agora e já ficamos a saber?”. As gargalhadas dela refrescam-me de imediato a memória. “Pois, que estupidez, aqui não há rede de telemóvel, pois não?”, interrogo em jeito de afirmação. “Zero”, responde-me. “Está e vai ficar completamente incontactável”.

Como uma zelosa anfitriã, Fátima mostra-me todos os cantos à casa. No andar de baixo, existem vários beliches de madeira com colchões de esponja e também a única casa-de-banho. No andar de cima, há uma cozinha rústica e um salão com quatro mesas corridas e um teto revestido com t-shirts coloridas de diferentes grupos escutistas.

 

 

 

Vou lá fora buscar a mochila, que tinha deixado escondida na aldeia durante a caminhada até ao vale de Palhais. Olho para o saco da tenda e sorrio com a ironia. Optei pela tenda de Verão mais básica, leve e barata que tenho. E mesmo assim, foi o item mais pesado que trouxe, quase três quilos que, afinal, escusava de ter carregado. “Quem é que ia adivinhar?”.

Ainda incrédulo com esta reviravolta, volto a agradecer a Fátima e peço-lhe um favor. Dou-lhe o meu número de telefone de casa em Águeda, onde está a minha mãe e a minha namorada, e pergunto-lhe se pode ligar esta noite a dizer que estou bem. Tira-me o papel da mão com um sorriso, por onde deixa escoar as palavras “claro que sim”, chama os cães e segue caminho.

 

 

Fico a observá-la a afastar-se, de cajado na mão e com o sentimento, presumo, de mais um dia de dever cumprido. Hoje excedeu esse dever e fê-lo com um dos excessos mais belos e etéreos da nossa existência: com um gesto gentil para com um estranho.

Já na subida que leva ao cruzeiro, para, vira-se para trás e grita: “Ahh é verdade. Não se diz ‘ir a Drave’. É ‘fui à drave’. E Não é ‘em Drave’. É ‘na Drave’.”

 

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