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  • O PUTO QUE CRUZOU A EUROPA NO DORSO DE UMA SCOOTER «III – Espanha»

    ─ Los campings están cerrados en esta época del año.

    O puto não desanimou com a resposta do polícia. No fundo sabia que eram poucas as esperanças de encontrar um parque de campismo aberto numa madrugada de Janeiro na pequena povoação de Alcántara. No entanto, pareceu-lhe uma boa explicação à questão do agente, que o tinha mandado parar momentos antes, curioso com o que andava a fazer um rapaz português numa scooter cheia de tralha, no meio da noite às voltas no centro daquele pacato ‘pueblo’. A maior dúvida foi sobre a resposta à segunda questão, relativa ao seu destino. “Digo-lhe? Se calhar é melhor não. Ou digo?”, debatia-se, num divertido dilema mental. “Que se lixe, vou dizer”.

    ─ Vou para a Alemanha. ‘Concentración de motos’.

    O polícia arregalou os olhos e com a boca entreaberta numa expressão de espanto, limitou-se a fazer um gesto com o braço a mandá-lo seguir viagem. E o Puto seguiu, a rir-se desalmadamente dentro do seu capacete branco; a loucura do que estava a viver era palpável pela incredibilidade de todos os que encontrava no caminho.

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    Bem carregada, a Buxy descansa junto à estrada enquanto a noite já caiu sobre o país vizinho

     

    Esgotada a possibilidade do parque, é preciso encontrar uma solução para dormir. No dia seguinte precisa de meter gasolina, por isso resolve procurar umas bombas de abastecimento e tentar acampar lá perto. Após algumas voltas, encontra-as. Estão desertas. Contorna-as, as traseiras ficam viradas para um pinhal. “É aqui mesmo”. Retira a tenda e monta-a encostada à parede, com a motorizada à frente. Lá dentro, já despido do espesso e desconfortável fato de neve, escreve pela primeira vez no bloco de notas. O cansaço afeta-lhe a caligrafia, mas escreve pelo menos duas páginas. É a primeira noite da sua aventura, o saco-cama pode esperar mais uns minutos.

    Acorda às 9h00 com o ruído dos carros. Recolhe o material e entra no estabelecimento para tomar o pequeno-almoço. O empregado não toca no assunto do acampamento improvisado, por isso opta por também não dizer nada. Decide comprar um pote de cinco litros, para contornar a baixa autonomia do tanque da scooter e não estar tão dependente da necessidade de ter de encontrar postos de abastecimento de 100 em 100 quilómetros e conjugar os seus horários de abertura com os da sua rota. Atesta o depósito, depois o pote, perde alguns segundos a descortinar onde raio o vai carregar e arranca. Próxima paragem: Cáceres.
    Deixa Alcántara para trás, sem ter noção que algures durante a noite anterior passou por aquela que é a ponte mais alta construída pelo império romano. Um esplendoroso feito arquitetónico, erguido no ano 106, com seis arcos e 61 metros de altura. Junto à sua base, onde passam as águas do Tejo, está enterrado o arquiteto, Caio Júlio Lacer, que na altura profetizou que a ponte perduraria “ao longo dos séculos do mundo”.

    Replaneamento

    Compra pão, paio e queijo num supermercado de Cacéres. Mete tudo num saco plástico e conduz até ao centro histórico, à procura de um sítio agradável para comer. Almoça nos degraus da enorme Plaza Mayor. Aproveita para consultar o mapa e voltar a traçar a rota, voltando a amaldiçoar o facto de se ter esquecido do roadbook em Portugal. Trujillo, Madrigalejo, Piedrabuena, são algumas das povoações que vai atravessar, até alcançar Ciudad Real, bem no centro de Espanha, onde pensa pernoitar. São 275 quilómetros que pensa fazer em cerca de quatro horas de viagem, na sua média de 80km/h.

    Entra em Ciudad Real ao final da tarde. Olha para o relógio e constata, com alegria, que vai ter tempo para visitar a cidade. É sua primeira visita turística desde que deu início à aventura. Passeia pelas ruas, a sua Buxy consegue levá-lo até pelas mais exíguas ruas do centro histórico. Espreita a imponente torre da catedral, delicia-se com a fascinante arquitetura do edifício da Câmara, observa o entardecer a tingir de vermelho as paredes de pedra da Plaza Mayor. Tinha pesquisado sobre a cidade e sabe que é a capital da região histórica de La Mancha. Resolve pedir indicações para o Museu Dom Quixote. Por três vezes depara-se com olhares confusos acompanhados da frase “no te entiendo”. É entendido à quarta tentativa, mas encontra o museu fechado. Come umas tapas numa esplanada e resolve manter a tradição iniciada na noite anterior. Parte em busca de umas bombas para acampar.


    Rumo ao mediterrâneo

    Arranca de Ciudad Real às nove da manhã, rumo a Valência, na costa mediterrânica. Um esticão de 350 quilómetros. Está um frio de rachar no interior espanhol, tanto que tem dificuldade em mover os dedos da mão esquerda ao acionar o travão. Para além disso está nevoeiro. Percorridos cerca de 30 quilómetros, sente o nevoeiro cada vez mais cerrado, ao ponto de ter dificuldades em ver a estrada. Levanta a viseira do Capacete e constata que afinal não está nevoeiro nenhum. A viseira é que está congelada, cheia de gelo acinzentado. Tenta limpá-la em vão, a camada de gelo é espessa e está demasiado colada ao plástico. Vai precisar de água. Continua a viagem, de viseira aberta, em busca de um posto de abastecimento. Demora pelo menos trinta minutos até encontra um. Estaciona junto à mangueira da água e lava a viseira, que fica transparente outra vez.

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    Resolve ir tomar um café. Ao sair da mota, cruza com um casal e acha ligeiramente estranho o facto de se terem começado a rir após passarem por ele. Não liga, segue, abre a porta e deixa passar um tipo que estava de saída. Notou que o tipo levou a mão à boca a tentar controlar uma gargalhada. “Outra vez?”. Começa a ficar intrigado. Vai ao balcão e antes que pudesse pedir um café, já o empregado está engasgado de riso, atrapalhado e a tentar em vão pronunciar a palavra “perdon” no meio das risadas. “Epá mas que raio se está a passar?”, pensa, abrindo as mãos em jeito inquisitivo.

    – Sus cejas, sus Cejas! Un montón de hielo!

    – O quê?! – responde, enquanto pensa: “estes gajos andam passadinhos da cabeça!”

    O empregado sai do balcão e leva-o a um expositor de óculos escuros, onde existe um espelho.

    – Mira!

    É nesse momento que o Puto constata que tem as sobrancelhas e as pestanas completamente congeladas. Estão densas, grossas e cinzentas, como um Álvaro Cunhal das neves. Há pedacinhos de gelo a pender sobre as pontas, parecem minúsculas estalactites que brilham à luz das lâmpadas e ainda mais à do sol. Sai para a rua e imortaliza o caricato episódio com um auto-retrato.

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    Efeitos das manhãs invernais no interior espanhol

    Regressa ao seu expresso, troca umas palavras com o empregado e volta à estrada. Nesta zona de Espanha as retas são longas e rasgam planícies que se estendem para lá do olhar. Faltam algumas dezenas de quilómetros para chegar a Albacete, cidade cujo nome deriva do árabe ‘Al-basi’, que significa precisamente “planície”.
    Encontra um pequeno supermercado na extremidade oeste da cidade. É um espaço muito exíguo e rústico. Para além das prateleiras com os produtos, tem três mesas num canto onde é possível petiscar. Pede duas sandes ao proprietário, um simpático velhote com cabelo grisalho encaracolado e ar bonacheirão. Ao tomar conhecimento da sua natureza forasteira, não hesita em partilhar – enquanto corta o ‘jamón’ – que em Albacete “se hacen los mejores cuchillos de toda España”. O puto percebe instantaneamente que ‘cuchillos’ são facas ao ver o velhote brandir o objeto durante a sua exclamação.

    Compra alguns mantimentos suplementares e prossegue a viagem. Atravessa a cidade sem parar e segue pela estrada 322 para nordeste. O céu está pardo e caiem alguns chuviscos de vez em quando, mas a aragem está surpreendentemente morna. Após cerca de hora e meia, enquanto atravessa a povoação de Casas-Ibáñez, trava abruptamente a motorizada ao avistar uma placa. Desliga a ignição, dá alguns passos. Desde que saíra de Albacete sabia que ia ter de enfrentar esta decisão. Tem o olhar preso nos traços negros que destacam as palavras ‘Alcalá del Júcar’ no retângulo caiado que o direciona 19 quilómetros para Sul. Deixa que a chuva lhe escorra pelos longos cabelos loiros, talvez isso lhe refresque o ímpeto. O desvio não é grande, mas pretende chegar ainda hoje a Valência e ainda tem algumas horas de viagem pela frente. Olha para o céu, os dias invernais são curtos e já não falta muito para escurecer. Suspira fundo, coloca o capacete na cabeça com alguma pena, monta no seu cavalo mecânico e arranca sem olhar para trás. Sabe que ao longo desta aventura vai encontrar vários sítios que gostaria de visitar mas que terá de ignorar, pois o itinerário, os prazos estimados de viagem e o derradeiro destino são prioritários. Alcalá del Júcar é um desses sítios. Há alguns anos viu um postal com uma povoação de pequenas casas caiadas, aconchegadas umas nas outras e alojadas numa colina de pedra, com um imponente castelo árabe no topo. A visão, a partir de um riacho no sopé da colina, tinha-o deslumbrado e jurara a si mesmo que um dia ia testemunhar essa paisagem com os seus próprios olhos. Quando começou a traçar o mapa desta aventura, soube que ia ter uma oportunidade para satisfazer esse desejo. Optou por abandoná-lo e embora estivesse convicto da sua decisão, o ruído monocórdico do motor e a visão da chuva a cair no asfalto pareciam alongar a melancolia desse abandono.

    Sabe que ao longo desta aventura vai encontrar vários sítios que gostaria de visitar mas que terá de ignorar, pois o itinerário, os prazos estimados de viagem e o derradeiro destino são prioritários


    La ciudad fantasma

    “Mas o que raio se passa nesta terriola?”. É o terceiro posto de combustível que encontra fechado na pequena povoação de Requena. Não é tarde, são 21h30, mas toda a cidade parece ter-se deitado com as galinhas. Não são só as bombas, todos os bares e restaurantes que encontra pelo caminho estão fechados. É impreterível encontrar um posto de abastecimento, pois não tem combustível para prosseguir viagem. Farta-se de dar voltas e encontra outro, também fechado. Mentaliza-se que vai ter de pernoitar aqui. Deixa a motorizada nas traseiras mas não monta a tenda. É cedo, decide ir dar uma volta. Olha para a Buxy, cheia de tralha, com cordas e sacos plásticos por todo o lado e conclui que o seu aspeto desencorajará qualquer larápio de se aproximar. Mesmo assim, leva consigo os pertences de maior valor e parte para explorar a cidade fantasma. A expressão adequa-se, não encontra ninguém nas ruas e são poucas as luzes acesas nas janelas. Percorre algumas ruelas do centro histórico e desagua num largo, onde encontra uma enorme fonte redonda em pedra, sem pinga de água. Abana a cabeça e regressa às “bombas de campismo”, intrigado pelo silêncio de Requena e aborrecido por ter sacrificado Alcalá del Júcar em vão.

    O Puto desperta sobressaltado. Está cheio de frio. Olha para a manga direita, está branca. Todo o fato está coberto de geada. Dera-lhe a preguiça na noite anterior. Não lhe apeteceu montar a tenda e resolveu improvisar. Encostou a scooter a um metro da parede e deitou-se lá no meio, com a colchonete por baixo e dois dos sacos-cama atravessados entre o topo da scooter e uma saliência na parede, numa espécie de alpendre inventado. O fato de neve chegava para o abrigar e manter quente, pensara. Agora colhia, trémulo, os frutos da invenção. Sacudiu o fato, pediu ao empregado as chaves da casa de banho e secou-o parcialmente nos secadores das mãos. Bebeu um café, encheu o taque e o pote e apontou a bússola na direção do mar.
    Alcança-o a meio da manhã. Valência, finalmente. Tinha atingido um marco importante da viagem, Espanha estava oficialmente atravessada de Oeste a Este e agora era só subir a costa até à fronteira com França. Atravessa a cidade em direção à costa. O calor mediterrânico faz-se sentir. “Vou assar dentro disto”, pensa, desejoso por despir o fato térmico. Encosta num pequeno miradouro junto ao mar, aguarda por um momento mais solitário e muda de roupa mesmo ali. Há quatro dias que não despia o fato, que até ali lhe tinha dado um precioso conforto térmico mas agora o calor derretia a insignificância das suas inconveniências e deixava-as bem à vista. O peso, a prisão de movimentos, a transpiração excessiva das botas. Sentia-se agora outro, de sapatilhas, calças de ganga e casaco corta-vento. É assim que percorre a avenida Carrer de Pavia, inundada de sol e ladeada pelas palmeiras, a areia dourada e o azul do mediterrânio. Após vários dias enregelados e encharcados, é indiscritível a sensação de ter raios de sol que lhe queimam ligeiramente a pele. Atravessa a avenida Mare Nostrum e entra na N-340, que o levará até Barcelona. A diversidade paisagística da costa valenciana apaixona-o. São muitos os quilómetros percorridos com as montanhas a acompanhar o mar. Quando vislumbra a cordilheira de Desert de les Palmes à esquerda, fica impressionado com a sua proximidade ao mar, mas cerca de 15 minutos depois encontra o cenário oposto, à sua direita está a Serra d’Irta com os seus 500 metros de altitude que lhe ocultam o mediterrânio.


    Barcelona à Vista

    O Puto entusiasma-se quando avista, ao longe, a palavra Barcelona pela primeira vez numa placa. “Já não deve faltar muito”, pensa, ansioso por um dos seus pontos sublinhados no mapa. Nunca foi à capital da Catalunha e espera conseguir visitá-la, pelo menos minimamente. Fica ligeiramente desconsolado quando a proximidade lhe permite distinguir os três números à frente do nome da cidade: 333. “Ainda estás longe, mas nunca estive tão perto de ti”. Pára a scooter em frente à placa e regista o momento.
    Após algumas horas na estrada, resolve pernoitar em Tarragona, pequena cidade portuária a 100 quilómetros de Barcelona. O sol já se começou a esconder e o Puto faz questão de entrar na cidade olímpica durante o dia. Encontra um posto de abastecimento, estaciona a scooter e resolve ir pedir autorização ao empregado para acampar nas traseiras. A questão acaba por não ser colocada. Quando dá por ela já estão há três horas a conversar animadamente sobre aquele plano doido, já chegaram amigos do empregado, já se partilharam cervejas. Desde que partiu de Portugal o Puto apenas estabelecera conversas ocasionais de meros instantes, já sentia falta de um genuíno momento de convívio. Já a noite ia longa quando o empregado lança a pergunta:

    – E agora, vais dormir onde?

    Abana a cabeça quando o Puto lhe propõe acampar nas traseiras. Mete a mão ao bolso e retira de lá uma chave.

    – Estou a fazer o turno da noite, por isso podes ficar a dormir no meu carro até eu sair.

    Surpreendido e sensibilizado, o Puto dá-lhe um abraço. Sai para a aragem fria da madrugada, destranca a porta e aloja-se no banco de trás do Golf. Já não terá muitas horas de sono, mas vai dormir confortável. Retira o bloco da pasta e escreve durante alguns minutos. “Penso que amanhã o dia me vai correr melhor” é a frase que antecede o clique da lanterna e o ruído do fecho do saco-cama.
    Desperta às 8h00 com três pequenas batidas no vidro. Antes da despedida, é informado que junto às casas de banho há chuveiros que ele pode utilizar. 100 pesetas garantem-lhe cinco minutos de água quente. É o primeiro banho após quatro longos dias na estrada. Insere três moedas.


    Obstáculos olímpicos

    “Não acredito, outro?”. É o terceiro túnel que encontra para entrar em Barcelona, todos com acesso interdito a ciclomotores. Anda pelo menos duas horas às voltas até encontrar uma entrada. “Esta cidade é lindíssima, mas os acessos são complicados”. O pensamento é interrompido pelo toque do telemóvel. Reconhece o número, é de uma estação de rádio, para a entrevista diária. Está no meio do trânsito caótico de Barcelona, filas, buzinas, peões impacientes. Opta por subir uma rotunda e é entrevistado lá no meio, indiferente às centenas de carros que o contornam.

    Continua a perder-se no meio do quotidiano acelerado da metrópole. Por fim, desagua no Porto Olímpico, onde opta por parar. Senta-se num muro junto à marginal, na companhia de um Big Mac e uma Coca-cola. O tempo perdido às voltas deixou-o um pouco desgastado. Opta por permanecer uma hora naquele local, a relaxar o olhar e os restantes sentidos naquele mar sem ondas cuja serenidade se estende até ao horizonte.
    Deve ter permanecido ali mais tempo do que o previsto. Levanta-se com um salto. Alonga o corpo, respira fundo, sente-se revigorado, confiante. Senta-se na scooter e deixa que a brisa morna mediterrânica lhe agite os longos cabelos louros, antes de colocar o capacete na cabeça e arrancar, triunfante, ignorando o facto que irá passar as próximas quatro horas perdido a tentar encontrar a saída da cidade na direção de Girona.

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    No cansaço da estrada cada placa é um sopro de encorajamento

     

    Perdeu a conta às povoações que encontrou pelo caminho com a designação “Del mar”, até alcançar a cidade que os romanos batizaram de ‘Gerunda’. Já é de noite, mas França já está perto. Opta por encher o depósito e seguir viagem. A norte atravessa a vila natal de Salvador Dali, Figueres, convicto que os percalços do dia já tinham sido esgotados. Um enorme sinal indica-lhe que a estrada nacional está encerrada para obras e que a sua convicção estava errada. Está escuro como breu e o Puto está cansado, o dia foi longo, talvez o mais longo de todos. E agora, a meros trinta quilómetros de França, cortam-lhe o caminho. Enquanto deambula pela zona, vê uma placa com a indicação ‘AP – 7 La Jonquera’, a povoação fronteiriça que pretende alcançar. A placa é azul. É uma autoestrada.
    Sabe que essa via lhe é interdita, mas opta por seguir a seta, enquanto pensa no que fazer. Esse tempo para arejar ideias esgota-se num instante, pois a poucas centenas de metros depara com a barreira da portagem. Segue-se um momento de dúvida, de hesitação. Sabe perfeitamente que pode ser multado, rebocado ou, na pior das hipóteses, ter um acidente grave. Por outro lado, está farto de tempo perdido e voltas em vão. Retira o ticket, observa a cancela erguida à sua frente. Algures, um neurónio acelera um impulso eletroquímico que atravessa as células do seu corpo até chegar ao seu punho direito, que começa a rodar. Primeiro um bocadinho. Depois a fundo.



  • O PUTO QUE CRUZOU A EUROPA NO DORSO DE UMA SCOOTER «II – A Partida»

     

    O Puto esfrega os olhos. Não acredita que a sua Buxy é a mesma. Para além de ter efetuado uma revisão geral a todas as peças, a Peugeot instalou um conjunto de modificações na scooter que prometem ser bastante úteis. Colocaram um painel de plástico com iluminação junto ao visor, onde poderia ser encaixado o roadbook. Acrescentaram uma saída de isqueiro no painel principal onde, para além da chama, poderia ser carregada a bateria do telemóvel, ligada uma lanterna ou até alimentado um compressor portátil, instalado na lateral da motorizada. O Puto foi ainda surpreendido com um fato térmico vermelho, com botas a combinar, ambos forrados a neoprene para fazer frente às temperaturas negativas dos Alpes. “Estou ansioso por meter isto na estrada”, pensou, quando desembrulhou o presente de Natal antecipado. Falta menos de um mês para o arranque.


    Rodagem

    Contrariamente à expectativa inicial, a máquina não vai ser inaugurada na partida para a Alemanha. O Puto é aconselhado por um técnico da Peugeot a fazer uma viagem preliminar de rodagem, para preparar a mecânica renovada da scooter à violência dessa distância. Consulta o calendário de concentrações. Uma semana antes da data estimada da partida (18 Jan), tem a concentração dos Pinguinos, em Tordesilhas. Decide voltar a ir lá. Mais uma vez, Tordesilhas volta a ser um teste, uma derradeira etapa antes do sonho.

    Tordesilhas volta a ser um teste, uma derradeira etapa antes do sonho


    A palavra teste adequa-se mais do que nunca. O Puto não vai poder passar os 40 KM/hora na primeira metade da viagem. Ou seja, 600 quilómetros por estradas secundárias numa estimativa de 15 horas de viagem. Um verdadeiro teste à paciência e à determinação.

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    O Puto e a sua scooter, renovada para a viagem

    – Siga – afirma, mentalizado. Prepara a viagem em tempo recorde, inversamente proporcional à sua duração recorde. Arranca quando os primeiros raios de luz rasgam a noite. Chega a Tordesilhas de madrugada. Está estoirado, monta a tenda mas não vai dormir. Um espanhol reconhece o símbolo do grupo motard nas costas do seu colete. Aborda-o, descobrem que têm amigos em comum. Bebem uma cerveja junto à fogueira a poucos metros das tendas. O tema da grande viagem acaba por surgir.

    – A los Elefantes verdes? Eres un tonto. La lambreta no llega allí.

    – Espera e verás – afirma o Puto, acenando com a garrafa de San Miguel.  Sorri perante a descrença, já se habituou a ela. Nunca a ignora, armazena-a num pote invisível, ao qual pretende recorrer nas horas de maior dificuldade, em busca de combustível motivacional. Recorda um artigo que leu numa revista do pai sobre a psicologia das cores. O laranja era a cor da descrença, do pessimismo. Sorri ao apelidá-lo, mentalmente, de “pote laranja”. Sabe que não terá dificuldade em atestá-lo.

    Contempla por breves instantes aquele quadro. Ambos os companheiros da estrada estendidos ao relento, com as pernas esticadas e os pés aquecidos pela fogueira, as fagulhas que se elavam na noite invernal, tal como a suave arrogância do desígnio inimaginável daquele puto, o sonho impossível que paira sobre todas as atenções e se debruça sobre todas as convicções. Apetecia-lhe emoldurar aquele momento, capturar aquela sensação, aquele entusiasmo preliminar que embriagava cada célula do seu ser. Foi ali, numa noite emprestada pelo país vizinho, ao correr o zip e cambalear para dentro da tenda, que tomou consciência que estava a menos de uma semana da partida.

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    Ricardo Rodrigues num convívio motard, antes da partida para a Alemanha


    Artilhar a mota

    Os últimos preparativos foram os mais intensos. Como decidir o que levar numa aventura de 30 dias – quinze de ida, quinze de volta – e que coubesse no assento de uma scooter? Começou por dispor material em cima da cama e rapidamente chegou à conclusão que eram coisas a mais. Ia ter de fazer concessões.

    Tem dois alforges – cosidos pela tia numa espécie de tecido rígido típico das coberturas dos sofás – onde ia levar a roupa. Decide levar quatro mudas completas, não sabe se terá oportunidade de lavar/secar roupa com o tempo cinzento que se faz sentir. Decide juntar uma quinta, não cabe, retira-a. Enrola duas toalhas de banho e força-as para dentro dos alforges. Já não cabe lá mais nada. Amarrados com elásticos no corpo da mota, leva o saco da tenda, uma colchonete e três sacos-cama, que impermeabiliza com sacos pretos do lixo. Uma mala castanha de tiracolo – carregada com máquina e rolos fotográficos, documentos, papéis, canetas – serve de encosto no banco da scooter.
    Os punhos da motorizada estão cobertos pelo mesmo material dos alforges, numa capa improvisada para proteger as mãos da chuva e do frio, presa ao guiador com várias voltas de fita-cola. Amarrado à tralha, leva ainda um cantil antigo em pele, “mais para o estilo do que para outra coisa”.

    Passou os últimos dias a desdobrar-se em entrevistas para jornais e rádios locais. A curiosidade era grande e facilmente se alastrou, primeiro pela cidade, depois pelo distrito. Mais tarde, pelo país.

    No penúltimo dia, sentou-se na sala de reuniões do Clube Motard do GICA e passou a tarde a organizar um dossier de viagem. Escreveu à mão todo o itinerário de ida e volta, com todas as cidades por onde ia passar e uma estimativa de todas as zonas onde iria atestar o depósito e passar as noites. Fez um levantamento dos parques de campismo das cidades espanholas, francesas, italianas, austríacas e alemãs que iria atravessar. Juntou ainda um mapa português, um ibérico, um francês e um de toda a Europa Ocidental. Por último, inseriu uma folha rasurada com vários contactos de amigos ou conhecidos que vivem ao longo do percurso.

    Deitou-se cedo mas dormiu menos horas do que previa. A ansiedade mantinha-o acordado. “Cum carago, onde me fui meter? 18 aninhos e vou fazer uma coisa destas”, pensava, envolto numa mistura de receio com emoção, mas com uma vontade superior a tudo.


    Dia D

    A partida está marcada para as 20 horas. Durante a tarde, o Puto faz os últimos preparativos na mota. O depósito já está cheio, em ambas as faces dos alforges está bordada a bandeira portuguesa, e há mais um saco para juntar aos cerca de 50 quilos de bagagem. Foi cedido pela Câmara de Águeda e tem diversos materiais relativos à cidade (pins, brochuras, bordados, galhardetes) para serem entregues à organização do evento. Foi com algum assombro que constatou que a carga amarrada com cordas e elásticos duplicava a altura do assento da scooter em relação ao chão. “Não há-de ser nada”.

    Deitou-se cedo mas dormiu menos horas do que previa. A ansiedade mantinha-o acordado.

    Seguiu-se um lanche ajantarado de convívio no GICA com família e amigos. São muitos os abraços e as palavras de encorajamento, tais como os conselhos e as advertências. Ao descer as escadas, já em direção à mota, apercebe-se de um murmurinho à sua direita.“Não vai conseguir, vai dar o berro a meio, é muito quilómetro”. Sem que o emissor se aperceba, agarra na frase e enfia-a no pote laranja. “Levo comigo todo o combustível que puder”.


    Arranque

    O Puto está sentado na scooter. Acelera, sente-lhe o rugido. Estica-se para trás, sente o aconchego das tralhas que serão o seu mundo durante 30 dias. Todos esperam que ele arranque mas ele não levanta a âncora à mota. Durante um instante deixa-se abraçar pelos olhares de companheirismo e pela incondicionalidade do apoio, saboreia a antecipação, empolga-se com o ponto de interrogação que o irá acompanhar dia e noite a partir do momento que a roda se mover. Roda o acelerador e levanta os pés do chão. Entusiasmado como sempre, ansioso como nunca.

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    O Puto, no dorso bem carregado da sua Buxy, atravessa a escuridão da primeira de muitas noites rumo ao sonho

    Para já ainda não segue sozinho. Ao todo são cerca de 30 motas e 10 carros que formam uma comitiva que o acompanham nos primeiros 20 quilómetros da viagem, até à Mealhada. É nessa cidade, com o som das buzinadelas e a intermitência dos sinais de luzes nas suas costas, que sente que a aventura começa verdadeiramente.

    Chega a Coimbra rapidamente. Está habituado a fazer esse trajeto, há três verões consecutivos que ruma à concentração de Góis. É na cidade dos estudantes que sente necessidade de parar, para acondicionar a bagagem, que não pára de baloiçar. Muda alguns sacos de sítio, estica os elásticos. Aproveita também para atestar o depósito. A partir daí atravessa Góis, Pampilhosa da Serra, Castelo Branco, sempre sem parar.

    Chega à pequena aldeia fronteiriça de Segura por volta das 23:30. Precisa de encontrar bombas de abastecimento. 600 escudos enchem o depósito, com seis litros de gasolina, que dão para percorrer cerca de 100 quilómetros. É fundamental que encontre as bombas abertas, pois a cidade espanhola onde pretende dormir, Cáceres, fica ainda a 84 km de distância.

    Até aí tinha feito o percurso de memória, mas agora era preciso recorrer ao roadbook que tinha redigido. Procura a pasta, não a encontra. “Que raio, pensei que tinha deixado isso à mão”, pensa, mentalizado que vai ter de revirar a bagagem toda. A cada saco que abre, o receio adensa-se. “Queres ver?”. Quando retira as mãos do último, um arrepio gelado sobe-lhe pelas costas. Tinha-se esquecido da pasta na sala de reuniões do GICA. Voltar para trás não era uma possibilidade, teria de encontrar uma solução.

    Mete-se a caminho, percorre a estrada silenciosa que atravessa a pequena aldeia e avista ao longe a luz do néon das bombas. “Estão abertas, óptimo”. Junto ao balcão do empregado estão três amigos, que lhe fazem companhia nestes momentos monótonos do último turno.
    Vasculha a secção dos mapas, o mais completo que encontra é um ibérico. Quando o apresenta no balcão e pede para abastecer a scooter, a curiosidade instala-se. Uma pergunta, uma resposta, três, quatro, cinco perguntas, todas em simultâneo. A surpresa é geral e a emoção instala-se naquele pacato fim de noite do último estabelecimento com luz acesa na pequena aldeia fronteiriça.
    O puto afasta-se, com essa pequena luz cada vez mais ténue nas suas costas, de depósito cheio e com o corpo aquecido pelo café que recebeu do quarteto seguro, juntamente com o voto uníssono de “boa sorte”.

    Reduz a velocidade quando vê a silhueta escura da ponte romana sobre o Rio Erges, que separa Portugal de Espanha. Trava, desliga a motorizada. Deixa-se envolver pelo silêncio da noite invernal, uma noite solitária, anónima, perdida no meio do nada. Os candeeiros de iluminação estão desligados e as nuvens cinzentas cobrem o luar. Escuridão, silêncio, uma aragem fria que lhe toca no rosto e um sentimento dividido que lhe toca na alma. Deu o passo e agora está ali, prestes a atravessar a primeira de cinco fronteiras que o separam do seu destino final.
    Por um lado está animado com esta primeira etapa, por outro está envolto em alguma nostalgia, por saber que assim que atravessar aquela fronteira, estará 30 dias sem avistar o território do país que tanto ama. Mete as mãos no bolso do casaco e retira um walkman. Avança a fita da cassete durante alguns segundos. Volta a reanimar a Buxy e atravessa a ponte, com a chuva que o seu fato térmico permite ignorar e com a voz de Paco Bandeira bem alta nos ouvidos.

    “Ó Elvas, ó Elvas

    Badajoz à vista.

    Sou contrabandista

    De amor e saudade

    Transporto no peito

    A minha cidade”.



  • O PUTO QUE CRUZOU A EUROPA NO DORSO DE UMA SCOOTER «I – O Plano»

    Énoite cerrada, mas os clarões dos relâmpagos fazem parecer que o sol ainda se debruça sobre aquele sinuoso asfalto no norte de França. O Puto tenta a custo manter a sua scooter na estrada, mas os ventos são tão fortes que por vezes tem a sensação que está a conduzir inclinado, num ângulo de 45 graus, uma espécie de ‘moonwalk’ sobre rodas. Mas não há lua nesta noite, o céu está negro e denso, carregado de água que lhe cai vigorosamente em cima e lhe cobre a viseira do capacete. Tentara conduzir com ela aberta, mas o vento chicoteava-lhe os olhos castanhos ao ponto de os tornar vermelhos. Cego de uma forma e de outra, considera a primeira opção um mal menor. Percorre cerca de meio quilómetro nessas condições, até que a sensação de desequilíbrio deixa de ser uma sensação. Sente a motorizada a fugir e a ziguezaguear no alcatrão encharcado. Não sabe quanto tempo durou esse bailado aterrador, mas sabe que o levou para a via contrária, pois o olhar vislumbrou a forma disforme do tracejado branco no chão. Felizmente a estrada está deserta, ninguém arrisca conduzir com aquela tempestade. Determinado, finca ambos os punhos no guiador e consegue direcionar a motorizada para a sua berma, retirando-a da estrada e detendo-a a poucos centímetros de um poste de betão de eletricidade. Mantém-se sentado na Peugeot com o motor a trabalhar. Precisa de tomar uma decisão. Está ainda longe da povoação onde pretendia pernoitar. Olha para o seu lado direito e vê apenas a silhueta sombria de um bosque. Tem noção que montar acampamento numa zona com árvores durante uma tempestade é um erro que se pode revelar fatal. Mas conduzir 20 quilómetros naquelas condições também. Opta pela primeira opção, mas tenta minimizar o risco. Atravessa com facilidade a pequena vala que separa a berma do bosque e entra com a motorizada na vegetação, que não é alta. Apesar de molhados, os galhos do mato rasteiro estalam à sua passagem. A cada solavanco pensa duas vezes.

    “Que raio estou eu a fazer?”

    “Franceses do caralho, não limpam o mato!”

    “Vou lixar os pneus todos!”

    Entre outros pensamentos que povoam a sua mente, enquanto procura sem grande expectativa uma clareira. O clarão de mais um relâmpago sinaliza-lhe uma área mais aberta. Não é o desejável, mas é o melhor que poderá encontrar. Retira a tenda da carga que transporta na extremidade do banco da scooter. Monta-a num frenesim, com os dedos gelados e a chuva cada vez mais forte. Retira os sacos-cama, a colchonete e os alforges da roupa e atira-os para dentro da tenda. Deita a Peugeot junto à entrada da tenda, para o proteger do vento e para proteger a própria scooter, que dificilmente se manteria em pé no descanso. Já dentro da tenda, vira o fato impermeável ao contrário, enrola-o e transforma-o numa almofada improvisada. A lanterna está sem bateria, mas a luz quase se dispensa, pois de minuto a minuto, os relâmpagos iluminam-lhe o interior da tenda. Tenta calcular a distância do epicentro da tempestade, recorrendo a um velho truque que o avô lhe ensinara na infância. Sob a turbulência daquela noite invernal de 2000, recorda a conversa com lívida nitidez:

    “Quando vires um clarão, conta os segundos até ouvires o trovão. Se contares 10 segundos, não te preocupes que está longe, a cerca de 3400 metros de distância. Cada segundo corresponde a 340 metros. Isso acontece porque a velocidade da luz é mais rápida do que a velocidade do som”.

    O exercício, no entanto, não o conforta. Não chega a dois segundos e ouve um estrondo que lhe deixa os ouvidos a zunir. Coloca os auscultadores, aumenta o som e deixa que a música lhe abafe a trovoada.

    “O que tiver de ser será”, pensa. Rebola para o lado, esforça-se por adormecer. O sono não lhe faz companhia, ao contrário de um pensamento que já o visitara antes, ao longo dos milhares de quilómetros percorridos que o levaram até aquele ponto.

    “Será que vale a pena estar a passar por tudo isto?”

    Como em todas outras vezes, a resposta não se fez esperar e foi o melhor embalo que ele poderia ter. “Siga”.


    Como tudo começou

    A ideia despontou na cabeça de Ricardo Rodrigues em Agosto de 1998, enquanto passava as mãos por uma revista de motociclismo. Estava ansioso por ver o artigo sobre a Concentração de Faro, que ocorrera no mês anterior e onde ele marcara presença. “Será que apareço aqui?”.

    Folheou a publicação com sofreguidão, mas não encontrou nenhuma foto sua. No entanto, um pequeno artigo numa coluna prendeu-lhe a atenção. Era uma referência à concentração de Elefantentreffen, na Alemanha, a maior da Europa. Suspendeu o olhar no artigo durante alguns segundos, até que bateu com a edição na mesa e disse, bem alto:

    – Está decidido, para o ano vou à Alemanha!.

    – Tu és doido, Puto! – disse um dos colegas do clube motard do GICA (Ginásio Clube de Águeda), que estava com ele na sala de reuniões do clube.

    Ricardo Rodrigues sorriu duplamente. Por um lado porque sempre sorria quando ouvia a alcunha que carinhosamente recebeu do grupo, que já acompanhava desde os 15 anos. Por outro, porque sabia que estava convicto do que acabara de dizer. Sorveu mais um gole da Sagres e garantiu:

    – Podes escrever o que eu te digo.

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    Ricardo Rodrigues e a sua Peugeot “Buxy”

     

    A dúvida dos companheiros não se fizera sentir por descrença no arrojo do Puto. Já o conheciam bem; a descrença tinha morrido no ano passado, quando ele percorreu 1200 quilómetros (ida e volta) para ir à famosa concentração de Faro – sentado no dorso da sua Scooter, a sua acarinhada Peugeot, que disputou a presença no evento com Harleys e outras motas de grande cilindrada. Sempre fiel, sempre descomplexada. Já tinha repetido a experiência este ano, já tinha ido a mais de 21 concentrações de Norte a Sul, oito delas, duas vezes. Mas todos esses quilómetros no lombo pareciam algo embaciados naquele instante, perante o ardor da aventura que se propunha a enfrentar: Nove mil quilómetros numa scooter, para ir e regressar ao sudeste alemão.

    Digeriu a ideia durante uns meses. Sabia que uma expedição daquelas ia exigir um planeamento com grande antecedência. Para além disso, era menor, o que poderia revelar-se um obstáculo casos os pais discordassem da ideia. Optou por não lhes contar, para já.

    Cinco meses depois, em Janeiro de 99, decidiu rumar à concentração dos Pinguinos, no miolo do norte espanhol, em Tordesilhas. Embora estivesse seguro do plano na Alemanha, decidiu fazer um outro antes, como preparação, teste e até por um certo simbolismo romântico. Afinal de contas, tinha sido naquela região que há cinco séculos fora assinado o célebre tratado que dividia as terras por descobrir do mundo em duas fatias, uma para o reino português, outra para o espanhol.

    Também o Puto ia em busca do desconhecido. Da mais arrojada, impensável aventura que alguma vez imaginara. Encararia o sucesso destes 1300 quilómetros como um sinal que o seu desígnio maior valia a pena. E lá arrancou, no penúltimo Janeiro do milénio, rumo a uma ‘concentración motera’ que é considerada a maior da Península Ibérica. Coincidência ou não, foi a concentração que decorreu com menos desaires. Era o sinal que precisava.


    Planeamento

    Passou o resto de 99 a planificar a aventura. Comprou mapas, leu relatos, pesquisou sobre a história da concentração. Entre outros detalhes interessantes, descobriu a razão do batismo da concentração, que se traduz: “O Rali dos Elefantes”. Ganhou esta alcunha na sua primeira edição, em 1956, que visava ser um encontro exclusivo de motoqueiros que conduziam a Zundapp KS 601, uma moto ‘sidecar’ verde do pós-guerra alemão que, tradicionalmente, era conhecida por “Elefante Verde”. Os anos e as décadas foram passando, a concentração foi-se diversificando e é agora o destino anual de cinco a dez mil participantes, que se prontificam a enfrentar o rigoroso inverno da Bavaria com todo o tipo de motas de alta cilindrada. No primeiro mês do novo milénio, teria de ser a vez de uma scooter lhes fazer companhia. 

    Também o Puto ia em busca do desconhecido. Da mais arrojada, impensável aventura que alguma vez imaginara

    O Puto já tivera o sinal que precisava, mas ainda não tinha luz verde. A mudança do semáforo só ocorreria quando obtivesse os patrocínios que lhe permitiriam financiar a expedição.

    Numa estimativa preliminar, imaginou a aventura em 400 contos, excluindo assistência mecânica e alguns materiais. Na companhia do seu companheiro de muitas estradas, Vasco, dirigiu-se ao importador oficial da Peugeot em Aveiro, mas não passou da rececionista.

    Já estava a ficar desanimado, quando ouviu o amigo dizer:

    – Eu conheço o tipo, é aquele que está a entrar agora.

    O Puto não hesitou e abordou-o. Explicou-lhe detalhadamente o seu plano, informou-o da sua experiência nesse tipo de planos. E sublinhou o quanto positiva uma aventura destas poderia ser para a promoção da marca. Percecionou uma expressão intrigada no rosto do responsável, que rapidamente se desfez numa sugestão recetiva.

    – Escreve uma carta a manifestar a tua intenção e redige um orçamento detalhado do apoio que pretendes de nossa parte. Deixas cá e eu apresento isso na próxima reunião da direção.

    O puto apertou-lhe a mão e saiu, animado. Nessa mesma noite, redigiu uma carta, que terminou com este parágrafo:

    “Dizem os veteranos nestas andanças que esta é a concentração mais difícil do mundo, devido às suas extremas condições atmosféricas. Pelo que conheço de mim – e pela experiência que tenho – isso não será um obstáculo para concretizar esta viagem”.

    Reúne à carta de intenção um currículo com todas as concentrações percorridas com a sua Peugeot (modelo Buxy) até à data – cerca de quatro dezenas, nas quais percorreu 18.600 quilómetros – e o orçamento. Estimou a alimentação em 170 contos, a hospedagem em 130 e o gasto com os combustíveis em 100. 400 contos – numa estimativa que sabia ser algo otimista, mas era a isca que decidira usar –  que o separavam da sua aventura.

    O dossier é entregue no dia seguinte, mas o Puto não quer ficar à espera da resposta. Contacta 30 empresas/entidades da região Centro a pedir patrocínios. Apenas quatro respondem, mas todas positivamente. Algumas dão material, outras, dinheiro.

    Nessa altura já informara os pais que, desconhecendo os contactos estabelecidos, tinham recebido a informação com descrença. “Em breve isso passa-lhe”, terão pensado.

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    Os cheques começam a chegar e a expressão parental muda de figura:

    – O quê? Mas o gajo afinal vai mesmo?

    Bem-disposto num bar, o Puto partilha o olhar estupefacto de ambos com os amigos, quando lhes mostrou a correspondência.

    – Quando viram o graveto a chegar, nem queria acreditar – refere, perante mais um golo na cerveja, concluindo de seguida – Pá, estão apreensivos, é normal, mas sei que quando chegar a hora me vão apoiar.

    Eram apoios encorajadores, embora no fundo o Puto soubesse que o patrocínio decisivo estava ainda por concretizar. Passa os dias seguintes com o ouvido no telemóvel e o olhar na caixa do correio. Quinze longos dias, até que emergiu uma mensagem do verde monocromático do seu Nokia: “Apoiamos em tudo!”. A resposta da Peugeot era a derradeira das certezas. “Já consegui, já nada me vai parar”.

    No dia seguinte, descobre que o “tudo” ultrapassa todas as suas expectativas. Esperava uma fatia do que tinha orçamentado e manutenção da motorizada antes da partida. Obteve o orçamento na íntegra, uma revisão geral à motorizada, um fato de neve e assistência em todos os países por onde ia passar.

    Fica combinado que tem de entregar a motorizada na Peugeot em meados de Novembro, onde ficará um mês, sendo que Janeiro é a data marcada para o arranque para a Alemanha.

    Mas estamos em pleno verão e a tentação paira no ar. O Puto decide ir à concentração internacional de Sanchenxo, no noroeste espanhol. Mais seiscentos quilómetros e umas quantas histórias no currículo. Os meses do calor passam a correr. Em pleno fim de milénio, são muitas as conversas se prolongam pelas madrugadas dos cafés. O conflito em Timor Leste, a queda do avião que vitimou o filho de Kennedy, as profecias de Nostradamus sobre o fim do mundo, o bug informático 2k, a aguardada estreia de “The Matrix”, entre outras problemáticas em relação às quais o Puto parece imunizado. A aventura alemã povoa-lhe todos os pensamentos, todas as conversas. Começara a contagem decrescente.