Os ponteiros do relógio marcam 21:49 quando anoitece. Pensei que o silêncio ia envolver esta aldeia deserta quando a noite caísse, mas não é o que acontece. Algures num ramo ainda há um pássaro a cantar e o riacho que corre ao fundo da aldeia solta um murmúrio incansável que ecoa por todas as ruas de Drave. Ainda estava sol quando me encostei às paredes desta casa, onde viveu o último habitante da aldeia. Em 300 anos, várias gerações nasceram e morreram dentro destas paredes de pedra. O senhor Joaquim foi o último. Durante oito anos partilhou a povoação apenas com a mulher, a dona Aninhas, até ela falecer em 1999. O viúvo não quis deixar a sua terra órfã e permaneceu um ano aqui sozinho, até os familiares o convencerem a ir viver para a povoação mais próxima, Regoufe.

Olho para as janelas e tento imaginar a sua silhueta a espreitar o vale, como um rei velho e cansado que se recusa a abandonar o seu reino. Se tivesse jeito para desenhar, era essa imagem que imortalizava no meu caderno, em vez de descrições e pensamentos. Nesse instante, levanta-se uma brisa ligeira que revira as folhas. “Não estás assim tão cansado, meu caro?”, digo, instintivamente e em voz alta, com um sorriso, como se este sopro fosse dele. O vento deixou descoberta a primeira página, onde está escrita uma intenção: “Um dia vou regressar e passar aqui uma noite sozinho, com Drave só para mim. Só eu, o silêncio e esta aldeia que chamam de mágica”.

 

 

A primeira vez que fui a Drave foi na Primavera de 2008. Já tinha ouvido falar imenso desta aldeia alojada num vale a 600 metros de altitude, cercada por montanhas que lhe ocultam o sol no Inverno e que só se alcança com duas horas de caminhada.
A povoação, dizem, já existe desde tempos antigos. Já lá foi encontrada uma pulseia de ouro de origem celta. Há quem diga que nos séculos seguintes, se tornou um refúgio de “bandidos e canalhas”, que se aproveitavam do seu isolamento para ali se refugiarem após os seus crimes. No entanto, foi em 1700 que um casal ali se instalou e deu origem à aldeia que conhecemos hoje: Os Martins. Eles e os seus descendentes contruíram casas de xisto, a capela, a adega e o enorme solar da família, onde nasciam e, muitas vezes, morriam.

 

 

Com o passar dos anos, os habitantes ascenderam a poucas centenas. Um povo de agricultores, pastores e mineiros. A partir do século XX a desertificação acentua-se. Em 1971, ocorre o último nascimento na aldeia. Em 1990, já só lá viviam dois casais, sendo que um deles parte no ano seguinte. Permanecem lá Joaquim Martins e a Dona Aninhas, sozinhos numa aldeia sem eletricidade, saneamento ou telefone, uma vivência de simplicidade e encanto; que sempre conheceram e sempre amaram. A morte separa-os em 1999 e juntou-os em 2005.

Em 2003, Drave torna-se uma base nacional dos escuteiros. Desde então, estão quase sempre lá, a trabalhar na reconstrução e manutenção das casas da aldeia. Foi assim quando percorri as suas ruas pela primeira vez. Ouviam-se martelos a pregar, pedras a serem colocadas no sítio, escadotes a serem levantados para envernizar a madeira das janelas. Uma azáfama incessante e inspiradora, que dava gosto presenciar. No entanto, parte de mim sentia um outro desejo. Foram muitos anos a ouvir falar desta aldeia antiga, distante e deserta. Um local onde a vida secou, mas cuja terra permanecia fértil em memórias, sobretudo dos que permaneceram cá até ao fim. Havia algo de poético nessa resiliência, nessa solidão autoinfligida dos dravenses. E para usufruir dessa poesia, de forma mais genuína, a visita deste forasteiro teria de ser diferente. Retirei do bolso o caderno que me acompanha em todas as caminhadas, sentei-me numa laje de xisto e escrevi uma frase, em forma de promessa.

 

 

“24 de Junho, é uma quarta-feira”. Dei um abraço ao meu velho amigo e agradeci-lhe a confiança. Querer encontrar Drave totalmente deserta é como procurar uma agulha num enorme palheiro. Há acampamentos de escuteiros durante todo o ano e quase todas as semanas. Por isso, tive de recorrer a uma fonte especial. Um amigo com nível hierárquico alto nos escuteiros arranjou-me uma data desprovida de qualquer atividade escutista. “Nesse dia, tens Drave só para ti”. Opto por não o identificar porque não sei se poderá haver algum tipo de represália pela partilha da informação interna. Posso assegurar que é um dos seres humanos mais idóneos que conheço. Abriu uma exceção porque me conhece bem – desde pequeno – e sabe que vou respeitar o local.

Arranco ao amanhecer. Na mala do carro está uma mochila com mantimentos para dia e meio, tenda, colchonete, saco-cama de verão, dois livros, mp3, tripé e equipamento fotográfico.
Já na fase final da viagem, há uma placa que enuncia: “Portal do Inferno”. A partir daí, a estrada serpenteia pela crista da montanha. A vista corta a respiração.

 

 

Chego à aldeia de Regoufe às 9:30. Deixo a mochila no carro e vou explorar as ruínas das minas de volfrâmio, cujo minério abastecia o armamento do exército aliado na II Guerra Mundial. [Experiência descrita em detalhe no prelúdio deste texto]
Ando por lá umas duas horas, a fotografar e a tentar imaginar a sua atividade nos anos 40, com mil homens a escavar o dia inteiro, em plena “Febre do volfrâmio”.

 

 

Já ao fim da manhã, vou ao Café Montanha, onde almoço e converso com a dona Ilda. Tem 57 anos (a ação deste texto decorre em 2015, hoje tem 62), todos passados em Regoufe. A antiga mercearia onde o seu pai servia sopa e vinho aos mineiros é agora o seu café. “Quando era pequenina percorria o trilho até Drave, sempre de manhã quando era fresquinho, e trazia de lá o vinho às costas num odre de pele de cabra”. Em muitas noites, os copos de tinto eram a única companhia e o único manto que cobria as saudades desses homens com sotaques estranhos que tinham deixado as suas famílias, as suas casas e o seu país para trás, para viverem oito a 10 horas por dia debaixo de terra.

 

 

A dona Ilda sorri quando fala das minas. Eram um sítio de trabalho. “O meu pai era capataz e passei muitas tardes a lavar minério em cales de madeira”. Mas também eram um sítio de lazer. “Quando éramos pequenas, brincávamos lá às escondidas. Mais tarde íamos lá por outros motivos”. Ri-se, envergonhada. “Namorar era fácil em Regoufe”.

Eram também um “eletrodoméstico”. “Na altura não havia frigoríficos, se queríamos água ou cervejas frescas, deixávamos as garrafas na mina mais fria”. “Havia uma mais fria do que as outras?”, pergunto. “Sim, a mais funda, demorava uns vinte minutos a percorrê-la até ao fim, era muito escura, tinha medo de lá entrar”. “Pois, isso soa-me familiar”, refiro, com um sorriso comprometido. [Ler prelúdio]

 

 

Após servir um bagaço aos dois velhotes da mesa do lado, a dona Ilda fala-me também dos quotidianos de outrora de Drave. “Os antigos trabalhavam muito a terra, iam a cantar para a lavoura, havia muita alegria lá”.

Conta-me a história da senhora Albertina, que teve nove filhos, todos nascidos em Drave; do senhor Joaquim, que “por ele, ficava por lá” e que teve “imensa pena” de partir e deixar ao abandono “os campos que semeava com tanto cuidado”; do paradisíaco poço da ronca, “onde a juventude se banhava”; e dos lobos, cujos uivos se ouviam de noite, “para os lados de Covas do Monte”.

Agradeço-lhe as histórias, meto a mochila às costas e arranco.

São 14:25. Estou num ponto alto de Regoufe. Avisto o fim da aldeia no fundo do vale e o trilho que arranca daí e sobe em direção à montanha. Há um rebanho enorme a percorrê-lo.  Tenho ainda que atravessar a aldeia para lá chegar. É uma caminhada agradável, muitas das ruas estão cobertas por videiras que me protegem do imenso calor que já se faz sentir.

 

 

A primeira parte do trilho é dura. É uma subida íngreme e muito acidentada, cheia de pedras soltas. Vou devagar, não quero arriscar uma entorse logo no início do plano.
A subida nunca mais acaba. Percorrê-la com o peso da mochila e o sol abrasador não é fácil. Mais acima, vejo uma árvore junto ao trilho. Resolvo parar uns instantes à sua sombra. Bebo um pouco de água enquanto a observo. Tem um tronco enorme, retorcido e esburacado, que lhe dá um aspeto gótico, faz lembrar os filmes do Tim Burton. Respiro fundo, retomo a ascensão.

 

 

Finalmente atinjo um planalto. Solo lisinho e amolecido por erva seca e com vista para a cordilheira, banhado ocasionalmente por brisa fresca. Que maravilha! Sento-me junto a uma mariola e decido ficar por ali algum tempo, a usufruir do ambiente idílico. Retiro o caderno da mochila e escrevo um pouco. Decido que vou desenhar um mapa ao longo do trajeto, batizando os pontos de referência que vou encontrando. “Vertigem do Cascalho”, “Sombra de Burton”, “Planalto Divino”. Junto às páginas, está um envelope fechado. Pego nele e sorrio. “Foi por pouco”, penso.  Lá dentro está uma lenda sobre Drave. Uma lenda arrepiante, dizem. Enviaram-me a versão mais completa, que imprimi sem ler e selei neste envelope. Decidi que só a ia ler quando estivesse já a pernoitar na aldeia. Por um lado, para ser mais climático. Que melhor sítio para conhecer a lenda do que no seu próprio palco? Por outro, porque não me queria deixar condicionar por ela. Podia ficar amedrontado e cair na tentação de convidar mais alguém para vir comigo e adulterar o desígnio inicial do meu plano. Assim, quando a ler, se for assustadora como contam, prevalecerá algo deste género: “Tarde demais, meu caro. Nem voltas para trás, nem alteras seja o que for. Já cá estás, sozinho, como querias. Deal with it”.

 

 

Durante a conversa com a dona Ilda, senti-me tentado a perguntar-lhe sobre isto. Seja qual for essa história, seria muito bom obter uma perspetiva local. Aliás, eu procuro sempre essa perspetiva e fico sempre entusiasmado quando a encontro. Acho que foi a primeira vez que a ignorei, de forma deliberada, numa viagem. “Não foi fácil”, digo em voz alta, enquanto volto a guardar o envelope.

 

 

Alguns minutos mais à frente, encontro uma das visões mais assombrosas deste trilho. Mesmo que não se queira fazer as duas horas de caminhada até Drave, vale a pena subir até aqui só para ver isto: A Garra da Gralheira. Uma montanha no Maciço da Gralheira (que reúne as serras da Freita, Arada e Arestal) que ao longo dos séculos foi sendo cortada por diversas linhas de água e que ficou com a forma da garra de uma ave. Nenhuma fotografia reproduz a imponência desta paisagem. Sentimo-nos minúsculos perante um monstro descomunal. E o silêncio da serra, que nos envolve sem darmos conta, ainda acentua mais essa sensação. Após inúmeros minutos de contemplação, retiro o caderno, aponto “Garra Colossal” e sigo caminho.

 

 

O trilho continua a serpentear a montanha. Não é um trilho típico com terra e erva, é mais árido, com muitas rochas soltas. Mas há sempre uma linha menos acidentada, que acusa a passagem mais comum em anos de caminhadas. É um percurso mais duro no verão, pois é muito exposto ao sol, não há árvores, é raro encontrar algum tipo de sombra. Tento combater isso com um chapéu de abas e litro e meio de água, dispersa por dois cantis, que conto poder reabastecer numa fonte ou ribeiro da aldeia.

 

 

Há uma descida ligeira ao fundo da qual o trilho parece desaparecer. Quando chego lá constato que ele vira bruscamente à esquerda, uma espécie de curva reta, por mais antagónica que essa descrição possa parecer. Este ponto permite-me também uma perspetiva diferente da Garra da Gralheira, sendo possível avistar um riacho que percorre o vale. Aproveito o cenário para descansar um bocado, apreciar a paisagem e tirar algumas fotografias com o tripé, que já desisti de recolher e prender na mochila ao longo do trajeto. Neste momento, já o carrego aos ombros, estendido e com a máquina acoplada. Antes de me levantar, faço mais um registo no caderno. “Curva Desenhada a Esquadro”.

 

 

Quinze minutos depois, encontro, finalmente, o pequeno resguardo de pedras amontoadas que ansiava ver desde o início da caminhada. Parece intocado pelo tempo. Lembro-me dele exatamente assim, desde que passei aqui há sete anos. Tal como fiz nessa altura, procuro em redor um pedregulho com superfícies planas e contribuo para a “edificação”. Este ponto do trajeto tem uma particularidade especial. A partir daqui avista-se, pela primeira vez, a silhueta de Drave à distância, entre as montanhas. É um derradeiro fôlego motivacional antes do destino. “Muralha de Vigia”.

 

 

A partir daqui o trilho é mais estreito. Três passos e a vista mergulha para o fundo do vale. O riacho está seco nesta altura do ano. Recordo, algures lá um baixo, uma pequena cascata que deu um toque ainda mais belo à primeira fotografia que tirei a Drave. Hoje está nua, despida do seu manto de água. A melhor altura para vir cá é mesmo na Primavera, até pelas próprias cores da vegetação, onde o lilás e o amarelo se juntam ao verde.

 

Paisagem primaveril na minha primeira visita, em Abril de 2008

 

De vez em quando encontro pequenas escavações em veios de minério. A maioria delas concentrava-se, sensivelmente, a meio do percurso, mas de vez em quando lá surge mais um testemunho da “febre do volfrâmio”. Sorrio e relembro as palavras matinais da dona Ilda: “Muitos andavam na pilha, escavavam a serra a torto e a direito, à socapa, sem contrato nem projeto. Muitas casas foram aqui erguidas com o dinheiro do ouro preto, o volfrâmio”. [Ler prelúdio]

 

 

À medida que me aproximo da aldeia, o trilho torna-se lajeado e, a partir de determinado ponto, ladeado por pequenos muros de xisto. Começam a avistar-se árvores, que ocultam uma derradeira curva antes de chegar a um cruzeiro, o miradouro perfeito que nos abre as portas a Drave.

Nessa colina há um amontoado de ruínas do que deduzo terem sido abrigos agrícolas. Junto a eles há um planalto de erva seca. “Se não encontrar um sítio adequado para montar o acampamento no meio da aldeia, já tenho aqui um local formidável”, pensei, ainda longe, tão longe de imaginar a impensável realidade com que me ia deparar algumas horas depois.

 

 

Subo para cima de uma dessas paredes semi-desabadas e sento-me em cima do que teria sido uma porta. Tiro o caderno e começo a escrever. “Drave escorre pela crista da montanha como uma avalanche de xisto. Que privilégio é olhar para isto, imaginar isto. Quantas décadas ou séculos de sonhos e intenções terão retumbado pela serra abaixo até aqui se alojarem, aninhados uns dos outros. Viver em proximidade à distância de tudo o resto…”.

Interrompo a escrita e concentro-me no som que acabei de ouvir. Parecem passos. “Será a minha imaginação?”. O silêncio diz-me que sim, mas sinto-lhe inconstância na voz. Após dois segundos de hesitação, contradiz-se. São passos. Não estou aqui sozinho.

 

[Ler segundo capítulo]

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