Já passaram nove verões desde que me apaixonei pela cor destas águas. Há nove verões que sonho com esta mescla vibrante de verde e azul que nos inunda os olhos e afoga todos os outros sentidos. Parece que estou num mar distante das Caraíbas. A tonalidade exótica do mar, a floresta luxuriante que alcança o areal, a areia fina, a brisa suave, as inúmeras histórias de piratas que aqui desaguaram e enterraram os seus tesouros. E, no entanto, estou numa ilha no Norte de Espanha.
Vim cá pela primeira vez quando fiz 30 anos (podem ler esse relato aqui). Foi uma visita relâmpago, de apenas 24 horas. Na altura, prometi regressar e explorar estas Ilhas Cies devidamente. Hoje – anoto no diário de bordo – nesta cálida manhã de 21 de Agosto do ano de 2016 do nosso Senhor, voltei a desembarcar neste pedaço de terra algures no Atlântico.

A única forma (legal – e escrevo estas cinco letras com um sorriso maroto, descortinado no relato acima referido) de pernoitar essa ilha é no parque de campismo. Do porto ao parque é cerca de um quilómetro, incluindo a travessia de uma ponte de pedra que fica submersa ao anoitecer. A alternativa é um longo areal em forma de quarto minguante que, visto de cima, dá um aspeto ainda mais tropical a estas ilhas que os romanos batizaram de ‘Ilhas dos Deuses’, alcunha que os séculos e os espanhóis transformaram num onírico ‘Ilhas dos Céus’.

Após montar acampamento, passei o resto do dia na praia principal da Ilha, a Playa de Rodas, que o jornal britânico The Guardian considerou a mais bela do mundo em 2007. A beleza hipnotizante destas águas faz-nos mergulhar de forma quase instintiva e ignorar os seus 17 graus. Estou a mentir, nunca ignoramos. A água é gelada e são precisos alguns instantes arrepiantes, antes do corpo se habituar e podermos então nadar à vontade. É aí que o sentido hipnótico se faz sentir e podemos flutuar ao sabor de uma corrente quase inexistente naquele mar tão fascinante que parece divino. Como se um deus qualquer da antiguidade tenha um dia decidido derreter esmeraldas e turquesas e despejar aqui o fruto da sua experiência.

Foto: Vortex Magazine

 

Já é noite quando janto na esplanada do bar do parque, que apelidei de ‘velha taberna pirata’. Tento atenuar o sabor de um panado de porco intragável com uma segunda cerveja. Está gelada, perfeita para uma noite quente de Agosto. Despejo na mesa todas as anotações, mapas e artigos que imprimi sobre a ilha. Vou tentar planificar os próximos dias e também aprofundar um pouco mais a pesquisa sobre a ilha. Embora eu tenha o hábito de me referir a ela no singular, na verdade são três ilhas. Todas têm nomes, mas também são conhecidas pela sua orientação geográfica e eu gosto mais assim. Estou na ilha do Meio, que está ligada à ilha do Norte pela ponte de pedra/areal que referi atrás. Depois há a ilha do Sul, separada por poucas milhas e raramente visitada.

História da ilha

Há registos de presença humana nas Ilhas Cies desde 3500 AC. Há ruínas de dois castros (Idade do Ferro e Bronze) e foram encontrados inúmeros vestígios romanos. Na época medieval foram oferecidas à igreja e ocupadas por monges, que construíram dois mosteiros. O mosteiro de San Martiño (Ilha Sul) e o San Estevo (Ilha do Meio), em cujas ruínas foi erguido o Centro de Interpretação. Após a extinção das ordens religiosas, tentaram repovoar a ilha no século XIX. A tentativa falhou. Nos anos 60 toda a gente deixou de lá viver. Exceto um, mas isso é para descobrir mais à frente. Por enquanto, já vou na quinta Estrella Galicia e continuo a ler sobre os mistérios da ilha.

Pirataria na ilha

Pelo nevoeiro dos séculos passaram muitos piratas por esta ilha. A maior parte atracou de forma pacífica e respeitou, relativamente, a população religiosa. A exceção foi Francis Drake. O famoso corsário inglês – que inspirou a personagem Natham Drake, que é seu descendente na saga de videojogos Uncharted – arrasou a ilha e usou-a como base quando atacou Vigo e Baiona no século XVI. De 1568 a 1589, o corsário aterrorizou e saqueou estas cidades diversas vezes. Ainda hoje, por vezes os pescadores locais recolhem bolas de canhão nas suas redes de pesca. Entre os incontáveis barcos naufragados ao largo destas ilhas, há dois galeões espanhóis que se tornaram lendários. “Santo Cristo de Maracaibo” afundou em 1702, perto da Ilha do Sul. Tinha os porões cheio de ouro e prata das Américas. Nesse mesmo ano, após embater nos rochedos próximos das ilhas, o navio mercante “Nuestra Señora de los Remedios” naufragou juntamente com toda a preciosa varga de trazia de Havana. Ambos os tesouros nunca foram encontrados.
No entanto, as preciosidades não estão apenas no fundo do mar. Os piratas usavam ilhas como esta – praticamente desabitadas – como “cofres” para guardarem os seus valiosos saques.
Por entre os areais cândidos como pérolas das Ilhas Cies, os densos bosques ou grutas que mergulham na escuridão, abundam as histórias e lendas sobre antigas arcas escondidas com tesouros inimagináveis por destrancar.

 

 

Explorar a ilha

O barulho das ondas entra pela tenda adentro e desperta-me. O sono e a vontade de explorar. O parque de campismo fica no meio de um pinhal mesmo em frente à praia. Sento-me na manta em frente à tenda, tomo o pequeno-almoço e parto à descoberta, com o sorriso de uma criança deslumbrada. Há apenas um (muito) ligeiro travo amargo nesse sorriso. Deixei todo o meu material fotográfico em casa. Queria fazer planos à vontade na praia e no mar, sem estar minimamente preocupado com a segurança do material na tenda. Entre o magnífico potencial fotográfico deste sítio e a liberdade imperturbável de usufruto, optei pela última. O telemóvel vai ter de substituir a velha companheira Canon 40D. Para além dele, vou equipado com uns binóculos, um mapa rasurado e uma handycam.

 

 

Passei os cinco dias a explorar cada recanto da ilha. Fiz o trilho que rasga quase toda a ilha do Norte, até ao Farol de Monteagudo. É nesta ilha que está a montanha mais alta e escarpada de todo o arquipélago. Chamam-lhe “Monteagudo”: ‘Montanha afiada’. Nesta zona, procuro uma gruta junto ao mar, a ‘Furna de Monteagudo’. Há relatos com rugas e cabelos brancos que garantem que as suas profundezas escondem um velho tesouro pirata.  Segundo li, foram descobertos alguns dobrões do século XVIII nas suas imediações.
A gruta não é muito difícil de encontrar. Há um trilho que segue do farol em direção ao mar. No fim do caminho, encontramo-la à direita. Basta aproveitar a maré vazia, escalar algumas rochas e estamos perante essa enorme boca rochosa que engole ondas do tamanho de autocarros durante a maré alta. É de manhã e a turbulência e o rugido das águas lá dentro desencorajam qualquer plano idiota de lá entrar. Nem quero imaginar ao anoitecer, com a subida da maré.

 

 

Regresso, sem ouro mas enxuto. Por pouco tempo. Algures no coração da ilha descansam as ruínas de um castro da idade do bronze. Após percorrer um caminho de terra ladeado por capim dourado à altura da cintura, encontro-o num meio de um bosque. Percorro-as, acaricio essas rochas antigas, inspiro essa ancestralidade. Neste solo de terra e caruma foi encontrado um anel de ouro do século II, que está hoje no Museu de Pontevedra. Quantos mais estarão por descobrir? Enquanto penso na resposta, os céus estalam com um relâmpago. Como nas ilhas tropicais, não há aviso prévio, a tempestade chega de repente. A chuva é morna, leve e agradável. Acompanha-me o resto do caminho.
Já na outra extremidade da ilha nortenha, subo ao ‘Alto do Príncipe’, um planalto rochoso a 111 metros de altitude com vista para a baia e para as montanhas do Sul. É o melhor sítio para ver o pôr-do-sol nas Islas Cies.

 

 

Seguiram-se mais dias e mais trilhos. Todos os trilhos da ilha. Caminhos cheios de vegetação que nos levam a bosques serrados, praias escondidas, habitações em ruínas ou velhos cemitérios com muros de pedra e campas de areia. Caminha-se sobre terra, pedra, caruma ou areia. A ilha tem imensas faces, de Norte a Sul, Este a Oeste.

A subida mais árdua é ao farol principal das Cies que se ergue no topo de uma montanha íngreme. Após um dia inteiro a deambular por outras paragens, senti-me ofegante a subi-la ao entardecer. Nesses momentos, até a fúria do vento ascendente parecia ajudar a empurrar-me até lá cima. A vista extraordinária recompensou o esforço. Com a ajuda do zoom da máquina de filmar deu, inclusivamente, para ver grupos de pessoas empoleiradas no ‘Alto do Príncipe’, onde tinha estado 48 horas antes. Nas Cies é comum dar-se as boas-vindas à noite no topo das montanhas.

Foi nessa descida, algures a Oeste da ilha do Meio, que encontrei o abrigo onde passei a noite há nove anos (ler preâmbulo). Fiquei lá alguns minutos, num silêncio acompanhado pela brisa noturna, pelo ondular do capim e pelo cântico das cigarras, com um céu azul escuro, laranja e vermelho, avistado por entre a janela de pedra da caricata formação geológica a quem chamam ‘Pedra da Campá’.

 

 

Iniciei o dia dos meus 39 anos debaixo do mar. Fiz mergulho numa praia chamada ‘Nosa Señora’, protegida numa enseada da ilha, com águas tranquilas e transparentes que permitem observar cada detalhe da sua diversa biodiversidade aquática. A praia é lindíssima, deixei-me ficar por lá durante a tarde.

A poucos metros, a tão poucos metros dali, no topo da encosta rochosa que protege a praia, estava a casa do El Chuco (ler preâmbulo). Nem em 2007 nem em 2016 soube da existência desse ermita hospitaleiro que recebia visitantes com admirável simpatia. Que história incrível poderia ter surgido se tivesse optado por o visitar há nove anos em vez de pernoitar no abrigo. E mesmo agora, teria tido todo o prazer em comprar mantimentos e ir lá oferecê-los para o jantar e passar o serão com uma garrafa de rum – bebida que detesto mas, em terra de piratas bebe-se bebidas de piratas – a conversar com ele e ouvir tantas histórias que terá recolhido em quase trinta anos de exílio auto-infligido.

Li tantas coisas sobre a ilha, é inacreditável como só descobri a existência de El Chuco quando me sentei para escrever estas linhas em 2019. Após décadas de liberdade nesta ilha, um cancro arrancou-o do seu paraíso. Morreu em Vigo, numa cama de hospital, no Dezembro passado. Li, numa emocionante reportagem do El Español, que os amigos tinham reunido 2400 euros para cremar o seu corpo e que tinham espalhado as suas cinzas na ilha.

Nessa noite, por mera coincidência, jantei na esplanada onde há nove anos tinha bebido um chá para aquecer o corpo encharcado de chuva. Afinal não é um café, é um restaurante. O melhor restaurante da ilha. Chama-se Serafín e é lá que se come o melhor peixe das Cies. Perante um longínquo céu tempestuoso algures sobre Vigo e na companhia da namorada, de um pargo maravilhosamente grelhado, suculentos pimentos padrón e uma garrafa fresca de vinho branco, dei as boas-vindas ao meu trigésimo nono Verão.

Levantar âncora

Já no barco, com as montanhas da ilha cada vez mais pequenas no horizonte, sinto um encanto difícil de explicar. Nesta ilha parece perdurar uma sensação peculiar de liberdade. Talvez aliada às memórias antigas dos piratas que aqui passaram. Talvez seja o seu aspeto selvagem, quase exótico. Quando nos afastamos do parque de campismo e do porto – onde estão reunidos os poucos estabelecimentos – a ilha parece deserta, um paraíso virgem cheio de natureza inexplorada.
Talvez sejam as manhãs no acampamento, deitado numa manta a olhar para o céu azul e para o topo dos pinheiros a ondular com a brisa, a ouvir as ondas e a sentir o cheio de café acabado de fazer no campingaz. Tão simples de descrever, tão idílico de vivenciar.

 

 

Talvez sejam as páginas de “A Ilha do Tesouro”, de Robert Louis Stevenson, que devorei durante esta estadia, provavelmente o segundo melhor sítio do mundo para ler esta história apaixonante de velhos lobos do mar. Talvez seja a rústica taberna pirata onde todos convergem.
Talvez seja o quotidiano da ilha, ao qual nos familiarizamos com a passagem dos dias. Passamos a reconhecer os náufragos (ali são náufragos, não turistas), reconhecemos os seus rostos nas manhãs e nas noites. Partilhamos o cansaço dos trilhos, os pequenos transtornos, os muitos encantos, todo um estilo de vida mútuo que adotamos durante a estadia neste pedaço de terra em forma de lua com parecenças e reminiscências caribenhas. Talvez tenha sido tudo isso que encantou Germán Freijeiro e o transformou em El Chuco, quando decidiu hastear uma bandeira com caveira e ossos e ali passar o resto dos seus dias. Talvez seja uma frase, a mais bela frase que, como um pirata devasso, saqueei à reportagem do El Espanõl: “Pois aquela bandeira, símbolo da liberdade mais selvagem, mais absoluta, impregnou este lugar com o seu espírito”.

 

Na nossa página do Facebook foi publicado um álbum com fotografias suplementares que não integraram este texto. Foi também publicado um vídeo  com diversas filmagens que retratam os trilhos, o  quotidiano e as maravilhas naturais da ilha.

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