Categoria: Crónicas Recicladas

OS ANDARES DA PERCEPÇÃO

Há textos que nos fazem sorrir por dentro. Este é um desses. Aborda muitas questões, desde lutas e desígnios de vida, a arte, a ficção científica, os trilhos misteriosos do destino, a espiritualidade e o que Carl Jung chamava de sincronicidade.
As palavras aqui escritas estabelecem um paralelismo com um filme, de forma quase umbilical. Não serão compreendidas na integra por quem não o tenha visto. E vão arruiná-lo a essas pessoas, pois o final é mencionado. Apesar disso, podem avançar. Há 519 palavras que podem ser lidas, antes de depararem com um sinal com essa advertência. Nesse caso, recuem e arranjem um momento nas vossas vidas para o ver. Regressem depois e, só então, subam a totalidade destes degraus da percepção.

O TANQUE QUE LAVA EPIFANIAS

Numa noite quente de Agosto de 2012, um conjunto caricato de coincidências levou-me a um velho edifício, na zona histórica de Viseu. Alguém destrancou duas portadas enormes e levou-me a um pátio, onde estavam a ser projetadas curtas-metragens ao ar-livre, junto a um velho tanque de pedra antiga. Esta iniciativa de dois viseenses, intitulada “Curtas ao Tanque”, cresceu e tornou-se no Shortcutz Viseu, um marco cultural incontornável da cidade. Hoje, 5 anos, 450 curtas, 320 convidados e 6000 espetadores depois, o evento contabiliza a centésima sessão. Em dia de festa, recordo o texto que escrevi na noite onde tudo começou.

O MOSTEIRO

Era mais do que uma aventura em busca das ruínas de um velho e lendário mosteiro, perdido no coração de um bosque do Norte. Saboreei cada centímetro agreste do trilho, mas era mais do que isso. Era uma ode aos sonhos de juventude. São sempre maiores do que os imaginamos.

A ASSOMBRAÇÃO DA PORTA 18

O primeiro Halloween do Shortcutz Viseu foi assombroso. Decorria 2013 e os seus organizadores decidiram oferecer um espectáculo memorável à cidade. Uma maratona de oito curtas-metragens de cinema fantástico, projectadas num velho armazém abandonado na zona histórica. Entusiasmado e inspirado com a ideia, escrevi um pequeno texto em forma de teaser para servir de aperitivo ao evento. Foi no dia 18, na porta 18. Esta madrugada, recordo-o.

AREIAS NOCTURNAS

Hoje morreu Ben E. King. Recordo-o com um texto que escrevi numa madrugada há meia década, sobre momentos ainda mais antigos e ilustrados pela música dele. Retratos da espontaneidade da juventude, que viaja livre e eterna com o vento nocturno das noites de verão a ouvir o mar.

PAREDES HUMANAS

Olho para a sua estrutura clássica, com o seu telhado em V e a chaminé num dos cantos. A porta pintada de azul, um azul desmaiado e ao mesmo tempo vívido, como um olhar nórdico. O arbusto que espreita à janela, as sombras desenhadas pelas árvores de fruto e a forma bucólica como o vegetação a contorna, como uma ilha num oceano de águas verdes. Que belo, que sereno será o barulho trémulo dessas águas nos dias de vento, tal como o silêncio nocturno dos céus estrelados, apenas perfurado por cantigas de grilos e cigarras. E olho as suas cicatrizes, inúmeras, que tantos segredos vincarão consigo.